26 Jan
26Jan
26 de janeiro de 2026 



Não merecem lugar acusatório esse grande grupo de pessoas que se exercitam. Cuidam do corpo. Ficam atentos à saúde e buscam uma qualidade de vida favorável. Eles estão, cada um, fazendo a parte que lhes cabe numa sociedade em que cresce de forma alarmante o número de pessoas obesas. Em 2025, 61% dos brasileiros adultos estão acima do peso e mais de 15% de crianças e jovens já apresentam diagnóstico de obesidade aguda. 

Sobe na caixa, desce da caixa, pula corda, gira pneu, sobe na corda, joga bola, dá uma volta no quarteirão, levanta peso, corre, agacha, levanta, sobe na caixa, desce da caixa, pula corda, gira pneu, sobe na corda, joga bola, dá uma volta no quarteirão, levanta peso, corre, agacha, levanta, sobe na caixa, desce da caixa... ufa! Deu pra suar. O cansaço bateu só de treinar a leitura desta sequência. Já imagino como que deve ser praticando... 

Precisamos nos reeducar. Reeducação social – aquela que nos tira de nossos aparelhos eletrônicos e nos coloca em contato com as pessoas. Reeducação tecnológica – aquela que liberta da prisão das máquinas, games e bets.  Reeducação cultural – aquela que nos leva de volta ao teatro, redescobre a beleza do cinema e reaprende a entrar numa livraria e se apaixonar de novo pelos livros. Reeducação política – aquela que nos ensina o respeito e a amizade com os que pensam diferente e furam a nossa bolha de conhecimento limitado. E por fim, só depois de tudo isso, uma reeducação alimentar – aquela que nos apresenta um corpo ideal, uma beleza natural sem recorrer a canetas milagrosas e a procedimentos estéticos que nos transformam em monstros desfigurados como fez um dia Victor Frankenstein

Não fomos feitos para sobreviver. A sobrevivência é sinal de que o perigo está sempre à nossa porta e que nós vivemos sempre no passo de urgência. Não. Isso não é humano. Fomos feitos para viver. E viver bem. Viver felizes. Viver plenos. Reeducados. 

Há muitas reeducações que nós precisamos adotar. Muitas que nem foram citadas aqui, mas que gritam por nossa atenção. Enquanto isso, sobe na caixa, desce da caixa, pula corda, gira pneu, sobe na corda, joga bola, dá uma volta no quarteirão, levanta peso, corre, agacha, levanta, sobe na caixa, desce da caixa... Para que evitemos outro tipo de atividade: sobe na balança, desce da balança, senta na cadeira de espera, levanta, vai na triagem, afere a pressão arterial, verifica a temperatura do corpo, levanta, vai ao consultório, senta, levanta, deita na maca, colocam um acesso em uma de suas veias, recebe soro, medicamentos... bom... não desejo chegar ao fim desta sequência... 





Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: Julia Larson / via Pexels.

Comentários
* O e-mail não será publicado no site.