Iniciada em 2022, a antologia “Monstros”, criada pela dupla Ryan Murphy e Ian Brennan chega em seu quarto capítulo. A produção busca focar em personalidades reais que marcaram a história com seus crimes escandalosos e de grande impacto. Jeffrey Dahmer, antes de atingir a maioridade foi acusado de matar 17 rapazes jovens ao longo de mais de uma década. Depois, acompanhamos os Irmãos Menendez em Monstros: a história de Lyle e Erik Menendez, acusados de assassinar os pais. O terceiro capítulo da antologia criminal abordou a história de Ed Gein. Um rapaz solitário que vivia numa fazenda em Plainfield, interior de Illinois. Ele ficou conhecido como o açougueiro de Plainfield, dado a sua predisposição em esquartejar corpos.
Agora, chegamos no quarto capítulo de “Monstros”, e, Murphy e Brennan escolheram trazer à lume a história da primeira mulher assassina em série. História tem mais de um século que aconteceu e os relatos que marcara de uma vez por toda a família Borden, nos Estados Unidos, segue até hoje sendo um mistério. No elenco, Ella Beatty, protagonizando como Lizzie Borden. Completando a família, temos Charlie Hunnam, como o pai, Andrew Borden e Rebecca Hall como a madrasta Abby Borden. Billie Lour completa como a irmã Emma Borden. Vicky Krieps, Jessica Barden, Scarlett DeMeo, Joey Pollari, Linda Reiter e Sarah Paulson completam o elenco.
Há um plano ambicioso para esta saga antológica. Estamos no quarto capítulo e Ryan Murphy e Ian Brennan revelaram que o anseio é para que eles consigam adaptar 10 histórias, selecionando personagens, de fato, impactantes, desvencilhando de figuras já carimbadas nas histórias cotidianas. Mesmo sendo atacada pelos críticos, a antologia “Monstros” é massacrada pelas notas dos especialistas. No entanto a produção é uma das mais assistidas pelo streaming. O quarto capítulo desta antologia traz a história da primeira assassina serial killer da história. E a sensação que temos, diferente das outras é que, desta vez, há uma tentativa de humanização diante do caos. Lizzie Borden não é uma assassina por desejo próprio e atração ao mal, mas, parece-nos que ela apenas é reflexo das relações desumanas e dos maus tratos que recebeu da própria família.
Há um desafio grande em recontar esta história: Murphy e Brennan reconstroem um ato de 1892-1893 que ocorreu em Massachusetts, Estados Unidos. 135 anos nos separam da narrativa real e, recriar tudo com precisão histórica é uma arte que o audiovisual se atreve em tentar. Mesmo sendo quase que impossível, muitos elementos teriam que ser “armados” pela licença criativa dos produtores. É óbvio que tiveram que colocar nos fatos reais uma pitada de ficção. O caso da família Borden sofre de uma névoa escura de ambiguidade, pois até hoje não sabemos se, de fato, Lizzie foi a responsável pelo crime ou não. Mas a decisão da série optou em colocá-la como a assassina, mesmo que sendo absolvida no tribunal.
Claro que a produção não procura “salvar” a personagem e, nem tampouco comete o erro de minimizar o crime. Muito pelo contrário, os atos de atrocidades são muito bem construídos e o público consegue sentir o quanto de ódio há nas cenas. Cada personagem tem seu tempo de tela muito bem aproveitado e o que sentimos é que todos os que rodeiam a família Borden sempre se aproximam com segundas intenções e em ninguém parece haver uma relação sincera de pura amizade ou, pelo menos, do mínimo de respeito pelo outro. Herdeira americana, Lizzie e a irmã tornaram-se detentoras de uma das maiores fortunas do país. O caso do tribunal repercutiu tanto, por fazerem parte da alta sociedade e pelo fato da família Borden ter sido sempre muito respeitada.
É inteligente e gratificante, a produção optar em dar espaço, voz e vez para as mulheres, tanto as que contracenam, quanto as mulheres da sociedade com suas lutas diárias e dilemas. A narrativa que aborda a luta feminina pelo direito ao voto e a inclusão das mulheres na Constituição estadunidense é de um primor inigualável. A série se encerra com uma esperança social que estava entalada na garganta de muita gente e por muito tempo. Os capítulos finais desta quarta história dão destaques femininos que valem a pena destacarmos aqui. A primeira é para Jéssica Barden que interpretou a artista de teatro Nance O’Neill, uma personagem que se encaixou na reta final muito bem ao equilibrar, com perfeição, a “guerra dos tribunais” com um toque de humor.
Sua narrativa foi sagaz e oportuna para clarear a “história”, tirar a névoa que oblitera a versão verdadeira (que até hoje, todos desconhecem) e dá um desfecho límpido e convincente. Soma-se a isso uma ode à personagens femininas históricas ao incluir paralelos artísticos com outras mulheres violentas da história, como a nobre húngara Elizabeth Báthory (também interpretada por Vicky Krieps em flashbacks de contos lidos por Maggie) e ligações temporais com a serial killer Aileen Wuornos (Sarah Paulson). Paulson é a segunda personagem que damos destaque aqui. Ela protagoniza o último episódio. Sua personagem, Wuornos, foi acusada como autora de uma série de crimes violentos. Primeiro a personagem surge como um alívio cômico, superfã de Lizzie, ela visita a casa da família Borden e a cena é até nostálgica.
Wuornos era uma mulher nômade, prostituta e que ganhava a vida sendo paga por sexo nas estradas. A história revela que ela, no decorrer da vida, matou muitos homens com o pretexto de ser em legítima defesa contra estupro e violência sexual. Paulson nos entrega uma atuação digna de Emmy revelando uma personagem enigmática e ambígua diante do tribunal, pois, ao mesmo tempo que ela se preocupava com a sentença, ela se divertia com a fama que estava ganhando. Seu fim, na cama de execução, ao receber a pena de morte, encerra esta jornada em que “monstros” são criados pelas circunstâncias sociais. Lizzie sofria violência verbal, isolada, sozinha, desenvolveu uma paixão pela natureza e pelos animais e ela não suportava assistir um animal sofrendo. A frase, “é impossível algo como isso ter sido feito pelas mãos de uma mulher”, repetidas diversas vezes entre os episódios só carimba a relevância da personagem protagonista e de tantas mulheres “invisíveis”, porque fizemos questão de tratá-las assim. Uma hora, “a conta chega”, e chegou para muitas!
Por Dione Afonso, jornalista.