Indubitavelmente o gênero cinematográfico do terror está vivendo seus tempos áureos na seara do mercado audiovisual. Além de nos depararmos com obras originais que exploram novos conceitos e alguns inimagináveis em narrativas do gore e até mesmo do horror, por outro lado estamos testemunhando a chegada de novos nomes, de jovens potenciais que empreendem assumir o lado criativo e lançar-se na Sétima Arte com o que eles têm. Um exemplo disso é quando vimos Fale Comigo, dos estreantes irmãos Phillippou; depois eles lançaram Faça Ela Voltar. Em ambas as obras, eles inovaram o conceito do terror apresentando algo que possuía uma premissa simples, mas que poderia explorar universos maiores. Recentemente vimos Backrooms: Um Não-Lugar, que saiu de uma ideia original, da mente criativa de um youtuber e até então tem sido considerado um dos melhores filmes deste ano.
Agora é a vez do humorista Curry Barker nos surpreender com o seu Obsessão. Mesmo que a maioria dos filmes de terror têm como elemento primordial a pegada do sobrenatural, parece que Barker tenta desconstruir esta ideologia e faz deste terreno algo não muito necessário. Na história, acompanhamos um jovem tímido, simples, aparentemente inocente e que tem dificuldades de se abrir para os amigos. Michael Johnston é Bear; junto dele a incrível Inde Navarrette faz a melhor amiga Nikki e o grupo é complementando com Sarah Harper (Megan Lawless) e por Ian (Cooper Tomlinson).
Em todo círculo de amizades, sempre há aquele romance meio proibido ou escondido com a melhor amiga que, aos poucos vai se tornando mais que amiga. As amizades coloridas surgem e quando menos se espera, há uma relação muito sincera e próxima de alguém que se ama de verdade. A relação entre Bear e Nikki parece acompanhar este progresso. Ele vê em Nikki aquele protótipo de mulher de sua vida, a garota com quem quer passar o resto dos seus dias lado a lado com ela. O roteiro que Barker nos apresenta é genial, pois ele nos faz concentrar nossa atenção apenas no rapaz tímido e sensível que é Bear. Ao mesmo tempo nos fazendo esquecer da força potente que Nikki apresentava antes da “transformação” por capricho do melhor amigo. Ela era uma garota sonhadora, livre, lutadora e que tinha consciência crítica, sabia pensar com credibilidade e tinha clareza do futuro.
Mas tudo isso se desmorona porque “alguém decidiu” que Nikki deveria ter outros tipos de sonhos para o seu futuro. É aqui que começa o segundo ato do filme. A reviravolta quando Bear, num ato de inocência – há aqueles que julgam não ter sido tão inocente assim – faz um “pacto” ao quebrar um graveto de madeira, desejando que sua melhor amiga se apaixone por ele e o deseje para o resto da vida. A transformação de Nikki se dá de forma gradual e muito assustadora. É convincente o que a atriz faz com sai personagem. Navarrette brilha na atuação e entrega uma garota que nos põe medo e que nos prende. Fazendo jus ao título, ficamos obstinados por ela. Desejosos de ir até o fim o ver até onde sua personagem seria capaz de ir.
O óbvio não cabe aqui. Destaque para a fotografia do filme que faz um jogo com as luzes e sombras e, na medida certa, lança um olhar para detalhes que fazem toda a diferença. Quando o plano da câmera se fecha, Barker também nos permite ver o que não veríamos, se ele tivesse feito outra opção em determinada cena. Isso fica muito claro, por exemplo, nas noites em que Nikki e Bear dividem a cama e do nada, Nikki “desaparece” e surge, apenas com o som da voz, na escuridão do quarto. Barker é um nome que tem futuro no gênero, pois usa a criatividade e faz do trivial uma grande jornada.
Talvez não tenha ficado muito claro que mensagem Curry Barker desejasse transmitir a nós. Mas, Obsessão é um terror que se encaixa no subgênero “terror psicológico” que nos faz refletir sobre nossos desejos obstinados de controle e manipulação de algo que está fora e longe de nós. Nem tudo na vida – na verdade, quase nada – deve acontecer como desejamos que fosse. Bear literalmente, num ato de desespero tentou fazer com que as forças do universo lhe correspondessem e colocasse na sua vida a garota que sempre desejou, mas que nunca conseguiu se declarar a ela. Por outro lado, Nikki que nem sempre foi uma boa amiga, escondia seu relacionamento faceiro com o melhor amigo e tentava seguir a vida como se tudo o que estivesse acontecendo fosse normal.
Um filme leve, descontraído, que tem suas pitadas de susto, pavor e que não diminui o gênero do terror. Entre um susto e outro, um pouco que sangue aqui, outro pouco ali, Obsessão termina de forma abrupta e nos deixa de “queixo caído” quando você percebe, na última cena, como que gestos descontrolados podem determinar um futuro pavoroso para nossas vidas. É um bom filme que merece nossa atenção e que serve para refletirmos até onde deixamos a naturalidade fazer o seu papel social.
Por Dione Afonso | jornalista