19 de outubro de 2026
Certa vez eu conheci um educador. Um funcionário público que trabalhava na escola. Uma pessoa que zelava pela educação. O mais curioso era a função dele: “ele estava lá para responder perguntas”. Quando perguntávamos qual era a profissão dele, essa era a sua resposta: “estou aqui para responder às suas perguntas, caso eu saiba responder”. Aquilo era curioso ao mesmo tempo que era fantástico. Era fascinante ao mesmo tempo questionador. Era esplêndido na mesma medida em que era confuso. Incrível, na mesma proporção que era estranho. Mas ele estava sempre ali. Ocupava uma das salas do andar da diretoria, mas não era o diretor. Estava sempre presente na sala dos professores, mas não lecionava nenhuma disciplina. Tinha cadeira e voz nas reuniões, mas não coordenava a pauta.
Eu aprendi a ler e a escrever em casa. Minha mãe foi (e ainda é até hoje) minha primeira professora. Mesmo dentro das condições em que ela se encontra hoje e com as limitações que aprendeu a lidar, ela ainda me ensina muito. Me educa só com sua presença e teimosia. Eu me encantei com as letras, me apaixonei com as palavras e construí uma relação sobrenatural com as frases. A leitura me apresentou um mundo fabuloso. Um universo incrível que exploro até hoje. Logo em seguida veio a escrita e percebi que nela eu podia criar os meus mundos... ainda criança sonhava com o meu livro sendo apresentado para os leitores contendo o meu mundo e minhas histórias.
Minha mãe foi uma educadora aplicada e firme: “não quero saber de letra feia. Garranchos nos cadernos e nem livros e materiais escolares malcuidados”. “Filho meu”, ela dizia, “não vai ter letra feia”.
Então fiz caligrafia. E posso lhe dizer que nem precisei de muita, porque eu tinha ótimas motivações. Sempre gostei de escrever. E até hoje devoro os livros com respeito e devoção. Lembro-me até hoje da primeira literatura que eu li: “O Jardim Secreto” da Frances Hodgson Burnett, publicado em 1911. Depois fui apresentado a algumas versões resumidas de William Shakespeare: eu li “Macbeth”, “Otelo”, “Romeu e Julieta”... isso tudo ainda na fase do Ensino Fundamental, antes de chegar à quarta série (na época). Nunca li livros infantis. Aqueles clássicos que toda criança se encanta, nunca me encantaram. Gostava de histórias maiores, por isso que fui direto a estes livros “adultos”.
A única falha que destaco foi a ausência da literatura brasileira neste processo. Conheci os clássicos literários do nosso país muito mais tarde. E tive resistência em acolhê-los, mas venci e hoje conheço Machado de Assis, José de Alencar, Raquel de Queiroz, Cecília Meireles, Fernando Veríssimo... Na juventude eu conheci a literatura de Agatha Christie e o gênero dos romances de drama e criminais. Dos mais de 80 livros dela eu já li uns 50, e todos durante a juventude. Conheci Robin Cook, thriller médico como “A Invasão”, “Coma” e “Mutação”.
Depois de minha mãe, a vida me presenteou com outros profissionais da educação que fizeram o que podiam para continuar alimentando em minha alma o prazer da leitura e da escrita. Graças à escola, aos meus professores, à faculdade que tive a chance de cursar, hoje, abrir mão da educação básica para mim não é uma opção. Na verdade, a considero um crime violento contra tantos jovens que serão privados da chance de conhecer mundos e abrir-se a novas possibilidades de crescimento e amadurecimento. Lembra daquele profissional que mencionei no primeiro parágrafo? Pois bem, mais tarde descobri que ele é uma espécie de mentor educacional. Ele está sempre ali presente e disponível para quem precisar de conselhos, respostas, mentorias, orientações ou simplesmente para conversar.
Conheci este profissional na fase do Ensino Médio, e as poucas vezes que recorri a ele, consegui traçar um projeto de vida para o meu futuro e meus estudos. Nos tempos atuais, que nossas escolhas continuem valorizando esses profissionais, homens e mulheres que fazem da sala de aula, da escola, da quadra de esportes, da faculdade uma extensão da própria vida. Estas pessoas dedicam mais da metade da vida para educar os outros, transmitir conhecimentos e tentar serem pelo menos um pouco de luz na vida de cada um.
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto: Reprodução / Foto de Kriangsak Koopattanakij / via iStock.