26 de outubro de 2026
“Palavras são, na minha nada humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia. Capazes de formar grandes sofrimentos e de remediá-los”, disse Alvo Dumbledore a Harry Potter, enquanto este buscava em sua consciência um caminho para voltar à vida. Esta frase faz parte do roteiro de Steve Kloves, adaptando a literatura inglesa infanto-juvenil “Harry Potter e as Relíquias da Morte” (2001), da autora J. K. Rowling. Você já parou pra pensar o quanto suas palavras podem causar no dia a dia? O quanto seus pensamentos, transformados em voz, podem transformar a história? O quanto seu grito pode te libertar e/ou libertar alguém? O quanto sua voz pode destruir, machucar, ferir, maltratar ou manipular alguém?
É fascinante o poder que a literatura concedeu às palavras. Confere a elas o ato da criação. Por isso que, nas vésperas do Halloween, ou, Dia das Bruxas aqui no Brasil, resolvi debruçar-me a respeito de uma palavra que todos a conhecem de ouvir falar, mas nunca pararam pra pensar no seu poder, significado, origem: ABRACADABRA. Ela vem do aramaico e significa “eu crio enquanto falo”. Quando éramos crianças, era comum o nosso fascínio por histórias que escapavam da capacidade humana. Acreditar em mundos fantásticos, universos de tecnologia avançada, lugares mágicos era a nossa maior diversão. Era inevitável que uma criança não crescesse sem que essas histórias lhe fossem apresentadas.
Quando o assunto era magia, feitiços, mágicas os olhos brilhavam de alegria e surpresa. De encanto. Entre uma história e outra: ABRACADABRA! E, tudo virava imaginação! Abracadabra, e eu poderia “criar” o que eu desejasse, sonhasse... o que eu me permitia ser real. “Abracadabra” é uma palavra misteriosa. O que parece ser certa coincidência, não é mesmo?! Dado aos contextos em que ela é evocada.
O dicionário da língua portuguesa registra a palavra como uma expressão atribuída à cultura mais antiga que se possa imaginar e que ela faz parte de ritos e celebrações tão antigos quanto o que a mitologia consegue explicar.
Sereno Samônico, que viveu entre 188 d.C. a 217 d.C., considerado um sábio e responsável por desenvolver rituais de cura medicinais, assina um papiro em que aparece, pela primeira vez a palavra “abracadabra”. E ela surge num contexto de cura contra uma febre muito forte, que mais tarde, conhecida como malária, devastou toda a Roma Antiga. Samônico instruía os enfermos a escreverem abracadabra 11 vezes, uma palavra em cada linha, e a cada vez que escrevesse, excluía-se uma letra, até formar um cone (um filtro), e, deveria amarrar o papel com as palavras em volta do pescoço. Samônico espalhava a crença de que a doença desaparecia aos poucos, assim como “abracadabra”.
No século XVI, um livro do italiano Eliseu ben Gad também continha a palavra. Neste, “abracadabra” aparecia como parte de um encantamento para uma cura contra todos os tipos de febre. Mais tarde literaturas britânicas do século XVIII, como a obra de Daniel Defoe, abracadabra aparecia como uma fórmula mágica que garantia esperança e cura, sobretudo contra a fatal peste bubônica. “Abracadabra” acabou fazendo parte de superstições e magias no decorrer dos séculos. No século XIX ela foi apropriada pela cultura ocultista, o que trouxe para ela rejeição e maldizeres, e a conectou com rituais de bruxaria e outras “energias e forças do mal”.
Mas, não para por aí. O Dicionário Oxford, da Língua Inglesa, em sua primeira edição de 1884 aponta que a palavra “abracadabra” tem sua origem desconhecida. Portanto, querido leitor, o que você vai receber daqui pra frente são teorias e mais teorias de grandes especialistas que tentam, até hoje, decifrar o mistério que ronda abracadabra.
Abracadabra possui, então, duas raízes etimológicas: uma aramaica e outra hebraica. Partindo desta elaboração linguística, é inevitável não considerar certa ligação do termo com as tradições judaicas e cristãs. “Abracadabra”, em aramaico, significa “eu crio enquanto falo”. Na língua aramaica temos a expressão “avra c’dabrah” – “eu acredito com a palavra”; já no hebraico, “abra kedobar” é “aconteceu conforme anunciado”. Na bíblica hebraica, no relato da Criação, temos a expressão “avra gavra” que, proferidas pelo Deus cristão, significa “criarei o homem”.
Partindo desta etimologia, começa a surgir aquela máxima de que tudo o que alguém fala, tem força e poder de se realizar. “Abracadabra!”, é, portanto, a indicação de que o que eu falo, que seja feito conforme o pronunciado. O mero ato de proferir uma palavra deve instigar que alguma coisa seja criada. Hoje percebemos que as literaturas fantasiosas, as histórias fictícias ou até mesmo contos reais utilizam-se desta sabedoria antiga para representar a magia ou os atos mágicos.
Contudo, dizer “abracadabra” não significa que você ordenará apenas algo bom, ou que você deseja somente o bem. O que eu desejo pode ir além dos atos de bondade e de amor. Por exemplo, na saga infanto-juvenil de Harry Potter, há um feitiço das trevas que é até proibido de ser pronunciado: “avada kedavra”, é uma variação aramaica de “abracadabra” e que significa “que você seja destruído”, ou seja, o feitiço lançado tira a vida de quem o recebe.
“Lançar feitiço”, em inglês é “spelling”, que também significa “soletrar”, ou seja, reafirma, mais uma vez, o poder das palavras que são proferidas. Pois é, nossas palavras possuem um poder estupendo, ao mesmo tempo que é brilhante. Elas costuram a história e decidem quem vence e quem perde. Uma vez, ouvi dizer que os livros de história são escritos apenas pelo lado dos vencedores e, portanto, que nós nunca saberíamos como que foi do outro lado. Assim como a história da Chapeuzinho Vermelho chegou até nós pela voz da garotinha, vítima. Nunca saberemos, ou a história nunca nos permitiu ouvir o lado do Lobo Mal. As palavras ditam as regras, direcionam a vida, controlam o poder... Mas as palavras também educam, ensinam a amar, fortalecem amizades, constroem vínculos. Ahhh, as palavras...
Outras teorias ainda afirmam que Abracadabra era um deus assírio; outros que era uma variação semântica do pai da álgebra, um matemático árabe; em 1822 um astrônomo defendeu de que abracadabra era a descrição da constelação de Touro... Enfim, independente do que a expressão possa significar, “abracadabra” entra para o rol das palavras ininteligíveis, e de origem completamente desconhecida, inclusive de seu idioma original. Sua estranheza acaba se tornando eficaz por se tornar uma expressão “miraculosa”, ou, se preferir, “carregada de magia”, poderosa e perigosa. De certa forma, “abracadabra” acaba tendo uma própria virtude.
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto: Reprodução / Foto de Сиреневый Мыш / via Pinterest / modifica por IA.