Este artigo reúne o resultado de algumas pesquisas e as reminiscências de uma comunicação realizada em novembro de 2025, por ocasião do VIII Colóquio Séries de TV e Streaming em Diálogo, organizado pela UEMG. O evento tem por objeto as produções exclusivamente ofertadas pela TV e pelos serviços de streaming, que vem ganhando cada vez mais espaço de mercado e opção de consumo por mais da metade do público. O conceito de “espetacularização da violência” presente neste artigo, lida com a transformação dos atos violentos e criminosos, bem como de personagens brutais que marcaram a história em produtos de consumo, entretenimento e tática algorítmica para angariar audiência e conquistar a lista dos mais assistidos, popularizando, cada vez mais a plataforma digital em questão. A pesquisa acaba afunilando em três estratégias: 1). o sensacionalismo, que explora, sem limites e, às vezes, ferindo a ética, o ato criminoso e a própria autoria; 2). a lógica do espetáculo, tirando, por vezes, o contexto social, transformando a história em show, estabelecendo vilões e mocinhos; e, 3). o consumo do terror, partindo da lógica de que o sofrimento alheio vira passatempo e gera views de audiência.
Alguns pesquisadores e especialistas nos guiaram nesta investigação teórica. O produto midiático que nos deu arcabouço para a pesquisa é a antologia criminal de Ryan Murphy e Ian Brennan: Monstros, criada para a Netflix. Monstros vai lidar com grandes nomes de serial killers que marcaram a história. O primeiro capítulo é lançado em 2022, explorando o caso real do conhecido “canibal americano”, o serial killer Jeffrey Dahmer. O sucesso foi tão estrondoso que Evan Peters, ator que deu vida ao personagem, foi premiado por sua atuação e a série recebeu notas positivas pela crítica. Em 2024, Monstros trouxe a história dos Irmãos Menendez. Culpados pelo assassinato dos pais em 1989, o segundo capítulo tinha um diferencial no roteiro: lidar com um caso que teve grande influência midiática. Já em 2025, Ed Gein foi o personagem do terceiro capítulo e, o quarto capítulo, lançado em 2026[1] trouxe uma das primeiras figuras femininas serial killer da história: Lizzie Borden, uma jovem que foi acusada por assassinar os pais a golpes de machado.
Ryan Murphy é escritor, jornalista e produtor de cinema e TV. Tem em sua filmografia 3 Globos de Ouro e 6 Emmys, além de acumular dezenas de indicações reconhecendo seu trabalho. Responsável por grandes produções como American Horror Story (2011 - presente) que já está em sua 13ª temporada; Glee (2009 - 2015); Scream Queens (2015 - 2016); Ratched (2020); e as recentes Grotesquerie (2024); The Beauty (2026); Estilhaços (2026); Love Story: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette (2026), dá para perceber que Murphy não tem muito freio na seara produtiva. Só em 2026 ele já emplacou, pelo menos, 5 produções televisivas. Murphy faz parte do que Hollywood chama de “seleto time de produtores executivos que são garantias de sucesso”, mesmo que isso “não represente audiência em primeiro lugar, mas, sim, apelo midiático”. Fica óbvio que ele vende uma marca: em todas as suas produções é perceptível que o foco sempre está numa espetacularização da violência em si, seja fictícia ou ancorada em fatos reais e na sexualização que chega a ser obscena na maioria de seus personagens.
Tal espetacularização apresenta uma sobrecarga de certa agressividade e violência e o apelo midiático fica a cargo do exagero erótico que ultrapassa os limites da permissividade. Perde-se o interesse pela conexão com o real, ou seja, a discussão sobre os fatos reais do que se assiste perde relevância. Mesmo sendo julgado por “superficialidade”[2] em suas obras, isso não o impede de estar no topo da lista dos mais assistidos e dos mais comentados nas redes sociais. Nesta última década, as plataformas digitais têm encontrado uma nova “mina de ouro” que cativam cada vez mais novos assinantes: os serial killers. Em Monstros, série antológica da Netflix, a produção resolveu abraçar estes personagens reais. O resultado disso é que se nota o quanto que estes personagens rendem público, interesse financeiro, ganham relevância e oportunidade de recontar a mesma história, explorando novas perspectivas de compreensão.
