Depois dos irmãos Josh e Benny Safdie nos presentear com Jóias Brutas (2019) e um Adam Sandler totalmente irreverente, perigoso e debochado, os Safdie resolvem se separar e apresentar para nós duas obras que partem da mesma ideia temática, mas que seguem por caminhos distintos. Enquanto o mais novo, Benny Safdie trabalha com Dwayne Johnson em Coração de Lutador, e, tenta fazer do MMA e a luta de ringue o mais cinematográfico possível; Josh Safdie, com sua proposta, “compra” o talento de Timotheé Chamalet e, também numa narrativa esportiva, abraça o tênis de mesa e decide explorar a jornada de Marty Mouser, um jovem enganador ambicioso que acha que pode mudar o mundo com sua parca inteligência.
Mouser, um jovem prodígio, vendedor numa loja de calçados, tem grandes sonhos, alguns, inclusive, bastante audaciosos. Ao lado de Rachel Mizler (Odessa A’zion), o longa já revela que a história que está disposto a contar será caótica, cheia de movimentos bruscos e caóticos assim como será totalmente bagunçada e cheia de tumultos a vida deste casal nada carismático. O elenco ainda traz a frieza de Gwyneth Paltrow; Tyler, the Creator; Luke Manley e de Abel Ferrara. Josh Safdie, diferente de seu irmão, opta pelo cinema feito de loucuras, frenesi e movimentos acelerados, enquanto Benny, parece se dar melhor com a proximidade, a intimidade e os detalhes em câmera fechada.
O que mais falta para a carreira de Timothée Chalamet? Com seus pequenos 30 anos de idade, ele já foi poeta, sociopata, canibal, chocolateiro, artista musical, jovem prodígio, símbolo profético... Em Marty Supreme ele é um jovem sedutor que não faz cerimônia quando o sexo bate à sua porta. Kay Stone, a personagem de Paltrow, é uma atriz em decadência que luta para reconquistar um papel que devolva a ela os holofotes da fama. Envolver-se com Mouser vira uma questão ambiciosa de sobrevivência. Dois derrotados, vigaristas, oportunistas, falsos e nada gentis um com o outro fazem do sexo a moeda de troca para o estresse e as derrocadas que a vida lhes dá. Todos erram neste filme: possuem o livre-arbítrio, mas usam-no para a falcatrua e enganação. Na medida que o filme avança, o público vai colecionando uma lista de xingamentos que deseja despejar sobre Marty Mouser e a quem estiver junto dele.
O talento de Chalamet não está apenas em sua capacidade de transmitir os erros de seu personagem, mas sim, em fazer dos erros o sucesso de Mouser. É como se ele se sentisse grato e sapiente por ter tamanha capacidade em arquitetar algo tão escrupuloso e desonesto. Mesmo o filme de Josh tendo tantos personagens e bons atores, tudo gira em torno de Mouser. Não conseguimos imaginar a história sem ele, mas não conseguimos nos importar com os demais, nem mesmo com Mizler, a garota que Mouser engravidou nos primeiros minutos do filme. Ela parece ser simples e gentil, mas que se envolveu “por acidente” com um jovem prodígio, “bom de cama”, bonito e aparentemente inteligente.
O filme consegue ir além das partidas do tênis de mesa e fala não só da história de um jovem esportista tentando alcançar a fama no que sabe fazer. Não se trata de uma biografia apenas. Mas de escolhas, do livre-arbítrio, de relacionamentos convencionais e oportunistas, de família e de amizades, mesmo que por interesse. Josh reveste a narrativa com certa humanidade e isso fica ainda mais claro no ato final, quando a personagem de Odessa ganha mais destaque e relevância narrativa. A sua gravidez concede o marco temporal da história, revelando que essas duas horas e meia narram nove meses de acontecimentos. Mesmo aparecendo em pequenos e rápidos recortes, o roteiro de Josh Safdie se preocupa em contextualizar a narrativa com os acontecimentos sociais, os países em guerra, as políticas bélicas e as tensões religiosas.
Indicado no Globo de Ouro na Categoria de Melhor Filme de Comédia; Melhor Roteiro e com Chalamet concorrendo a Melhor Ator em Filme de Comédia, o jovem ainda pode emplacar uma indicação à próxima edição do Oscar. Inclusive, podemos ver os irmãos Safdie em lados opostos desta vez, disputando à mesma estatueta. Contudo, não podemos deixar de mencionar que a concorrência deste ano está forte e com grandes nomes da indústria.
O maior sonho que Marty Supreme nos apresente e tanta nos convencer é o de grandeza, poder, luxo e prazer descompromissado. O papel coadjuvante de Odessa A’zion merece uma indicação, mais do que a opacidade e fragilidade da personagem de Paltrow, que traz uma personagem nojenta e que fede à luxúria. Quanto ao trabalho da fotografia, que aqui, com Josh foi conduzido pelo Diretor de Fotografia Darius Khondji; o trabalho que Maceo Bishop com Benny parece ser mais tocante e próximo de nós. Mesmo que isso seja algo sobre preferência, a cinematografia em Coração de Lutador nos conecta mais à história que Marty Supreme. Mas, voltamos a dizer: são duas histórias sobre o esporte e seus atores, mas ambos seguem por caminhos diferentes.
Por Dione Afonso | Jornalista