06 Jan
06Jan

Desde sempre houve uma tensão bélica entre a arte e o mercado. Trata-se de uma linha tênue entre produzir para reverenciar a arte e a beleza e produzir para vender e lucrar. Muitos episódios na história da indústria do audiovisual relatam situações desprezíveis e desonestas que ferem pessoas, desestabiliza o mercado, mexe com a economia e vira notícia nos tabloides e pauta nos podcasts dos influencers. Nada se torna tão apetitoso do que uma fofoca de bastidores que vende mais que a bilheteria de Avatar, do Cameron. De Seth Rogen e Evan Goldberg, a série O Estúdio resolveu lidar com esses picos históricos da indústria de uma forma épica, inovadora e satiriza o mercado de maneira nada sutil, mas eficaz para cutucar os gigantes que monopolizam o nicho. Olá,  Netflix, acho que essa foi pra você? 

Encabeçada pelo quinteto Seth Rogen; Ike Barinholtz; Chase Sui Wonders; o ícone Catherine O’Hara e a magnífica Kathryn Hahn, a primeira temporada acompanha Matt Remick (Rogen), recém nomeado Diretor da Continental Studios que, na série é a principal concorrente contra a Warner Bros., em sua jornada profissional de fazer o estúdio crescer em números e prestígio diante do mercado hollywoodiano de cinema. No decorrer dos 10 episódios, Remick vivencia todas as experiências que alguém do ramo está sujeito a sofrer: desde as exaustivas tentativas em conquistar grandes nomes para dirigir os filmes, como Martin Scorsese, Aaron Sorkin, Ron Howard, os sufocos de bastidores em grandes eventos como a Comic Con, até a amarga experiência em não ser lembrado e reconhecido em noites de premiação como o Globo de Ouro. 


Entre um cinéfilo devoto e um profissional do mercado 

Até nós, os críticos da Sétima Arte e da TV passamos por esta encruzilhada e ficamos tensos entre deixar o nosso lado apaixonado e cinéfilo falar ou priorizar o profissionalismo e produzir algo sério e que o mercado compre com gosto. Pois bem, este sentimento é o que define o personagem de Rogen, e quando ele substitui sua mentora, Patty Leigh, impecavelmente protagonizada por O’Hara, ele precisa tomar uma importante decisão em seu trabalho. Contudo, Remick não consegue lidar com o profissionalismo, sobretudo quando é mais necessário. Em nome de grandes amizades e pelo carinho por artistas, como é com Anthony Mackie, por exemplo, Remick não sabe ser verdadeiro. Quantas vezes nós precisamos ter junto de nós aquele grilo falante de Pinóquio para nos ajudar a nos corrigir, tirar os exageros, ajustar o que está fora do lugar, lapidar o material que produzimos? 

Patty, depois da demissão é recontratada por Remick como Produtora, o que a fez sair dos escritórios e ir para as gruas de edição, produção e filmagens dos longas-metragens. O’Hara está impecável em seu papel e o fato de termos uma mulher no auge dos seus 71 anos transmite para nós um recado super atual a respeito da valorização dos artistas +60 que geralmente tornam-se descartáveis para o mercado de trabalho. Sua personagem não deixa de dar o seu recado, ela dá a volta por cima e se torna ícone em sua profissão, dentro da Continental Studios. Poder assistir Remick abrir mão de seu sonho em produzir histórias mais autorais e que vangloria a arte e ter que aprovar projetos de blockbusters com intuito de angariar os bilhões em bilheterias é frustrante. Por mais que a série satirize as opções deste mercado, ela ainda se deixa levar pelo erro que a própria a julga. 

A gerente de marketing Maya (Hahn) talvez poderia ter nos dado um pouco mais. Sabemos que a publicidade e propaganda de um produto é a alma do negócio contudo, Rogen e Goldberg pareceu-nos não querer explorar este tema. Pelo menos, não na primeira temporada. Hahn está impecável no papel. De personalidade frenética, nada convencional, exagerada e linda e atraente, ela dá a Maya a verdadeira expressão que uma profissional do marketing possui. Infelizmente só a vimos em ação uma única vez ao mostrar as ideias que teve de pôster para o filme que Mackie protagoniza. O restante de sua narrativa foi acontecendo em segundo plano. 


Obrigado Sal Saperstein! 

Para este crítico que vos escreve o melhor episódio de toda esta temporada é, sem dúvidas, o do Globo de Ouro. Poder assistir a interação entre o ator Adam Scott e a crítica ferrenha e direta a Ted Sarandos – sobretudo nesse momento em que a Netflix compra a Warner Bros. Discovery – foi um presente dos deuses! E é aqui que a série encontra o seu coração, sua razão de existir e onde nos toca profundamente. Enquanto a premiação acontece um sentimento de não-reconhecimento atinge Matt Remick de uma forma deprimente e real. Quantos de nós sofremos e fazemos das tripas, coração para que um produto chegue na sua fase final impecável? Quantos de nós nos machucamos, ferimo-nos e nos desfazemos de sonhos e aquisições para que um produto aconteça? Quantos de nós fazemos dos bastidores, atrás das cortinas, nossos lares para que os holofotes brilhem sobre o artista que está no palco? Quantos de nós, redatores, escritores, diretores, fizemos acontecer e não somos sequer mencionados no discurso ou, nem, pelo menos, recebemos um aperto de mão com um “muito obrigado!”? 

A primeira temporada teve ilustres participações especiais: Scott e Mackie, como mencionamos acima e o Scorcese, interpretando ele mesmo. Paul Dano; Zac Efron; Dave Franco; Zoe Kravitz; Charlize Theron; Olivia Wilde; Parker Finn, o diretor da franquia Sorria; entre outros... Todos eles, dentro do roteiro e da narrativa propostos, gira uma engrenagem que vai desde as traições e infidelidades no mercado, como quando Remick compra o roteiro do filme de Scorcese e o engaveta por puro interesse financeiro, favoritismos, bajulações e piadas que vão desde uma possível escalação racista ao uso de IA num longa-metragem que enfurece o público da Comic Con. Mas, no meio de tudo isso temos Sal Saperstein (Barinholtz) que acolheu o jovem Scott no sofá de seu apartamento quando o aspirante a ator estava iniciando a sua carreira e, por isso, Sal tornou-se ícone celebrativo – claro que com ironia – na grande noite de premiações.




Por Dione Afonso  |  Jornalista

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