Depois que Guillermo del Toro nos presenteou com mais uma releitura das páginas de Mary Shelley, cinco meses depois, a Vencedora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar, Maggie Gyllenhaal nos deu a graça de conhecermos A Noiva! Também adaptando as páginas da autora britânica, Gyllenhaal tem um olhar mais intimista, menos épico como o del Toro, mas, mais sensual e com destaques detalhistas. Uma cineasta mulher contando uma história feminina, é o encaixe ideal para uma história em que o monstro Frankenstein busca por um amor, busca pela paixão e pelo desejo de poder sentir o que os humanos sentem, ou, alguns deles, deveriam sentir.
Ajudam a contar a história os protagonistas Jessie Buckley, indicada ao Oscar por Hamnet e Christian Bale. Buckley nos oferece uma interpretação ambiciosa, ao apresentar uma Mary enigmática, confusa, mas de personalidade surpreendente. Ela, a “Noiva” é um cadáver reanimado, enquanto ele é uma costura de membros de diferentes corpos que ganham vida num experimento científico. Bale é um Frankenstein já envelhecido, a narrativa se encontra mais de cem anos depois de sua criação. Bale traz um personagem carente, de memória muito bem orientada e consciente do que deseja. O elenco ainda traz Annette Bening como cientista; Jake Gyllenhaal; Peter Sarsgaard; Penélope Cruz.
A estrutura narrativa que Maggie escolhe para recontar uma história inúmeras vezes contada é brilhante. Ela busca referências clássicas da Sétima Arte, consegue harmonizar o cinema preto e branco com as cores tímidas das cidades estadunidenses, Chicago e Nova York, centros urbanos antigos que se encontram em meio ao caos e aos avanços da sociedade. A transformação da “Noiva” acontece de forma subversiva e a cineasta não se deixa incomodar com isso. Ela usa os pontos negativos a seu favor e faz do filme uma incompleta história de amor que germina de um feminismo forte e persistente. A “Noiva” não é bem o que Frankenstein desejou que fosse, mas é uma mulher com atitude, forte, presente e cheia de coragem. Não se deixa ser comandada por ninguém, muito menos por homens, até mesmo quando este é a representatividade monstruosa de Victor Frankenstein.
Nesses duros tempos em que estamos vivendo, quando os números do feminicídio só aumentam e a vida das mulheres é ameaçada por uma sociedade que se diz humana, A Noiva! Se desponta como um grito condenatório contra tantos homens que só conseguem enxergar em cada mulher um objeto a seu bel prazer. Elas são vistas e tocadas como se fossem uma engrenagem de prazer que estão sempre postas para servir e agradar. Frankenstein sonhava com uma mulher assim. Com alguém com quem pudesse saciar nele seus desejos de amor, prazer e suas necessidades sexuais e carnais. Contudo, quando a “Noiva” é criada, sua narrativa é diferente e ela retorna com outra ideologia. A “Noiva” de Frankenstein não vê razões para ser dele, mas encontra na humanidade a violência farta e suja de homens que só querem mandar e se prostituir.
Enquanto um monstro busca compreender aquela que foi feita para ser dele e para ele, os homens que compõem o elenco são desumanos o que os tornam os verdadeiros monstros dessa história. Os delírios que a narradora coloca na boca da protagonista são sua maior força. A multiplicidade de memórias que habita no consciente da “Noiva” parece nos colocar num emaranhado de situações reais e fictícias; atuais e antigas. Ela, em sua vida antiga, era companheira de um gângster que, num acidente, a atirou da escada e a matou. Sua vida era governada por machismo forte e sem escrúpulos. Homens que tratavam as mulheres como troféus para serem expostos diante da sociedade patriarcal. Homens, assassinos de mulheres, que no silêncio, escondem seus crimes, enquanto elas morrem.
Quando a “Noiva” percebe que foi criada para viver numa casinha brincando de boneca e sendo a diversão de quem a quis, ela não aceita e altera o rumo da narrativa. Nós precisamos ter a coragem e a decência em alterar o destino das histórias que estamos contando. Narrar versões violentas que massacram e aterrorizam uma parcela da sociedade não é agradável e nem o propósito de nossas vidas. A parceria entre Cruz e Sarsgaard revela bem esse gênero criminal. Cruz, enquanto dá vida à Myrna Malloy, a investigadora dos casos que ficam no caminho por onde Frankenstein e a Noiva passam, percebe que ser mulher, mesmo que inteligente e mais esperta, não parece dar a ela o destaque igualitário.
Sarsgaard, como o detetive Jake Wiles é conivente com a situação, faz piada com o machismo e não defende a parceira do trabalho. “Ela disse não!”, e quando uma mulher diz não, não é não. Nós sempre temos a chance de recontar uma história de um jeito novo e assumindo posturas diferentes. Sempre temos a oportunidade de recomeçar, corrigir os erros e refazer as nossas opções. Os números musicais que a cineasta Gyllenhaal insere no corpo de seu filme reproduzem essas tomadas e as possibilidades de repensar se a vida que levamos é, de fato, a que respeita, humaniza, acolhe, agrega, respeita e inclui homens e mulheres, idosos, jovens, crianças e todos e todas no mesmo núcleo de oportunidade e de reconhecimento. “O que nos resta a fazer agora, é viver...”.
Por Dione Afonso | Jornalista