Existem certos clichês, que quando bem-postos, recuperam a magia e a essência da história em sua origem e naturalidade. A nova temporada da saga literária criada por Julia Quinn, autora norte-americana de best-sellers e responsável pela história Bridgerton chega a nós pela adaptação comandada pela produtora televisiva Shonda Rhimes. Focada no quarto livro, Um Perfeito Cavaleiro, a nova história dá destaque ao segundo filho da família da alta sociedade que carrega o nome de prestígio Bridgerton. Este de quem falamos, Benedict Bridgerton, famoso por sua vida boêmia, libertina e livre das amarras sociais, é o típico homem que sabe viver a vida e que leva a liberdade muito a sério.
Benedict Bridgerton é interpretado pelo ator Luke Thompson. A matriarca da família Lady Violet Bridgerton (Ruth Gemmell) está decidida a casar seu segundo filho na nova temporada dos bailes. Como de praxe, a cada nova temporada da alta sociedade a Rainha Charlotte (Golda Rosheuvel) escolhe o seu diamante para movimentar a caça aos maridos. Porém, desta vez, seu diamante não é mais uma mulher, mas sim, um homem. O próprio Benedict é o escolhido da Rainha o que gerou uma aposta entre ela e Lady Whistledown/Penélope Bridgerton (Nicola Coughlan). O novo elenco também conta com as novidades: Yerin Ha; Masali Baduza; Katie Leung e mais.
Yerin Ha, protagoniza Sophie Baek, uma filha ilegítima de um conde que teve sua vida totalmente mudada após a morte de seu pai Richard Gunningworth (Arthur Lee), o Conde de Penwood. Contudo, a sua madrasta, Lady Araminta (Leung) decide dar à enteada o destino que ela merece: a transforma uma criada de sua própria casa, transformando Sophie no perfeito clichê da história de Cinderela. Lady Araminta faz de Sophie uma escrava que se coloca à disposição da casa de seu falecido pai, servindo às filhas Rosamund (Michelle Mao) e Posy (Isabella Wei). Assim, por anos, Sophie Baek, nascida lady, torna-se uma simples criada que tenta ganhar a vida nos porões das áreas serviçais da mansão.
Mas uma nova temporada está prestes a começar e desta vez o baile de boas-vindas será oferecido por Lady Violet Bridgerton que, mais uma vez não medirá esforços para casar mais um de seus filhos: Benedict Bridgerton. O Baile de Máscaras vem em boa hora para que Sophie possa viver um dia de princesa. Mas, ao toque da meia-noite, sua carruagem virará abóbora e ela precisa retornar à vida real. Os caminhos de Sophie se cruzam com os de Benedict o que movimenta a narrativa e dá forças à engrenagem desta história em que um cavaleiro, perdidamente apaixonado pela moça misteriosa e de vestido prateado, sai correndo quando o relógio toca e deixa para trás apenas uma luva que usara.
Todos os clichês do clássico das princesas são rememorados aqui, com um toque perfeito de paixão e amor verdadeiro. A luva deixada para trás; a identidade secreta da jovem; o toque da meia noite; a busca enlouquecida de um cavaleiro apaixonado; o problema da classe social; a madrasta má e as duas filhas fúteis... isso também contando com uma perfeita fotografia que reproduz as telas do desenho infantil. A nova temporada que foi dividida em duas partes revelou nestes quatro primeiros episódios uma identificação maior e mais segura das páginas literárias. E, mesmo sentindo que a narrativa é lenta e calma, desta vez, ela funcionou muito bem.
Outro grande acerto é o fato de dar à matriarca dos Bridgerton a sua história do jeitinho que ela merece. Vemos em Violet um retrato muito real do que muitas mulheres na situação dela vivem. Já madura, depois de gerar 8 filhos, perdeu o marido ainda muito jovem e teve que se tornar a administradora de tudo e de todos, agora queria voltar a amar de novo. Viver de novo. Sentir-se desejada de novo. E os dramas que a personagem revela para nós nas telas, são dramas muito reais. A insegurança com o próprio corpo. Será que alguém a desejará mais uma vez? Será que ela ainda se acha bonita? Será que algum homem a achará bela mais uma vez? E Lord Marcus (Daniel Francis), irmão de Lady Agatha Danbury (Adjoa Andoh) é o par ideal para essa mulher insegura.
A sua insegurança, encontra na compreensão de Marcus o casamento perfeito para que tudo funcione. Um homem respeitoso, também vivido, e que está disposto a se apaixonar mais uma vez. A cena é construída com muita verdade, sinceridade e com toques reais muito próximos do que tantas mulheres hoje vivem. Diante de uma sociedade que empreende uma busca desonesta pelo corpo perfeito, recorrendo a milagres cirúrgicos, procedimentos estéticos e outras ações escrupulosas... poder ver Ruth Gemmell dando liberdade à sua personagem para que se sinta viva e bonita é algo muito prazeroso de se assistir. Este início de temporada é muito bom. O novo ano está perfeito e possui elementos positivos e que valem a pena a nossa atenção diante desta obra de arte. Vale a pena nos apaixonar de novo!
Por Dione Afonso | Jornalista