Se você acha que Dan Fogelman não saberia para onde ir ao criar novas histórias para endossar sua loucura em Paradise, a segunda temporada resolve brincar, literalmente, com as nossas expectativas. Se na primeira temporada, a sensação enfadonha e introdutória dificultou o fato de nos preocupar com a história, agora, o que antes não nos aproximou, agora, obteve a nossa total atenção. A série sai do seu casulo construído para proteger parte da vida humana e se arrisca numa atmosfera varrida, totalmente devastada por um evento natural. O “sonho americano” é uma ilusão e, de fato, quanto mais acreditamos nesta epopeia, mais nos enganamos com uma “historinha fajuta, manipulada por uma psicopata”.
Sterling K. Brown retorna como Xavier Collins, agora, no mundo real, externo, em busca de sua esposa que sobreviveu ao evento climático. Para quem não se lembra, um vulcão entrou em erupção debaixo das geleiras, o que gerou ondas gigantescas que varreram todo o planeta. Teri Rogers-Collins (Enuka Okuma) sobrevive quando é acolhida por Gary Jones (Cameron Britton), um carteiro antissocial, sem amigos e que vivia entre o trabalho e o jogo online. Jones se apaixona por Teri, o que não corresponde, elevando o nível das camadas narrativas. Também conhecemos Annie, interpretada por Shailene Woodley e Dylan/Link, vivido por Thomas Doherty.
A nova temporada possui, portanto, duas narrativas: a do bunker, onde Sinatra (Julianne Nicholson) se recupera de um tiro enquanto o vice-presidente tenta recuperar o prestígio da cidade construída debaixo da terra; e a de Xavier que percorre a superfície em busca de Teri. Logicamente que a jornada externa ganha mais proporção e relevância. Não haveria muito mais que se explorar dentro do bunker, apesar do roteiro desenvolver um pouco as personalidades de Jeremy Bradford (Charlie Evans) e Presley Xavier (Aliyah Mastin) num movimento de revolução contra os “comandantes” desta cidade artificial. A jornada interna se encerra de uma forma não muito criativa. Sinatra parece encerrar su jornada sem sofrer nenhum tipo de consequência, e o futuro parece estar sob os comandos de uma IA, chamada ALEX.
Já na superfície, a temporada desenvolve a história de Teri, enquanto apresenta, no caminho de Xavier, novos personagens. Começamos por Annie, uma guia turística da Casa de Elvis Presley. O passado da personagem deixou uma incógnita quando decide não revelar se sua mãe teria ou não um parentesco com o artista, ou se ela era apenas uma grande fã com seus posteres e um altar dedicado ao cantor em sua casa. Annie salva Xavier, quando o avião cai nas proximidades. Depois, o que ganha maior destaque na temporada é a jornada de Teri, quando salva por Gary, segue sobrevivente, graças a um bunker que foi descoberto sob a Agência dos Correios. Esta relação é interessante e possui camadas complicadas e profundas. Enquanto Gary sofre um amor platônico, ele ainda precisa lidar com o fato de ter salvo uma mulher que não estava nos planos. Mais uma vez o famoso “sonho americano” aparece como uma ilusão antissocial.
O encontro entre Teri e Xavier acontece de forma tensa, nada romântica e muito menos bela. Gary deixa sua paixão doentia tomar conta de sua consciência o que fere a confiança de Teri, que foi, o tempo todo, uma amiga fiel e sincera. E, para concluir esta jornada, vamos para Dylan/Link, o personagem de Doherty. O jovem, fissurado em chegar no Colorado e invadir o bunker de Sinatra, tem apenas um único objetivo: recuperar a ALEX, sua invenção, sua criação e que foi enganado por Sinatra.
De uma maneira emblemática, encerrar a segunda temporada com um gancho que dependerá unicamente de uma IA é complicado. Num primeiro momento é perspicaz, pois é um caminho narrativo que ninguém esperava. Ainda temos que lidar com a suspensão da descrença de toda a primeira temporada, em que apresenta soluções a situações inimagináveis. Fogelman força bastante a barra e ultrapassa todo e qualquer limite que há na ciência, na biologia, na arquitetura... Depois de tudo isso, ainda precisamos lidar com a presença de uma IA que prevê o futuro e que tem o poder de controlar o presente. Como assim? É demais para a nossa consciência humana e limitada, não é mesmo?
Não sabemos para onde Paradise vai caminhar. Agora, todos os sobreviventes estão fora do bunker, que, inclusive, ele virou uma grande bolsa radioativa por conta de uma explosão nuclear que aconteceu graças às ações revolucionárias de Jeremy e companhia. Nem perguntas e nem respostas, a série segue seu ritmo oferecendo um entretenimento que tenta nos convencer e conquistar a nossa atenção. Já renovada para uma terceira temporada, agora é aguardar por onde ela decidirá caminhar. Xavier recebe os comandos da ALEX e sua localização em um outro bunker situado em Denver.
Por Dione Afonso | Jornalista