16 Feb
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16 de fevereiro de 2026 



Foi numa tarde chuvosa, mas, mesmo assim, de calor intenso, que foi possível perceber a presença de uma pessoa admirando a praça do seu bairro reformada, pintada e iluminada. Há anos esta mesma praça havia se tornado um depósito de lixo a céu aberto. Lugar sujo, sem propósito, abandonado, onde animais, pessoas e entulhos conviviam sem nenhuma harmonia. Sobretudo, é um lugar de grande tráfego tanto de veículos, quanto de pedestres. Merecia o que hoje se tornou. 

Parar e admirar a beleza urbana, os bancos de cimento com azulejos quadriculares e coloridos. Os aparelhos de ginástica. As árvores que não foram cortadas, os paralelepípedos em perfeita sintonia, a iluminação e as crianças aproveitando aquele espaço com seus pais é uma oportunidade de vida. Uma cena que a cada ano vai se perdendo: a capacidade de admirar. Está se tornando cada vez mais raro encontrar com estas pessoas que conseguem dedicar um pouquinho do seu precioso tempo para se admirar. 

Para a filosofia, o tema da “admiração” é bastante frutuoso para as reflexões. Do latim, admiratio, trata-se de um sentimento profundo de respeito, estima, encantamento ou até mesmo do “espanto”. A capacidade de admirar permite o reconhecimento de virtudes, talentos ou de qualidades extraordinárias que, para a seara filosófica pode chegar até a contemplação. Algo que a filosofia da estética se compromete em investigar. Enfim, a “admiração” é a capacidade de valorizar, coisas, situações, momentos, e pessoas pelo caráter, pela simplicidade, pelas conquistas, vitórias. É a arte de parar e respeitar o outro. 

Tem gente que acha que a inteligência diplomática e a dos certificados de conclusão de cursos servem para apunhalar os outros. Ou pra mostrar sua superioridade diante da “inferioridade” alheia. E esses mesmos não conseguem admirar a beleza que há por trás de uma lâmpada acesa ou dos ponteiros de um relógio. Ser feliz no simples nos permite observar a grandiosidade em gestos que muitas vezes perdem de nossas vistas. 

A busca pela felicidade já teve o seu auge há algumas décadas. Hoje a demasiada procura por esta sensação parece ter encontrado concorrentes mais atraentes, mas luminosos, mais empolgantes, brilhantes, chamativos. A felicidade já foi tema de embates filosóficos e até razão da existência humana. Houve tempo que muitos viviam pela felicidade, hoje, parece que a luta pela vida tem outras razões. A felicidade, mais que sonho, tem sido objeto raso de pequenos momentos de prazer e gozo. 

O simples não se explica. O simples não necessita de anúncios. O simples se expressa na grandeza de sua pequenez. O simples se auto resolve. O simples não carece de atenção, mas encanta quem o concede. 

O simples é belo, mas quando não o é, ele não se acovarda. O simples não se esconde e nem se autointitula o melhor. O simples não é arrogante e nem ambicioso. Mas quando é, sua ambição está em sua pobreza e no fato de não ser popular. 

A popularidade do simples está no não ser popular, não gostar dos brilhos da atenção. O simples está no brilho de cada olhar que percebe sua presença e existência. A capacidade de admiração está se tornando cada vez mais ausente de nossas relações com a vida e o cosmos. O ethos perde sua relevância diante de um humano que não vê, não admira, não observa e não se deixa encantar-se por algo simples e digno de felicidade. 



Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: de Harvey Moe Hein Pexels.


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