20 Jan
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Hamnet é um romance de ficção publicado em 2020. Escrito pela britânica Maggie O’Farrell, a história narra como a morte do filho teria inspirado Shakespeare a escrever Hamlet. Mesmo que não haja respaldo histórico para essa conexão, O’Farrell aproveita das lacunas deixadas pela história para criar sua narrativa. O resultado é uma obra impecável que respeita e homenageia uma das maiores literaturas que temos. William Shakespeare escreveu sua peça de teatro entre 1599 e 1601. Publicada pela primeira vez em 1623, a obra tornou-se um referencial da tragédia literária. As páginas compõem uma peça de teatro que narra a jornada do príncipe da Dinamarca em busca de justiça pelo assassinato do pai. 

Entre dados reais e com a licença poética da ficção, o filme que é dirigido pela Vencedora do Oscar Chloe Zhao reúne Jessie Buckley como Agnes Shakespeare e Paul Mescal dando vida ao escritor William Shakespeare. Os filhos, Hamnet, Judith e Susanna são interpretados por Jacobi Jupe; Olivia Lynes e Bodhi Era Breathnach, respectivamente. O elenco ainda conta com Emily Watson; Dainton Anderson; Elliot Baxter e Freya Hannan-Mills. O trabalho dessas duas grandes mulheres rendeu ,– o que nos causou grande surpresa na noite de premiação – a vitória no Globo de Ouro, edição de 2026, vencendo na Categoria de Melhor Filme de Drama. Maggie O’Farrel assina o roteiro ao lado de Zhao. 


Originalidade poética 

Um misto de preocupação e medo com sentimentos de alegria e emoção sempre nos tomam conta quando é anunciado uma adaptação de páginas que se eternizaram em nossa história. O Morro Dos Ventos Uivantes está chegando aí com Emerald Fennell como diretora. E é sempre um grande desafio tentar transmitir para as telas o que as páginas nos proporcionaram. A fotografia precisa ser impecável, o roteiro honesto e as atuações precisam flutuar quase que naturalmente diante das lentes das câmeras. Diálogos precisos proporcionam experiências que marcam a história do cinema e dá novo vigor para a literatura continuar a sobreviver ao tempo, sendo atualizada entre as novas gerações, através de novas linguagens e formatos. 

Cada escolha tomada por Chloe Zhao para Hamnet: A Vida Antes De Hamlet é precisa e cirúrgica. Lukasz Zal, nosso Diretor de Fotografia explora desde os takes em plano aberto e de horizontes profundos e belos diante da natureza fria que perpassa todo o filme até aos detalhes íntimos como a roupa em tom vermelho vivo de Agnes que se destaca sob uma atmosfera cinza, fria, triste e sem vida. A cena da morte de Hamnet, por exemplo, é forte, poderosa e dolorida. É impossível para nós assisti-la e não gritar junto com a protagonista o grito do luto, da dor, da tragédia e do sacrifício que aparentemente o filho fez pela irmã. Zal capta o mais difícil dos sentimentos e fotografa o que há de mais precioso na alma humana: o amor, trágico, mas não deixa de ser amor puro, honesto e simples. 

Aliás, a simplicidade narrativa também é espetacular. Gastaríamos aqui algumas páginas a mais se decidíssemos transcrever cada poesia que saía da boca de William, que aliás, pela atuação de Mescal, está impecável. Um homem apaixonado, como a literatura nos ensinou. Simples e humilde, apesar de sua linhagem. Susanna e Judith acabam ganhando mais valor e tempo de tela com a partida do irmão Hamnet. Isso não compromete o poder da narrativa, mas nos informa que nada e nem ninguém é capaz de amenizar o luto, mas isso não significa que não seja possível superá-lo juntos como família. Pode ser difícil, muitos não conseguem, mas impossível, não. 


“Ser ou não ser...” 

“Nada resiste ao tempo, a não ser a linhagem”, uma das expressões poderosas no diálogo de O’Farrell. Podemos afirmar que talvez, habite aqui o início do último ato do filme: a negociação. Um dos estágios do luto, antes da tristeza e da aceitação. Claro que os últimos minutos do filme não se trata apenas disso, mas o fio condutor dos últimos diálogos perpassa essa dolorosa jornada. William, quando tenta convencer a esposa de que a vida precisa continuar, ela deixa a dor sair de seu corpo e parte para a agressão. No fundo, ela tenta culpar alguém pelo que aconteceu, mas sabe, que nada houve fora do que precisava acontecer. 

Agnes e William, de fato, tentam recomeçar, mas não escondem o tanto que machuca seguir em frente sabendo que um pedaço deles ficou para trás. “Eu sou o mesmo”, as encenações, ensaios e preparo das peças de teatro que William continua preparando após a morte de Hamnet parecem ser mais profundas. Ele se cobra mais e cobra mais de seus atores quando eles tentam transmitir a força dos sentimentos que suas palavras carregam. Viver entre a morte e a vida, o luto e a esperança, o amor e o ódio, a vitória e a tragédia nos colocam numa encruzilhada em que não sabemos quem somos: “ser ou não ser, eis a questão”. Como continuarei sendo, com um destino tão traiçoeiro diante de mim e com tudo o que venho enfrentando? 

A literatura pode nos salvar. A arte é capaz de nos salvar. A leitura é a mais poderosa arma contra a dor e a solidão. Talvez o aumento de pessoas tristes, deprimidas, ansiosas, depressivas e sem esperança no mundo de hoje pode ser resultado da falta de livros nas mesas de nossos filhos e desta geração que ocupa as nossas cidades, habita nossas casas e trafegam nas ruas. Ler é uma revolução extraordinária e uma forma de nos tornar livres do que nos machuca.

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