A figura do serial killer, enquanto prática é, na visão de Miriam E. Gorender, “antiga e a mudança ocorre na ênfase dada pela mídia”. Gorender ainda afirma que “o fascínio que o fenômeno exerce sobre o imaginário atual é inegável”[3], ao revisitar o caso conhecido como Jack o Estripador. Tal fascínio que povoa as consciências e as releituras que o audiovisual provoca, coloca as produções de Murphy sob um olhar: o da existência de público. Pois, se há público, é porque tem audiência e se tem audiência, mais capital gira e, se mais capital gira, é sinal de que devemos explorar ainda mais este tipo de produção. Contando com 4 capítulos até então[4], Monstros tem a pretensão em carimbar qualitativamente estes personagens históricos, mas com uma inversão de valores: quem são, de fato, os verdadeiros monstros de toda esta narrativa e da nossa própria história. O elemento dúbio não deixa de pairar sobre nós a cada temporada da série de Ryan Murphy e de Ian Brennan.
Para falar de narrativas monstruosas, é impossível não recordar de Mary Shelley que, aos 17 anos, escreveu Frankenstein. Um clássico romance, marco na literatura da ficção-científica, que já possui mais de 60 adaptações cinematográficas e que explora o universo das criações monstruosas que extrapolam os limites da tecnologia e da ciência. Independente das críticas que ranqueiam as adaptações do original da jovem escritora britânica, em todas elas há uma questão que é central: quem é, de fato, o monstro? O Frankenstein, ou o humano que desafiou a lógica da ciência e da natureza e quis provar para si que é deus podendo manipular a vida e a morte? Há uma ideologia monstruosa em querer destituir toda lógica científica e que o ser humano pode ser mais e maior se ele desejar ser.
Isso pode se configurar em certa soberba, aquela forte sensação de se sentir maior, melhor, mais poderoso. Neste caso, o foco no sensacionalismo explora a história sem se importar com sua veracidade. Não quer dizer que os fatos serão deturpados em prol da maior audiência adquirida, contudo, isto não se torna uma linha limite. Em casos como este que são explorados nos seriados de TV, Umberto Eco vai nos dizer que na série, o telespectador acredita que “está desfrutando da história, mas, na verdade, distrai-se seguindo um esquema narrativo constante”[5] e ainda fica satisfeito quando percebe que encontra no personagem certo reconhecimento consigo. E é isso que o sensacionalismo faz: é quase que uma manipulação silenciosa, provocada por doses homeopáticas que só são possíveis por conta dos inúmeros episódios.
Quem é, de fato, o monstro da história? Como que este rótulo vende tanto? Não seriam os serial killers os verdadeiros heróis? Será que o vizinho é o monstro? Será que o que o canibal fez, foi culpa dele? É justo chamá-lo de monstro? Será que monstro não sou eu por me identificar com essa história? Será que aqueles irmãos não foram erroneamente julgados? É isso que a lógica do espetáculo faz: coloca-nos todos no mesmo pacote e ao lado do “monstro”. Quando Shelley criou a história de Victor Frankenstein, ela desejava escrever “uma história que falasse aos misteriosos medos de nossa natureza e despertasse um espantoso horror, capaz de fazer o leitor olhar em torno, amedrontado, capaz de gelar o seu sangue e acelerar os batimentos do seu coração”[6]. Em Monstros, Ryan Murphy e Ian Brennan tentam explorar algo que afeta a nossa consciência. A lógica do espetáculo é vender cada vez mais, afetar nossos desejos e explorar sentimentos e pensamentos.
E, depois vem o gênero do terror. Que, neste caso, é usado como instrumento algorítmico para a comercialização. Especificamente no caso de Murphy, o gênero explora 5 formatos que são sintonizados na mesma frequência: 1). o true crime: que lida com personagens reais, numa história de não-ficção, mesmo quando há a presença de momentos fictícios para endossar o consumo em prol do sofrimento alheio. Isso acontece com o quarto capítulo da antologia, no caso de Lizzie Borden[7]; 2). o horror: que permite à produção extrapolar os limites do choque e da repulsa humanas, fazendo-nos reviver “tudo de novo”; 3). o soft porn: que consiste exclusivamente no conteúdo sexualmente sugestivo, às vezes abusivo, obsceno, mas prazeroso e “convidativo”. E isso dá audiência, e muita; 4). o terror: não como gênero, mas como formato, quando assume o gore, por vezes, o susto, o medo e o suspense “a lá” James Wan; e, 5). o serial killer: pois tudo acontece por causa dele. Tudo existe por ele, para ele e com (ele) o personagem. Ele é o motivo, a razão, o criminoso ardil, mas, muitas vezes amado, e, quase nunca odiado. Idolatrado e jamais julgado; sensibilizado e explorado, mas nunca desprezado ou esquecido.
