10 Mar
10Mar

Depois que Guillermo del Toro nos presenteou com mais uma releitura das páginas de Mary Shelley, cinco meses depois, a Vencedora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar, Maggie Gyllenhaal nos deu a graça de conhecermos A Noiva! Também adaptando as páginas da autora britânica, Gyllenhaal tem um olhar mais intimista, menos épico como o del Toro, mas, mais sensual e com destaques detalhistas. Uma cineasta mulher contando uma história feminina, é o encaixe ideal para uma história em que o monstro Frankenstein busca por um amor, busca pela paixão e pelo desejo de poder sentir o que os humanos sentem, ou, alguns deles, deveriam sentir. 

Ajudam a contar a história os protagonistas Jessie Buckley, indicada ao Oscar por Hamnet e Christian Bale. Buckley nos oferece uma interpretação ambiciosa, ao apresentar uma Mary enigmática, confusa, mas de personalidade surpreendente. Ela, a “Noiva” é um cadáver reanimado, enquanto ele é uma costura de membros de diferentes corpos que ganham vida num experimento científico. Bale é um Frankenstein já envelhecido, a narrativa se encontra mais de cem anos depois de sua criação. Bale traz um personagem carente, de memória muito bem orientada e consciente do que deseja. O elenco ainda traz Annette Bening como cientista; Jake Gyllenhaal; Peter Sarsgaard; Penélope Cruz. 


Um clássico para os amantes do gênero 

A estrutura narrativa que Maggie escolhe para recontar uma história inúmeras vezes contada é brilhante. Ela busca referências clássicas da Sétima Arte, consegue harmonizar o cinema preto e branco com as cores tímidas das cidades estadunidenses, Chicago e Nova York, centros urbanos antigos que se encontram em meio ao caos e aos avanços da sociedade. A transformação da “Noiva” acontece de forma subversiva e a cineasta não se deixa incomodar com isso. Ela usa os pontos negativos a seu favor e faz do filme uma incompleta história de amor que germina de um feminismo forte e persistente. A “Noiva” não é bem o que Frankenstein desejou que fosse, mas é uma mulher com atitude, forte, presente e cheia de coragem. Não se deixa ser comandada por ninguém, muito menos por homens, até mesmo quando este é a representatividade monstruosa de Victor Frankenstein

Nesses duros tempos em que estamos vivendo, quando os números do feminicídio só aumentam e a vida das mulheres é ameaçada por uma sociedade que se diz humana, A Noiva! Se desponta como um grito condenatório contra tantos homens que só conseguem enxergar em cada mulher um objeto a seu bel prazer. Elas são vistas e tocadas como se fossem uma engrenagem de prazer que estão sempre postas para servir e agradar. Frankenstein sonhava com uma mulher assim. Com alguém com quem pudesse saciar nele seus desejos de amor, prazer e suas necessidades sexuais e carnais. Contudo, quando a “Noiva” é criada, sua narrativa é diferente e ela retorna com outra ideologia. A “Noiva” de Frankenstein não vê razões para ser dele, mas encontra na humanidade a violência farta e suja de homens que só querem mandar e se prostituir. 

Enquanto um monstro busca compreender aquela que foi feita para ser dele e para ele, os homens que compõem o elenco são desumanos o que os tornam os verdadeiros monstros dessa história. Os delírios que a narradora coloca na boca da protagonista são sua maior força. A multiplicidade de memórias que habita no consciente da “Noiva” parece nos colocar num emaranhado de situações reais e fictícias; atuais e antigas. Ela, em sua vida antiga, era companheira de um gângster que, num acidente, a atirou da escada e a matou. Sua vida era governada por machismo forte e sem escrúpulos. Homens que tratavam as mulheres como troféus para serem expostos diante da sociedade patriarcal. Homens, assassinos de mulheres, que no silêncio, escondem seus crimes, enquanto elas morrem. 


Uma mulher não nasce para viver numa caixa 

Quando a “Noiva” percebe que foi criada para viver numa casinha brincando de boneca e sendo a diversão de quem a quis, ela não aceita e altera o rumo da narrativa. Nós precisamos ter a coragem e a decência em alterar o destino das histórias que estamos contando. Narrar versões violentas que massacram e aterrorizam uma parcela da sociedade não é agradável e nem o propósito de nossas vidas. A parceria entre Cruz e Sarsgaard revela bem esse gênero criminal. Cruz, enquanto dá vida à Myrna Malloy, a investigadora dos casos que ficam no caminho por onde Frankenstein e a Noiva passam, percebe que ser mulher, mesmo que inteligente e mais esperta, não parece dar a ela o destaque igualitário. 

Sarsgaard, como o detetive Jake Wiles é conivente com a situação, faz piada com o machismo e não defende a parceira do trabalho. “Ela disse não!”, e quando uma mulher diz não, não é não. Nós sempre temos a chance de recontar uma história de um jeito novo e assumindo posturas diferentes. Sempre temos a oportunidade de recomeçar, corrigir os erros e refazer as nossas opções. Os números musicais que a cineasta Gyllenhaal insere no corpo de seu filme reproduzem essas tomadas e as possibilidades de repensar se a vida que levamos é, de fato, a que respeita, humaniza, acolhe, agrega, respeita e inclui homens e mulheres, idosos, jovens, crianças e todos e todas no mesmo núcleo de oportunidade e de reconhecimento. “O que nos resta a fazer agora, é viver...”.




Por Dione Afonso  |  Jornalista

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