17 Jun
17Jun

Não é a primeira vez que um jovem youtuber se lança no audiovisual e extrapola os limites da criatividade. Criadores do canal RackaRacka, os irmãos Philippou lançaram o excelente Fale Comigo que já tem produção de uma sequência. No streaming de vídeos, os australianos Danny Philippou e Michael Philippou construíram uma carreita no YouTube ao filmar, de forma simples e corriqueira, o cotidiano de gente comum, fazendo coisas comuns. E é a partir desta experiência que vai surgindo um novo estilo de arte que angaria novos adeptos e seguidores. Os irmãos Philippou encontram no canal uma porta aberta que pode revolucionar as experiências cinematográficas do futuro. Aos 26 anos outro youtuber também se lançou no cinema com Obsessão. O sucesso do americano Curry Barker chamou tanto a atenção da crítica que, hoje, cogita-se uma campanha considerável do longa de terror para a próxima temporada de premiações, inclusive o Oscar. 

Kane Parsons, quando tinha 16 anos, em seu canal do YouTube, criou o conceito das backrooms. O jovem youtuber norte-americano começou a transformar lendas de terror, contos de suspense e histórias paranormais em narrativas psíquicas que provocam na pessoa uma alternativa inesperada de repensar nas próprias crenças e, por vezes, na fé. Hoje, aos 20 anos, Backrooms – um não-lugar é sucesso de bilheteria mundial e o novo filme de terror acaba de colocar no pódio mais um jovem youtuber na seara da nova geração de cineastas. O filme de Parsons tem roteiro assinado por Will Soodik e no elenco, Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve são os protagonistas. Avan Jogia; Robert Bobroczkyi e Finn Bennett também estão no elenco. 


Conceito original 

É difícil temporalizar ou pré-definir um conceito direto e objetivo sobre as backrooms e, principalmente, sobre o que a narrativa do filme de Parsons pretende nos ensinar. A claustrofobia é elemento presente desde os primeiros minutos do filme e se estende como linha condutora de toda a história que Clark (Ejiofor) e Mary Kine (Reinsve) atravessam. Ele, é um engenheiro decadente, sem cliente, sem projeção profissional que se resumiu a um vendedor de materiais de construção para outras residências, mas, que mesmo assim, não tem tido sorte nas vendas. Já Mary Kine é uma psicóloga que insiste num diagnóstico real e concreto para Clark. Algo que a ciência explica e comprova e, portanto, esforça-se em não ceder às loucuras psicossomáticas que Clark, a cada sessão, apresenta em seu consultório. No primeiro ato, Parsons se preocupa em estabelecer o ambiente no qual ele pretende lançar seus personagens e, consequentemente, lança-nos também naquela experiência aterradora. 

Envolto em paredes com cor indefinida, que não é nem amarelo e nem verde claro, cada um se sente perdido entre a dúvida e o medo. O próprio fato de não identificarmos a cor daquelas paredes, já nos deixa apreensivos. O erro é afirmar que estamos diante de paredes neutras ou de uma paleta pasteurizada. Nada aqui é neutro, nem mesmo a tonalidade que a luz lança sobre aquelas paredes. Clarck, ao descobrir a parede que o lança para aquele desconhecido vazio, mas que possui uma presença arrepiante, percebe que o fracasso de sua vida e as escolhas que tomou para si constroem um ambiente vitimista e sem muita perspectiva de salvação. 

Kane Parsons vai além da proposta traumática que os filmes de terror insistem em se ancorar. Aqui não é o trauma humano que movimenta a engrenagem do horror, mas a ausência dele. O youtuber pode até permanecer na mesma esfera humana que habita tais situações emotivas: a mente humana, contudo, explorar um trauma parece que é o mesmo que esmagar um pão de forma, ou chover no molhado. Há na psique do ser humano espaço ainda inexplorados pelas artes, até pela ciência que ainda possui nada mais que algumas suposições sobre descobertas que vão além do que as tecnologias conseguem decifrar. Backrooms – um não-lugar é exatamente isso. Um “não-lugar”, indefinido, inexplorado, cores indecifráveis, presença desconhecida, medos não determinados, soluções obscuras, imagens turvas (representadas pelas câmeras trêmulas). 


O medo como dimensão paralela 

Só para dar um salto para trás, é relevante saber em linhas gerais como que Parsons construiu um conceito tão amplo e filosófico como as backrooms. A nova geração é dada às experiências comunicativas através da rede de computadores com seus perfis digitais em redes sociais. Kane Parsons foi construindo esta realidade paralela na coletividade que essa modalidade de informação proporciona. Através de fóruns interativos na internet, as ideias foram surgindo e sua veia artística foi formando pelos curtas em que nas backrooms cada um pudesse se encontrar (ou se perder?) entre um corredor e outro. A não-definição do que aquela dimensão representa tornava-se, ao mesmo tempo refúgio, fuga e lugar em que nada poderia ser explicado, apenas experimentado, mesmo sem saber definir o que tudo aquilo é. 

Backrooms – um não-lugar é a representação do nada em que tudo pode ser algo. Também é a representado de tudo, no qual, este tudo, nada é. Espaços amplos, com mobília, mas que foge à normalidade em que cada objeto é colocado. Seja alegoria ou não, o jovem youtuber não tem a preocupação em nos responder o que cada elemento ali significa. Determiná-lo é tirar das backrooms o objetivo original, a ideia inicial em que tudo foi construído. Portanto, está na hora dos grandes nomes do cinema começarem a olhar para esta nova geração de cineastas, roteiristas, criadores de história. Há neles um potencial e uma coragem absurda de observação. Olhar para o novo, para o agora, para as ferramentas que estão surgindo e tirar dali boas narrativas que podem dizer muito do que a humanidade está atravessando atualmente.




Por Dione Afonso  |  Jornalista

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