12 Oct
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12 de outubro de 2026 




É com um certo medo que estas palavras se concretizam nos pixels da tela. Nossa consciência, ou pelo menos a minha, não é forte o bastante para suportar este sistema de vigilância constante e os julgamentos de todos, a todo instante, a respeito das próprias ideias, do que pensa e da crença que segue. Até quando somos fortes o bastante para suportar todos estes julgamentos e continuar seguindo ilesos? Até quando a nossa cabeça dará conta de processar e filtrar todo tipo de vigilância digital e acordar dia após dia, como se nada foi dito a meu respeito, e entre o que foi dito, não ter me afetado? 

Em menos de 24 horas, mais de 500 seguidores saíram do meu Instagram. E que bom que se foram, porém, por outro lado, a bolha do insociável, do intolerável, do incomunicável, do acrítico, do não-reflexivo só vai inchando cada vez mais. Este é o verdadeiro termômetro de que o diálogo entre mais da metade dos brasileiros não é mais algo suportável. Ou você concorda, ou está fora! Dialogar não parece ser mais uma opção. Consciência objetiva, memória histórica e conhecimento amplo, transcendente e claro da realidade é algo que molda nosso caráter e constrói nossa identidade. E, infelizmente, caráter e identidade tem nos faltado. Há anos a sociedade vem se moldando numa cultura desumanizada e intolerante. 

Chegamos num ponto em que a omissão não parece ser uma opção segura e viável. Na mesma medida, pronunciar-se também é um risco, inclusive de vida. Porém, todo aquele que se omite acaba tornando-se cúmplice do que quer que aconteça ou do que quer que se instaure daqui para frente. Omitir também não é uma opção! É assombroso ter que assistir de braços cruzados pessoas conhecidas nossas, as vezes nossos parentes, colegas de faculdade, companheiros de trabalho, aquele e aquela com quem dividimos o teto e a cama, patentear discursos que vão contra nossa moral, ética, democracia, nossos relacionamentos... Atacam até a própria fé! Corroborar com projetos que fedem à homofobia, ao preconceito, machismo, violência, ódio, transfobia, intolerância religiosa, descaso com o meio ambiente é tornar-se torturador, ditador, opressor, imperador, dono de tudo e de todos. 

Estamos atravessando o furacão da apolítica. Um triste pedaço da história em que o desinteresse pelo natural, pelo coletivo, pelo social, pelo público reina nestes discursos vazios e pobres de consciência crítica e de argumentos sólidos. Realmente, por mais que tentemos negar, nem todo Pokémon evolui! Estamos lidando com pessoas que lutam pelo seu direito pessoal, doa a quem doer. E antes disso ir para as urnas, reflete-se na vivência familiar, na lida do dia e na convivência do trabalho. A política perde conteúdo, relevância e interesse porque se afasta das pessoas e passa a servir a um pequeno grupo de monstros desumanos que servem a si mesmos com um falso discurso de querer restaurar uma dignidade fajuta que não corresponde ao interesse de todos e de todas. Destruir o coletivo é destruir relações que demoramos décadas para consolidar. 

Todo aquele que se sente ameaçado pelos direitos de cada cidadão; que ameaça derrubar uma Constituição Nacional com quase 40 anos de história; que fala alto e em bom tom que a mulher é submissa e que nunca deve falar sem a permissão do homem; que a força militar é a única força possível contra a violência; que o ensino não é ferramenta de transformação; que a arte é invenção de preguiçoso; que o pobre só vai estudar se tiver condições de pagar; que quem nasce trabalhador vai morrer trabalhador; e que a imposição cívico-militar é o único diálogo possível... não se engane... esse tipo de pessoa nunca lutará do seu lado. Ele fará de tudo para que você lute por ele e ainda se ajoelhe para que ele pise em suas costas para amarrar os sapatos. E ainda te chuta depois enquanto você, machucado, ainda o aplaude. 

Sinto-me como se estivéssemos vendendo a nossa alma ao diabo, e, em troca, abrindo os portões do inferno, libertando antigos demônios, alguns que, inclusive, havíamos prendido lá, a fim de instaurar uma sociedade de paz e mais digna para todos e todas. E sabe o que é ainda pior do que isso: vendemos a troco de poucas moedas que foram jogadas no chão frio só para que sentissem o gostinho de nos ver ajoelhados à cata de poucos trocados. Mas, parece que quem está neste caminho, preferiu vendar os próprios olhos, ou andar com antolhos do lado das vistas, como cavalos que, para não se distraírem, só olham para frente. O problema é que quando decidimos não olhar para os lados, não percebemos a destruição que estamos deixando para trás. Não ter uma visão ampla e horizontal da vida pode nos reduzir a um futuro periférico, recluso e falso, porque o que estava na frente era só a beleza e o agradável, mas, falso e desonroso. 

Bem-vindos, apolíticos a uma nova era! A era dos grandes e poderosos, dos ricos e afortunados, dos opressores e dos reis, dos homens e de seus filhos que se dizem homens... Era onde não é preciso gastar tempo com livros, com estudos e nem com a faculdade. Já nasceram sabendo de tudo. E armados! 






Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: Reprodução / Foto de Joédson Alves – Agência Brasil / via National Geographic.

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