Erick Kripke, roteirista e diretor já possui a fama de não reconhecer a hora de encerrar suas produções. Julgado por muitos pelo que fez com Supernatural, que rendeu exaustivas 15 temporadas, agora, ele encerra The Boys, na quinta temporada. Quando a série chegou, em 2019, seu escopo criativo muito nos surpreendeu e elevou o nível de Kripke através da boa aceitação da crítica e do público. Vieram o segundo e o terceiro ano da série e tudo caminhava bem. Até que, com a chegada da quarta temporada, público e crítica já sinalizaram que estava na hora de encerrar aquela jornada, mas, para não ofender seu estilo próprio, Kripke teve a triste ideia de produzir mais uma leva de episódios levando a este fatídico fim que presenciamos.
Os meninos retornam: Antony Starr; Karl Urban; Jack Quaid; Erin Moriarty; Jensen Ackles; Karen Fukuhara; Chace Crawford; Laz Alonso e Tomer Capone. Sem justificativas que convencem, as estrelas do já cancelado Gen V também aparecem: Jaz Sinclair; London Thor/Derek Luh; Asa Germann e Lizze Broadway. A principal tarefa da temporada é a concluir a jornada dos personagens e amarrar possíveis pontas soltas que a história deixou. Contudo, com um quarto ano mal resolvido, esta missão torna ainda mais complicada de ter êxito.
Eternizada pela dupla Leandro e Leonardo, na década de 1990, a canção de Juliano Cezar Não Aprendi Dizer Adeus é a síntese perfeita para descrever o sentimento que fica a respeito da quinta temporada de The Boys. Fica em nós aquela tristeza de uma história que começou muito bem, com criatividade absoluta, ideia original, mas que não soube a hora de parar. A saga de Billy Bruto (Urban) foi simplesmente desprezada e a do Capitão Pátria (Starr) elevada a um patamar que ele não tinha culhão para ocupar. Uma coisa foi acertada: a série até teve um final feliz, o que foi bom, sobretudo quando este final não foi graças aos Super-Heróis, mas aos que, julgados como vilões, salvaram o mundo.
As metáforas da quinta temporada, por mais que tentassem contribuir com a reflexão do mundo atual – que foi a grande sacada de toda a série – num tempo em que as polarizações e os abusos de poder de líderes governamentais que se acham o centro do mundo e dono de todos, a série não conseguiu nos ajudar. Outro ponto que muito nos decepcionou é colocar em segundo plano os personagens coadjuvantes: a equipe de Bruto, Leitinho (Alonso); Francês (Capone); Hughie (Quaid) e Kimiko (Fukuhara) era sempre jogada de escanteio e viraram marionetes tanto nas não de Bruto, quanto no roteiro de Kripke. Enquanto, por outro lado, Ashley Barrett (Colby Minifie), como presidente dos EUA não tinha forças e nem espaço de tela para mostrar seu poder e um ridículo Oh Father (Daveed Diggs) que tentou representar o abuso da religião e sua manipulação da fé só nos irritou ainda mais.
Havia um futuro esperançoso quando Marie (Sinclair) era descrita como uma Super tão poderosa quanto o Capitão Pátria. Mas, do que isto resultou? Para onde foi esta ideia? Por que a atriz não teve o seu embate com o homem que defendia ser invencível diante de tudo e de todos? Havia potencial nos jovens de Gen V, contudo estes personagens sofreram com a falta de criatividade diante de uma solução que não se encaixou bem. Aliás, havia ali personagens muito mais interessantes do que os já desgastados de The Boys. O arco de Sábia-Mana (Susan Heyward) também se desgastou. Uma personagem excelente, mas, que, quando não se tinha nada mais a oferecer, Kripke não soube o que fazer com ela e lançou-a no esquecimento, apesar de seu fim ter sido divertido.
Com o impeachment de Ashley e a chegada de um novo presidente, a série retoma a ideia original, devolve Stan Edgar (Giancarlo Esposito) ao poder e demonstra interesse em reestruturar a Vought com a missão de humanizar relações e poder. As críticas sociais são esquecidas e a série virou apenas mais um produto da ficção que não altera em nada a nossa vida. Se você ainda não assistiu nada de The Boys, um conselho: assista até a terceira temporada, o que vem depois não vai interferir muito na sua experiência televisiva e artística. A não ser se você queira um exemplo do que não fazer quando uma história está muito boa e que não pretende estragá-la. Mas é só um conselho inocente.
Então, onde está a redenção? Por mais frágil que seja este roteiro final, podemos determinar que a derrota de um líder opressor, violento e racista teria que ser o correto e o justo. Porém, concluir esta jornada com Leitinho reconquistando sua família, Luz Estrela e Hughie construindo a sua e o mundo voltando a acreditar no ser humano é, sim, um tipo de redenção. Um final, aparentemente feliz! Depois de 2 derivados, um deles cancelado porque caiu no mesmo erro de The Boys, Kripke planeja explorar o passado do Soldier Boy (Ackles) e de Tempesta (Aya Cash) no spin-off Vought Rising. Resta-nos agora, aguardar o que será que ele vai aprontar com esta dupla e, torcemos para que esta jornada não repita os erros das anteriores.
Por Dione Afonso | jornalista.