09 de fevereiro de 2026
Sinto-me no dever de, mais do que redigir uma crônica nesta semana, mas de dirigir uma carta de gratidão pela existência, permanência e resistência dos irmãos Caetano Emanuel Viana Teles Veloso e Maria Bethânia Vianna Telles Velloso. Caetano e Bethânia conquistaram o primeiro prêmio Grammy Latino de Música em toda a sua carreira. Juntos, eles somam mais de um século e meio de carreira, de arte, de poesia, de Música Popular Brasileira e para brasileiros.
Viva a nossa cultura e a nossa música. Quem nunca “caminhou contra o vento, sem lenço pra se proteger e documento pra se fazer reconhecer”? Quem nunca se sentiu num “tempo de guerra, sem sol, em que nem sua voz pode se fazer ouvida”?
Naturais de Santo Amaro, na Bahia, nordeste brasileiro, Caetano e Bethânia fizeram da música um ato de resistência e da própria identidade. Eles cantam não para angariar honrarias, sucesso e nem para conquistar pódios da fama. Eles cantam para denunciar o que fere e o que mata o ser humano. Eles cantam para denunciar o mal e o que maltrata nossa gente. Eles cantam em nome de uma política honesta e que denuncia esquemas desumanos. Eles cantam porque música é arte, a música eleva a alma, a música é viva e faz-se viver quem se afunda em oceanos de morte e sombras.
O baiano (e a Bahia) e o Brasil, agora não tem mais apenas o molho – molho este que faz parte de outra seara também musical. Mas tem o cinema, tem Wagner Moura – que também é baiano –, tem o Globo de Ouro de Cinema, tem Cannes, tem o Grammy e (já) tem o Oscar. O que mais poderíamos ter?
Sou um brasileiro de 36 anos que não viveu na pele o tempo obscuro da Ditadura. Mas tenho consciência história e busco aprendizado crítico sobre os horrores desumanos que o país passou naquelas décadas. E tenho a oportunidade de conviver com quem viveu naquela época e carrega na memória os horrores daquele tempo. Sei também que até hoje sobrevive algumas cicatrizes daqueles anos e que insistem em doer até os dias de hoje. Preocupo-me com a geração que está chegando agora e que nasce e vai crescer sem este aparato histórico. Influenciados por aqueles que tentam eliminar das consciências o que de fato houve. Aquela era define o Brasil do futuro, não para que se repita, mas para que a humanidade saiba o que um ato de soberania e poder abusivo é capaz de fazer.
Para esta geração, aconselho a não deixar de ouvir Caetano! Ouça Maria Bethânia, ouça Erasmo, ouça Gilberto, ouça Elza, ouça Rita Lee, ouça Chico Buarque, ouça Elis, ouça Geraldo, ouça Milton. Assista “Terra em Transe” do Glauber Rocha; “Xica da Silva’ de Carlos Diegues; “Olga” de Jayme Monjardim; “A Opinião Pública” de Arnaldo Jabor. Busque na Literatura também... Aproveite o hype e reassista “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, que são claros e verdadeiros retratos daquele tempo. Somente a cultura é que será capaz de nos salvar da mediocridade, dos estultos sem conhecimento. Quem é contra a cultura é porque não é capaz de lê-la e compreendê-la. Para esses tapados, é mais prático expurgar o que não se entende do que assumir serem ineptos para entender. Reparem que a maioria das atrocidades são ditas por quem não reconhece a própria cultura e nem respeita a de outrem. Falam asneiras e pecam contra a humanidade.
A cultura é plena, bela e de alto valor histórico, social, religioso, musical, teatral, gramatical... A cultura é um jeito de ser, viver, conhecer e até de fazer. Hoje estamos conhecendo uma nova geração de brasileiros que viverão (pelo menos eu torço por isso) novos tempos de liberdade e de humanidade. Nascer hoje é recriar um Brasil melhor, mais seguro e mais limpo. Limpo das atrocidades violentas e desumanas; limpo dos lixos da ganância e do mercado soberbo e capitalista; limpo das sujeitas da falta de consciência ecológica e de respeito ambiental.
Termino com aquela prece forte dos nossos amigos Caetano e Bethânia: “Fé pra quem é forte. Fé pra quem é foda. Fé pra quem não foge da luta. Fé pra quem não perde o foco. Fé pra enfrentar esses filhos da puta. Fé no proceder, na luta e na lida. Enquanto a gente não conquista, segue em frente firme”! A música “fé” tornou-se um grande sucesso pela cantora Iza, lançada em 2024. Os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia a regravaram como uma homenagem à cantora carioca exaltando sua resistência e força.
Obrigado Caetano!
Obrigado Bethânia!
Viva Caetano Veloso!
Viva Maria Bethânia!
Viva a Música Brasileira!
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto: Lana Pinho / Divulgação.