Durante a Segunda Guerra Mundial, Hollywood viu tomar forma e ganhar espaço um estilo de arte que unia o drama sob luzes escuras e sombrias com o protagonismo de homens responsáveis pela segurança da cidade. Estes representavam os policiais que lutavam contra a corrupção na cidade e focavam em investigações criminais. Não é por acaso que há 100 anos a Rainha do Crime Agatha Christie lançava O Assassinato de Roger Acroyd, a literatura policial que se tornou um marco no gênero. Eleito o melhor livro policial de todos os tempos, lançado em 1926, a obra, que havia sido publicada no formato de folhetins, as páginas revelam um estilo original apresentando um plot twit jamais imitado. Voltando à ideia inicial, Hollywood começou a notar que um estilo novo de cinema surgia: mais sombrio, claustrofóbico, dramático, escuro e de narrativa fatalista.
Nascia então o que o crítico de cinema francês Nino Frank chamou de cinema noir. O estilo teve seu auge entre 1940 e 1950 e apresentava algumas características como o jogo de luz e sombras para marcar a ideia de prisão, ou de solidão, geralmente com a câmera focada nas sombras projetadas nos rostos dos personagens; a presença de um anti-herói, geralmente um detetive ou um homem com identidade secreta; a femme fatale, a mulher sedutora, misteriosa, manipuladora e que, geralmente, protagoniza o plot twist; e a presença de temas como a traição, o cinismo e a presença de que algo fatal vai ocorrer. Tudo isso preenche os requisitos em Spider-Noir. Com Nicolas Cage no papel principal ao lado de Li Jun Li; Lamorne Morris; Brendan Gleeson; Karen Rodriguez; Jack Hass e Joe Massingill.
Que o mercado de super-heróis nas telas do cinema e do streaming já está saturado, isto todos já perceberam. Em contrapartida, os estúdios têm buscado se reinventar em busca de uma narrativa mais original; ao mesmo tempo em que outros tentam apostar no clássico ao resgatar narrativas já conhecidas. Superman e Quarteto Fantástico: Primeiros Passos são bons exemplos desse resgate. Mas, nesta semana conhecemos Spider-Noir. Uma série derivada do sucesso Homem-Aranha Através do Aranhaverso, um filme animação muito bom, muito bem-produzido que conquistou crítica e público. No filme, Nicolas Cage foi quem dublou o personagem Bem Reilly, o Homem-Aranha Noir. Seu personagem ganhou destaque na história o que resultou no derivado para a TV: Spider-Noir. Podemos assistir Cage numa nova perspectiva, provando ser capaz de se transmutar para o que quiser que ele seja.
Interpretando um detetive particular que investiga pequenos crimes de traições e afins, Reilly, nesta primeira temporada decidiu aposentar a sua identidade secreta de super-herói depois que não pode salvar a vida de sua amada. Vendo-a morrer, Reilly mergulha num luto e mesmo depois de cinco anos daquele trágico acidente, o detetive insiste em viver sob a sombra de uma tristeza profunda que não consegue e nem tenta superar. Ao seu lado dois amigos fiéis: o jornalista Robertson (Morris) e a fiel secretária Janet (Rodriguez), os únicos que conhecem a identidade secreta do Homem-Aranha. Toda a narrativa desta temporada é muito bem construída. O roteiro é afiado, honesto e sincero, pois não teme tocar em assuntos relevantes e por vezes de difícil resolução. Há diálogos profundos, sobretudo quando o vilão Cabelo de Prata (Gleeson) entra em cena. Brendan Gleeson está magistral nesta série. Consegue se impor como um homem perverso e que não treme quando tem que puxar o gatilho de uma arma. É muito bom quando temos um vilão frio, calculista e que não reconhece ninguém como relevante. Qualquer um ao seu redor é apenas uma peça do jogo.
Há mais dois personagens que são conhecidos por nós de outras narrativas adaptadas do Teioso: o Homem-Areia, que aqui é vivido por Jack Huston e o Electro (Joe Massingill). O que foi feito com a personalidade de Electro funcionou muito bem. Ele é caracterizado como um pretensioso a poderoso, falante, chato, mas que tem estilo. Enquanto o Homem-Areia manteve a sua personalidade romântica. Apaixonado, vê-se num relacionamento impossível de existir, mas luta pelo seu amor até o fim. A série termina com muito mais a explorar e a nos mostrar. Esperamos ver novamente Nicolas Cage soltando teias por aí e se aventurando para salvar a cidade e as pessoas com quem ele se importa.
Por Dione Afonso | jornalista