Drama familiar, terror e investigação policial parece um prato cheio para uma boa história. Contudo, conciliar cada detalhe destas narrativas não é uma tarefa simples. A dupla de roteiristas Ben Jacoby e Chase Palmer tentam equilibrar o suspense na adaptação de O Homem Que Sussurra, do escritor Alex North, para a Netflix. O resultado que temos é um filme que possui um ritmo interessante, que até nos convence de chegarmos até o final, mas o resultado não agrada. O filme eleva nossas expectativas e até nos faz torcer pela história. Contudo, o ato final cai no genérico de filmes deste gênero e acaba se tornando apenas mais uma história que será esquecida em breve.
Temos uma trinca de personagens muito bem colocados: primeiro, Adam Scott surge como Tony Kennedy. Vivendo um luto ao lado do filho Jake (Acston Luca Porto), os dois mudam-se de casa para tentar recomeçar a vida. Robert De Niro surge na trama como Peter Willis, um ex-policial que tenta gozar de sua aposentadoria, pai de Tony, cujo filho não vê há anos e, Amanda Beck (Michelle Monaghan), uma policial investigadora que se vê numa ação que acaba envolvendo Tony e Peter. A direção está a cargo de James Ashcroft.
É notório que O Homem Que Sussurra tenta ganhar pela trama apostando numa família que precisa se reconectar e viver novas histórias. De Niro traz um personagem esquecido pelo passado, mas que entra na trama com a intenção de apresentar novos rumos para a narrativa. Scott está muito bem em seu papel, ele é um excelente ator e seu personagem também possui ótimas qualidades para a história. É justamente a personalidade firme de Tony que faz com que Peter Willis não conquiste tão bem assim o seu lugar de fala e de presença nos atos finais. Há uma breve obsessão por serial killer que o filme até tenta explorar, mas quando o assistimos, parece que nosso interesse acaba sendo mais pelo reencontro da família: avô, pai e neto, do que pela captura do sequestrador de crianças.
O filme se entrega a inúmeros clichês óbvios que faz a trama perder força. A insatisfação pelo resultado desta história torna-se um “banho de água fria” para o público. O terror perde força; o drama familiar decepciona ao se perder em falhas personalistas que decidem não aprofundar as questões familiares e a investigação policial perde sentido e relevância. Isso faz com que a narrativa, lenta e sem motivação, torne cansativa a história e, portanto, perdermos o interesse. O elemento sobrenatural se perde no meio da história, pois ele aparece sem ter motivos e desaparece sem nos dizer o porquê esteve ali. Por mais que tenha sido pequeno, foi um elemento decisivo na reta final do último ato.
Hoje, parece-nos que cada vez mais percebemos que há filmes feitos exclusivamente para o streaming e filmes feitos para as salas do cinema. Não obstante, já há uma forte discussão, por exemplo, de filmes “oscarlizados”, feitos para o Oscar, produzidos visando a estatueta. Mas, voltando à discussão inicial, O Homem Que Sussurra, parece-nos que nunca seria aquele filme que ganharia uma janela de exibição nas salas dos cinemas. Temos que tomar cuidado para não desmerecer um trabalho a fim de vangloriar outro. Não existe essa ideia de que filmes exclusivos para o streaming são menores ou menos significantes do que os lançamentos para os cinemas. Talvez a diferença esteja no formato de produção, no interesse mercadológico da distribuição e na intenção de público que determinada história foi contada. Neste caso, Ashcroft nos deu uma história “limitada”, própria para a tela pequena, dentro dos algoritmos determinados pela plataforma responsável pela distribuição e lançamento.
Por Dione Afonso, jornalista.