02 Feb
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02 de fevereiro de 2026 



A busca por aceitação e por prestígio social sempre foi algo inerente no ser humano. Mesmo afirmando que pouco importamos a respeito de como o outro nos vê ou o que ele constrói a nosso respeito não nos ser relevante, é inevitável que, vez ou outra, nos preocupamos um pouquinho com o que fulano ou ciclano pensa ou deixa de pensar a nosso respeito. Quem nunca quis nem que seja um mínimo de reconhecimento? Quem nunca se sentiu feliz por um elogio? Quem nunca ficou realizado quando um trabalho seu foi reconhecido? Uma ação foi notada? Quando você teve seu nome lembrado e colocado na lista de agradecimentos e honrarias? Pode até não ser um cidadão honorário, mas o simples fato de seus próximos te prestigiar já é válido o suficiente para que se sinta realizado. 

Mas a sociedade é má. A perversidade também é algo que se manifesta, com certa frequência, entre estas mesmas ações humanas. Em templos sagrados e alguns outros centros com práticas espiritualizadas e ritos religiosos é muito comum ouvir-se o mantra: “seus pecados estão perdoados”. Não querendo evocar aqui a personalidade de Jesus Cristo, que afirmam ser uma pessoa que viveu nesta terra há alguns milênios, mas, vivemos em busca deste perdão como uma brecha justificável para o mal que praticamos. Nossos pecados estão perdoados! E fico me perguntando, será mesmo? Não querendo desmerecer certo poder ou autoridade destes Templos de garantir certa salvação. 

Diante desta humanidade, questiono se isso não pode se tornar uma brecha mal interpretada para que tantos de nós, sigamos praticando o mal, uma vez que ele será redimido de minha ficha criminal. O mal não é desorganizado. O mal sempre age com propósito e objetivo claro. Ele sabe onde atingir e como atingir. Quando a maldade quer se manifestar, ela se organiza, escolhe seus alvos e faz um serviço bem-feito. Ao contrário, o bem se veste de fragilidade, o bem não olha a quem, ele simplesmente vai lá e faz e, nem sempre cumpre com seus objetivos. A bondade humana é livre, simples, mas honesta. E, honestidade não é um grande feitio do mal, não é mesmo? 

Perdoado, ou não, praticante de ações religiosas ou não, a tal salvação que se busca nessas peregrinações revestidas de oração e fé sempre tem um ponto de partida. Até mesmo para aquele ser humano que se diz ateu, ele busca alguma salvação para os seus erros. O pagão também tem uma crença: quer se justificar. Também espera certo perdão pelas faltas cometidas. Independente do ato que nos colocou em situação precária em relação à humanidade, um perdão só é válido se ele começar de dentro para fora. Ou seja, de nada vale o perdão vindo de fora, concedido por outrem, se ele não brotar de dentro, se ele não encontrar no próprio coração humano o redimir de sua própria falha. 

É preciso que cada um de nós nos perdoe de si mesmo. Olhar para nossas falhas, nossos erros, nossos atos desonestos e nos arrepender do mal que fizemos. Dos erros que praticamos, das pessoas que ferimos. Se o perdão não acontecer na primeira pessoa do singular, ele não atingirá a conjugação verbal nas flexões plurais. Eu me perdoo por ter me tornado uma pessoa fria e calculista e ter dificuldades para amar os outros. Eu me perdoo por ter usado meu currículo e ter me vestido de certa arrogância colocando meu saber superior ao conhecimento dos outros. Eu me perdoo por ter feito do poder uma ferramenta de abuso e de violência. Eu me perdoo por ter maltratado meu próprio corpo e, insatisfeito com ele, o submeti a procedimentos artificiais, alterando a sua essência. Eu me perdoo por ter julgado tantos e tantas pessoas, amigos, familiares, e não me permiti o meu próprio julgamento. 

Perdoar pecados não é uma mágica e nem algo breve, mas um processo contínuo e permanente, pois faz parte da natureza humana errar. Assim como precisa fazer parte o ato de perdoar, corrigir-se e recomeçar sempre com o intuito de não cair nas mesmas tentações... O erro é fatigante, ele nos esgota, consome e nos cansa. Mas quando acertamos, o acerto é libertador, leve, e nunca nos deixa com aquele sentimento de peso ou da fadiga do processo. Experimente perdoar-se, isso pode virar uma prática viciante. 




Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: Imagem de Kalhh / via Pixabay.

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