Para uma tentativa de conclusão, talvez este texto deixe algumas “portas da reflexão” abertas para que cada leitor e leitora possa ir encontrando possíveis caminhos para compreender que tipo de sociedade estamos construindo. Byung-Chul Han é um filósofo moderno sul-coreano que tem buscado nos apresentar um retrato social bastante condizente com o nosso tempo. Muitas são as suas obras, curtas, rápidas e práticas, mas, ao mesmo tempo, profundas em suas teorias. Em A Expulsão do Outro (2022), Chul-Han alerta-nos sobre uma sociedade que perdeu a capacidade de lidar com o estranho, o conflitante, o imprevisível e tudo aquilo que o outro representa: “o tempo no qual havia o outro passou” (Chul-Han, p. 7), sem o outro, não precisamos mais conviver, escutar e zero relações. As questões que ficam são: quem é - ou o que é - o outro para mim? Que tipo de relação eu construo com o outro? Esta espetacularização do outro tem regurgitado em mim o mesmo sentimento de violência e amor ao ódio?
Já em A Crise da Narração (2023), Chul-Han afirma que a sociedade está perdendo sua capacidade de construir narrativas duradouras. Isto afeta a memória e a consolidação de identidades firmes e enraizadas na história. Perdemos a alteridade, a comunidade e a proximidade: “não narramos mais histórias uns aos outros (...) em vez disso (...) postamos, compartilhamos e curtimos. (...) As narrativas criam coesão social” (Chul-Han, p.122). Ainda acreditamos no valor da presença e da comunidade? Ainda vemos o outro como alguém próximo? Alegramo-nos com a presença do outro? Com as histórias dele? De 2026 temos Não-Coisas (2026a) e Sem Respeito (2026b). Chul-Han preocupa-se com a perda da experiência real, por isso que “não-coisas” é a perda do toque, do prático, da vivência e a atrofia da memória e da reflexão. A única posse que se valoriza é a do capital, as coisas (e experiências) deixam de ser construtoras de memória e passam a ser consumidas e descartadas: “o coração bate em direção ao outro. Nós também encontramos o outro nas coisas do coração. Eles são, muitas vezes, um presente do outro” (Chul-Han, p. 133).
Por fim, Sem Respeito (2026b) só faz coroar todo este pensamento, com suas indagações a respeito do que socialmente valorizamos e defendemos como valor. Chul-Han essa perda do respeito é a perda da capacidade de reconhecer o outro na sua diferença, completude e alteridade, sem consumi-lo, sem objetificá-lo a bel prazer de interesses desumanos e descartáveis. “A falta de respeito, que hoje sentimos de forma latente em toda parte e que, não raro, se torna agressão contra os outros, reflete uma profunda crise social” (Chul-Han, p. 24). Como enxergo o outro no meu dia a dia? O que o outro representa para mim, para minha história? Como me relaciono com o outro? Como qualifico o outro?
À guisa de uma conclusão, quando nos deparamos com uma sociedade que está enjaulada em experiências que fomentam a espetacularização da violência, o desejo pelo ódio, a exposição sexual de forma exacerbada e escrupulosa, fica claro que as provocações apontadas por Byung Chul-Han não estão tão distante de nós. Vivemos numa era em que valores são transformados em mercadorias. A dignidade humana passa a ser comercializada, como se ela tivesse algum preço palatável e a justiça é rebaixada para um sistema competitivo “a lá”, “quem dá mais!”. Nesta jaula insocial encontram-se as narrativas criminais e de exposição carnal soft porn, que continua conquistando público e dinheiro.
Artigo de Dione Afonso Rodrigues Pereira
Jornalista, Roteirista, Professor e Cronista
Outubro de 2026.
ECO, U. – Sobre os espelhos e outros ensaios. São Paulo: Perspectiva, 1989.
