A quarta temporada acaba de encerrar mais um capítulo desta longa jornada criada por Julia Quinn. Adaptando o livro Um Perfeito Cavaleiro, que foca em Benedict Bridgerton, o segundo da linhagem, nova história não titubeia em revelar uma sociedade que não consegue unir pessoas de diferentes perfis sociais. Shonda Rhimes é a responsável pela adaptação e conduz toda a direção da série e ela insere elementos que nos provocam e fazem com que o público do século XXI pare para pensar se o que vê nas telinhas encontra alguma identificação nas relações que se constroem no mundo real e no tempo atual.
A aproximação de Benedict Bridgerton (Luke Thompson) e de Sophie Baek (Yerin Ha), um filho da sociedade real, com títulos de poder social e uma filha bastarda, serviçal reacende um discurso necessário: pode um rico, do mais alto escalão social se envolver com uma plebeia? No mundo real encontramos poucos exemplos disso, sobretudo onde prevalece as Monarquias Imperiais até hoje, contudo, Thompson e Ha conseguem transmitir a nós que não é uma solução rápida e simples. Golda Rosheuvel; Ruth Gemmell; Nicola Coughlan; Katie Leung; Daniel Francis; Adjoa Andoh e Jonathan Bailey retornam para seus papeis.
A primeira parte da quarta temporada de Bridgerton atualizou o conto da Cinderela e abriu algumas portas que deixou para serem fechadas nos 4 últimos episódios. Que, diga-se, de passagem, concluiu muito bem. Um arco que incomodou bastante a nós foi a relação entre a Rainha (Rosheuvel) e sua fiel amiga Lady Danbury (Andoh). Duas amigas que sobreviveram à história e tornaram-se confidentes uma da outra. Dunbury foi praticamente a primeira Dama de Companhia da Rainha e, com o passar das décadas tornou-se amiga fiel e sempre presente. Presença essa que precisava de um novo respiro. Lady Danbury, necessitada de revisitar seu passado, pede que a Rainha a libere de seu posto na Realeza por alguns meses para que ela possa se reconectar com suas raízes. O pedido gera confronto, tristeza e certa ambição quando a Rainha se esquece, por um momento dos laços íntimos e humanos e usa de seu poder.
A segunda parte une este núcleo narrativo com outro, que nos pega de surpresa: a decisão de Penélope Bridgerton (Coughlan) abrir mão de Lady Whistledown e aposentar a escrita dos seus folhetins. Mais uma vez a Rainha usa de seu poder para negar o pedido da senhorita Bridgerton o que não causou nenhum efeito sobre a Lady. De fato, Penélope anuncia de forma magnífica e honesta a sua despedida do folhetim quando podia, na verdade, expor mais uma vez aquela que se tornou sua inimiga: Cressida Cowper (Jessica Madsen), que retorna rica e casada e busca perdão com a família Bridgerton, quem ela magoou e traiu no passado. Mas as novidades não pararam por aqui, outra amizade que foi colocada à prova, e de forma dolorosa, foi o casamento de Francesca Bridgerton com Lord John Stirling (Hannah Dodd e Victor Alli). Dodd nos entregou a sua mais poderosa atuação nesta temporada, aliás, podemos encontrar nela uma das cenas mais fortes de toda a quarta temporada.
A morte prematura de Stirling nos pegou de surpresa e aquela sincera e bonita relação de amizade e amor é quebrado por um destino amargo e cruel. O luto de Francesca tem uma carga muito alta e faz com que o núcleo narrativo de toda a história seja muito mais sobre verdadeiros relacionamentos do que sobre amor e paixão. Dodd é uma atriz forte, sabe o que faz e consegue nos entregar uma jovem viúva firme e que se mantém de pé diante de tudo o que acontece. Sua relação com a mãe Violet Bridgerton (Gemmell) assume um caráter profundamente humano, quando toda a história de Quinn reforça os estereótipos de uma sociedade em que a mulher nasce e existe apenas para servir ao homem.
Foi preciso elevar a classe social de uma criada para lady para que o casamento entre um lord e uma plebeia pudesse acontecer. Caso contrário, se apaixonar por alguém pobre, escravo e que trabalho de empregado nas suntuosas mansões que existem pelo mundo afora pode ser o mesmo que assinar a sua expulsão. Julia Quinn contextualiza sua escrita numa sociedade antiga que deixa muito claro as divisões sociais entre os pobres e ricos; mulheres e homens. Benedict Bridgerton estava disposto em renunciar seus títulos nobres, esquecer de sua família, fugir de sua cidade para viver um amor verdadeiro por uma mulher pobre e sem dotes, sem títulos de nobreza. Não pode o amor conviver com a pobreza. Não pode o amor se conciliar com as diferentes classes sociais. Quem é escravo, deve se casar com escravo. Lords e nobres, devem procurar princesas e mulheres da alta nobreza.
O tema é reacendido pela produção de Rhimes coordena e é muito bem construído. Claro que Bridgerton não se torna um exemplo para a nossa sociedade hoje. Muito pelo contrário, revela o que não devemos imitar, nunca. Contudo, infelizmente, seres humanos ainda continuam se importando em encontrar seus iguais, para que não haja conflitos futuros. Mas o amor não escolhe a cor de pele, e nem pergunta quanto você tem na conta bancária. O amor não olha seu tom de cabelo e nem a cor de seus olhos. O amor não pergunta quanto você pesa na balança e nem qual é a marca do celular que você usa. O amor não pergunta. O amor não questiona. O amor simplesmente acontece. Quando é verdadeiro, ele é intenso. O amor te queima por dentro. O amor te faz perder os sentidos. O amor é irracional, porque ele é o mais puro que há no humano.
Em 2020, a primeira temporada adaptou o primeiro livro de Quinn, O Duque e Eu, com foco em Daphne Bridgerton (interpretada por Phoebe Dynevor), escolhida para ser o Diamante da Temporada; a segunda temporada chegou em 2022, com o Visconde Anthony Bridgerton como protagonista adaptando o livro 2 O Visconde Que Me Amava. Já a terceira, lançada em 2024, inverteu a ordem dos livros e adaptou o livro 4, Os Segredos de Collin Bridgerton com foco no terceiro filho homem, que se casa com Lady Penélope Featherington; o livro 3, Um Perfeito Cavalheiro, que narra a história de Benedict Bridgerton foi a história dessa quarta temporada. Ainda não saberemos quem irá protagonizar o próximo ano da série de Shonda Rhimes, o quinto livro foca em Eloíse Bridgerton, Para Sir Philip, Com Amor. O sexto é a história de Francesca, o 7º é a vez da Hyacinth e o último em Gregory, o caçula dos Bridgertons. Aguardemos o que virá...
Por Dione Afonso, jornalista