Desde Nicholas Hammond, que deu vida a Peter Parker entre 1977 e 1979 numa série de TV The Amazing Spider-Man, para a CBS, até chegarmos a Tom Holland, pelo menos uns 25 artistas que tiveram a chance de viver o personagem, seja em animações, no cinema ou em séries de TV. Stan Lee criou o super-herói nas HQs em 1962 e o conceito original era a de um adolescente comum que estava lidando com as fases de maturação e problemas reais como a escola, primeiro amor, responsabilidades e questões de família, além da vida financeira. Antes de Tobey Maguire interpretá-lo na trilogia de 2002 a 2007, o Homem-Aranha ganhou vozes em algumas séries animadas como a de Paul Soles (1967); Ted Schwartz, dublador na série de 1981; Dan Gilvezan (1981); Christopher Daniel Barnes: Marcante voz na aclamada Homem-Aranha: A Série Animada dos anos 1990; Rino Romano (1999); Josh Keaton (2008); Drake Bell (2012); Shameik Moore: O responsável por dar voz a Miles Morales nos filmes de enorme sucesso Aranhaverso; Jake Johnson e Yuri Lowenthal.
Depois, entre 2012 a 2014, Andrew Garfield reviveu mais uma trilogia do Teioso e, a partir de 2016, Tom Holland tem dado vida ao personagem. Além de participar de vários filmes que compreendem o Universo Cinematográfico da Marvel, comandado por Kevin Feige, Holland protagoniza 4 longas-metragens como o Homem-Aranha. Ao lado dele, Zendaya; Sadie Sink; Jacob Batalon; Jon Bernthal; Michael Mando; Mark Ruffalo; Tramell Tillman e Liza Colón-Zayas complementam o elenco desta nova jornada. Peter Parker está vivendo numa Nova York em que ninguém mais tem lembranças dele por conta dos eventos do último filme. Nessa “nova vida”, ele tenta lidar com tal esquecimento a fim de buscar uma rotina que dê sentido ao que faz.
Estamos lidando com um “ponto de ruptura”: é preciso conectar o passado com o futuro num presente que dê sentido e razão para continuar fazendo o que o Homem-Aranha sempre fez. Para os fanáticos da Marvel, ficarão felizes em poder revisitar mais uma vez o Incrível Hulk, furioso e querendo esmagar a tudo e todo mundo, pena que suas cenas foram poucas e muito rápidas. Também temos o vislumbre da Viúva Negra de Yelena Belova que nos concede uma boa cena cômica. Mas o foco mesmo está no amadurecimento de Peter Parker. Ele parece abandonar de vez a adolescência/juventude e encarar de vez a vida adulta que está avançando. A metáfora dos hormônios em mutação derivadas do ciclo de vida de uma aranha é muito bem utilizada e confere sentido aos dilemas que o personagem enfrenta. Não ter que usar mais os fluidos de teia e passar a ter a própria teia orgânica e ter que “aceitar” com isso é o mesmo que um jovem ter que “concordar” que num dia qualquer ele vai acordar como adulto e passa a ter que lidar com responsabilidades da vida adulta.
Estamos diante de uma jornada em que o drama toma conta. Seu diretor, Daniel Destin Cretton já se provou muito bom em dirigir boas cenas de ação e de luta muito bem coreografadas e convincentes. Holland está muito bem nelas, ele é um bom ator e conhece seu personagem. Quando aceita a mutação, as transformações hormonais, ele equilibra um novo poder que tem diante de suas mãos e o usa para o bem, como sempre fez, aliás, ele ainda é o “amigão da vizinhança”, e fará de tudo para protegê-la. Algo muito positivo é a amizade que se constrói com o Frank Castle, o Justiceiro (Bernthal). É uma amizade sem apegos, carinhos ou aqueles sentimentos pegajosos. Frank é turrão e atira primeiro e depois pergunta, e ter um jovem adulto como Parker ao seu lado, confere um pouco de humanidade à sua personalidade. Foi um grande acerto na narrativa.
Este filme parece iniciar para nós mais uma leva de uma nova trilogia. O reaproximar do trio original: Peter, MJ e Ned nos leva a esta interpretação. Talvez este herói ainda nos dê boas aventuras para o futuro. Este “novo dia” que o título nos apresenta, neste sentido, não parece ser todo o filme que está diante de nós, mas sim aquela última cena em que teremos mais uma vez estes três atuando como grandes amigos, vivendo novas aventuras, enfrentando novos vilões. Quem sabe, não é mesmo...? Outro acerto foi a escalação de Liza Colón-Zayas que faz as vezes de uma detetive novaiorquina, Jean DeWolff, uma importante personagem nos quadrinhos. Depois que Peter perde sua tia, uma das poucas referências adultas que ele tinha, DeWolff parece suprir muito bem este posto e torna-se uma importante aliada do super-herói.
O grande spoiler deste texto (e deste filme) está na presença de Sadie Sink dando vida à Jean Elaine Grey, a nossa mutante Fênix Negra. A jovem atriz, com os seus 24 anos ingressa para o MCU e sendo, oficialmente a primeira mutante a se apresentar no cinema desta gestão, acreditamos ser ela o elo significativo que irá comandar o novo time destes humanos transformados geneticamente. Sabemos que um novo filme dos X-Men está sendo gestado, o casting está evoluindo e aos poucos vamos recebendo novas informações. Sink liderando este time é uma boa investida e pode dar muito certo, aliás, ela é uma das mutantes mais poderosas dentro deste universo das HQs. Homem-Aranha: Um Novo Dia, não nos oferece aquele grande clímax sobre uma ameaça global, ele em seus pontos altos relevantes e importantes e apresenta nos últimos segundos o verdadeiro vilão.
Contudo, há quem não tenha acolhido muito bem a sua interpretação de Jean Grey no filme do Homem-Aranha. Mas, é importante ficar claro que o longa apenas introduz a personagem e a escolha que tomaram para que isso ocorresse não é ruim. Temos um vislumbre do seu poder e do que ela é capaz se for contrariada. Primeiro ela surge como uma ameaça, fazendo-nos acreditar que seria ela a vilão principal do filme, mas depois, o roteiro dá uma guinada e na virada de ato, é o Controle de Danos comandando por William Metzger (Tillman) que é o vilão de toda esta história. Como sempre, caímos naquela máxima de que o ser humano não suporta a ideia de ser controlado ou de existir outros seres mais importantes e mais fortes que nós. Metzger interpreta muito bem esta ideia. Portanto, verdadeiro vilão é a ideia de controle e de manipulação de outros seres, como se nós fôssemos os únicos que importa neste mundo.
Por Dione Afonso, jornalista.