FRANICH, D.; BALDWIN, K. – “Hollywood” review: Ryan Murphy’s showbiz dramedy splits EW’s critics. Disponível em: https://ew.com/tv/tv-reviews/hollywood-review-netflix- ryan-murphy/;
HADDEFINIR, H. – Ryan Murphy e a jornada que o levou a ser um dos produtores mais poderosos da TV Americana. Disponível em: https://www.omelete.com.br/series-tv/ryan- murphy-e-a-jornada-que-o-levou-a-ser-um-dos-produtores-mais-poderosos-da-tv-americana;
HAN, B. C. – A expulsão do outro: sociedade, percepção e comunicação hoje. Petrópolis: Vozes, 2022;
HAN, B. C. – A crise da narração.Petrópolis: Vozes, 2023;
HAN, B. C. – Sem respeito: uma crise social. Petrópolis: Vozes, 2026a;
HAN, B. C. – Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida.Petrópolis: Vozes, 2026b;
MOURA, L. A. – A seriação como novidade: a originalidade vinda da repetição. Os serial killers e a mídia. In.: IS Working Papers, 3a série, n. 53. 2017;
PEREIRA, D. A. R. – “Monstros: Dahmer – Um Canibal Americano” e a narrativa monstruosa que impactou uma nação inteira. Disponível em: https://www.projetocicatriz.com.br/corujal-1/monstros-dahmer-um-canibal-americano-e-a-narrativa-monstruosa-que-impactou-uma-na%C3%A7%C3%A3o-inteira;
PEREIRA, D. A. R. – “Monstros: Os Irmãos Menendez” explora a sociopatia humana numa narrativa mais morna. Disponível em: https://www.projetocicatriz.com.br/corujal-1/monstros- os-irm%C3%83os-menendez-explora-a-sociopatia-humana-numa-narrativa-mais- morna;
PEREIRA, D. A. R. – “Monstros: a História de Ed Gein” é bem construído, preocupa-se na humanização do personagem sem perder a essência do mal humano. Disponível em: https://www.projetocicatriz.com.br/corujal-1/monstros-a-hist%C3%93ria-de-ed-gein-%C3%A9-bem-constru%C3%ADdo-preocupa-se-na-humaniza%C3%A7%C3%A3o-do-personagem-sem-perder-a-ess%C3%AAncia-do-mal-humano;
PEREIRA, D. A. R. “Monstro: A história de Lizzie Borden entre cerejeiras e o canto dos pássaros, deparamo-nos com o caos humano e feminino. Disponível em: https://www.projetocicatriz.com.br/corujal-1/monstro-a-hist%C3%93ria-de-lizzie-borden-entre-cerejeiras-e-o-canto-dos-p%C3%A1ssaros-deparamo-nos-com-o-caos-humano-e-feminino;
PINTO, C. B. S.; CHEVITARESE, L. P. – Inflexões da ética da alteridade em Byung-Chul Han. VOLUNTAS – Revista Internacional de Filosofia, V.4, n.2 – 2023. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/voluntas/article/view/85933/63441;
SHELLEY, M. – Frankestein. São Paulo: Principis, 2019.
[1] Este artigo foi atualizado após a participação na VIII edição do Colóquio, em 2025, para incluir a quarta temporada da antologia de Murphy.
[2] Você pode conferir sobre, na entrevista cedida ao EW, disponível pelo link: https://ew.com/tv/tv-reviews/hollywood-review-netflix-ryan-murphy/. Acesso em 27 de setembro de 2026.
[3] GORENDER, M. E. - Serial killer: o novo herói da pós-modernidade. Disponível em: Estudos de Psicanálise. n. 34, p. 117-122, dezembro. Aracaju: 2010.
[4] Em entrevista ao THR, a dupla de produtores disse que pretendem explorar até 10 temporadas, revisitando personagens serial killers ilustres da história. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/tv/tv-features/monster-the-lizzie-borden-story-10-seasons-creator-interview-1236705112/. Acesso em 27 de setembro de 2026.
[5] ECO, U. - Sobre os espelhos e outros ensaios. São Paulo: Perspectiva, 1989.
[6] Confira em: https://www.projetocicatriz.com.br/corujal-1/monstros-dahmer-um-canibal-americano-e-a- narrativa-monstruosa-que-impactou-uma-na%C3%A7%C3%A3o-inteira. Acesso em 27 de setembro de 2026.
[7] Confira em: https://www.projetocicatriz.com.br/corujal-1/monstro-a-hist%C3%93ria-de-lizzie-borden-entre- cerejeiras-e-o-canto-dos-p%C3%A1ssaros-deparamo-nos-com-o-caos-humano-e-feminino. Acesso em 27 de setembro de 2026.