31 Aug
31Aug
31 de agosto de 2026 



Na última semana de junho deste ano, através das lentes comandadas pelo cineasta australiano Craig Gillespie, os estúdios da DC Comics lançaram nos cinemas o filme da heroína Supergirl, que acompanha a jornada da jovem não-humana Kara Zor-El (interpretada por Milly Alcock), prima do famoso Superman. As expectativas pelo sucesso do filme estavam altíssimas, pois, o estúdio estava em alta com o grande sucesso do novo Superman, vivido pelo ator David Corenswet, lançado um ano antes e que ultrapassou a marca dos 600 milhões de dólares nas bilheterias. Ou seja, sucesso absoluto que, acreditavam, iria corroborar no próximo lançamento. 

Contudo, parece que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar – pelo menos, não foi assim, neste caso. O filme de Gillespie teve uma despesa por volta dos 175 milhões, mais os 120 gastos com o marketing e outros 310 milhões de distribuição para a Warner Bros. Supergirl arrecadou apenas US$ 125,8 milhões nas bilheterias. Um número muito distante comparado ao longa de um super-herói, protagonizado por um homem, que teve investimentos pareados, mas que triplicou a sua arrecadação. 

Parece que mulheres heroínas não nos chamam muito a atenção, não é mesmo?!

Essa história não para por aí: em 2023, a Marvel Studios lançou uma narrativa também conduzida por mulheres: o filme As Marvels que tinha não uma, mas três heroínas: a Capitã Marvel, de Brie Larson; Monica Rambou, por Teyonah Parris (atriz negra) e a jovem Iman Vellani, como Kamala Khan, a Ms. Marvel (e atriz é não-americana, com descendência paquistanesa). E tem mais: no roteiro e direção, outro trio de mulheres: Nia DaCosta (uma das poucas cineastas mulheres e negras), dirigindo e assinando a história ao lado de Megan McDonnell e Elissa Karasik. O filme, protagonizado e dirigido por mulheres também não fez sucesso. Claro que as críticas levantaram problemas de roteiro, narrativa, etc etc etc... Mas ele entra no rol da crítica deste texto.

Infelizmente os exemplos deste machismo – que não é mais velado – muito pelo contrário, está escancarado em nossa frente, não terminam aí. Os modelos de uma comunidade patriarcalista, abusiva, machista, controladora, egoísta e de poder absoluto acabam eliminando os demais seres que não se “encaixam” nestes postos de fala, voz e poder. É inevitável percebermos, no campo do audiovisual, o quanto que as mulheres não são “atrativas” a ponto de sentirmos interessados em gastar o mesmo tempo, dinheiro, oportunidade e lazer para ir assistir seus trabalhos, na mesma intensidade que fazemos isso com os projetos comandados e protagonizados por homens. E quando essas mulheres são negras ou de descendência não-americana, parece que o preconceito e a desconfiança triplicam. É inadmissível que em pleno 2026 a gente ainda precise ter esse tipo de conversa. É desumano ainda percebermos que as mulheres precisam gritar e lutar por direitos que deveriam ser delas e de todos por critérios de humanidade e de simples existência!

E isso não é apenas “coisas da minha cabeça”: recentemente, o estúdio da HBO concluiu a sua terceira temporada da série dos dragões: A Casa do Dragão, derivado da grandiosa Game of Thrones, de George R. R. Martin. E ali, esta preocupação está ainda mais gritante! Pois toda a história é marcada pelas dificuldades da tomada de poder de uma mulher, rainha, ao subir no Trono de Ferro, dela por direito e comandar os Sete Reinos. A série reflete tal qual realidades de nossa sociedade. Modelos de governança ditados por mulheres; instituições coordenadas por mulheres; organizações feita por mulheres sempre possuem um grau menor de credibilidade. 

Na série, a Rainha Rhaenyra Targaryen (Emma D'Arcy) sofre com as imposições machistas, até de seu irmão. Há diálogos marcados com frases como: “você é uma mulher, é natural que sofra estas consequências mais que nós, homens”; ou ainda, “uma mulher no Trono de Ferro é um erro”, e ainda mais, “uma Rainha não tem a mesma força que um Rei para mandar em mim”. Na primeira temporada ainda ouvimos a expressão: “um dragão é dragão porque é macho. Nunca haverá dragão fêmea”, e George R. R. Martin se pronunciou: “o dragão pode ser o que você quiser, assim como a mulher pode ser o que ela quiser”. Ele complementa afirmando que os dragões não se prendem a critérios normativos de sexualidade ou de personalidade... E, caso você não saiba, o feminino de dragão é dragoa. 

As perguntas que ficam: por que nós homens nos sentimos tão ameaçados quando as mulheres conquistam os mesmos espaços que nós? Por que nós homens preferimos assistir outros homens e não apoiamos as mulheres em seus trabalhos? O que dá direitos a nós homens, classificar que o trabalho das mulheres é sempre inferior ao nosso? O que leva os homens acreditar que não vale a pena creditar justamente os esforços de uma mulher em seu trabalho? Por que nós homens insistimos na invisibilidade das mulheres? Será que um dia os cinemas irão lotar-se para assistir e aplaudir um trabalho de mulheres na mesma intensidade que reconhecem os nossos? 

Que lição deixaremos para nossos filhos? Em nossa casa, e nas escolas, nossos filhos leem livros igualmente escritos por homens e por mulheres? Nossos filhos valorizam as mulheres da família igualmente como se dá valor aos homens? Nós, adultos, insistimos numa educação inclusiva, participativa, de gênero, política e cultural? Nossos filhos ouvem dentro de casa expressões como "isso é coisa de mulher"; ou pior, "isso é trabalho de mulherzinha"; ou ainda, "fala igual igual homem"?

Se você está com dificuldades em dar respostas positivas e concretas a estas perguntas, talvez você pode estar contribuindo para um futuro fadado a cometer os mesmos erros que estamos cometendo hoje. Se você não é contra, você é cúmplice e acoberta o crime, ou seja, é partícipe deste preconceito cruel que ainda mata muitas mulheres no país. E amanhã, depois de amanhã, no terceiro dia, semana que vem, daqui um ano, dois anos, na década futura, a nossa comunidade, atrasada, ultrapassada, incoerente com as transformações sociais, ainda estará lutando para que homens e mulheres sejam vistos com igualdade. Ambos contribuindo, no mesmo degrau da vida, pela construção do conhecimento, do aprendizado e do desenvolvimento de cada um, cada uma. 

A você que permaneceu até aqui: faça uma revisão naquilo que você costuma ler no seu celular, nos livros que você costuma se interessar, nos filmes e séries de TV que você curte, nas músicas que ouve. Quantas destas produções foram comandadas por mulheres? Quantas são dos brasileiros? Quantas são de pessoas negras? E faça você mesmo uma síntese sobre que tipo de ser humano você é e que ideias repercute para os outros à sua volta! 

Até a próxima! 



Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: Reprodução / Foto de Anna Shevchuk / via Pexels.

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