05 de outubro de 2026
A prática descontraída que consiste em presentear quem não conhece é algo estranho e um pouco sem sentido. Mesmo assim, é uma brincadeira que busca evoluir com o passar dos anos. Cada geração inventa uma novidade para que o “amigo oculto” encontre uma nova essência e conquiste a atenção dos participantes.
As regras das brincadeiras são diversas: tem os que põe limites nos preços dos presentes; tem os que presenteiam por temas – por exemplo, havaianas, canecas personalizadas, só chocolates –; tem os que obrigam em quais lojas você deve ir em busca do presente; tem os que limitam até os itens... No fim das contas o amigo deixa de ser amigo e o que se torna oculto é o presente que acaba sendo mais importante do que quem vai ganha-lo. “Amigo” é a última coisa que a brincadeira tenta sustentar e tudo se torna apenas uma brincadeira que perde a graça rapidamente e a reunião vira uma confraternização que não foi programada.
Hoje, nas festas, o bolo é de enfeite para as fotos. E quando não é, ele é apenas um coopcake com uma vela pequena e que só o aniversariante participa daquela celebração reduzida a um desejo que só ele pode fazer e conhecer. As relações acabam se tornando simbólicas, irrelevantes, irreais e o que importa mesmo é se reunir com quem quer que seja, festejar, beber, curtir e comer. Não há amizade verdadeira e nem vínculos sinceros.
As amizades desaparecem na medida em que as festas aumentam. Isso parece contraditório, não é mesmo? Mas, percebe-se que os bolos também diminuem, a comida desaparece e que as mesas de restaurantes deixam de se juntar, porque cada convidado que aceitar ir à sua festa deverá bancar o que come e o que bebe. Parece um amigo oculto em que só o oculto é o que importa, já os amigos... se tiver... está tudo certo. No final da noite, a amizade vira comanda na mão do garçom: ou seja, ou você abre a carteira, ou vai pra cozinha lavar prato porque nem conhecer o aniversariante você conhece.
As pessoas de hoje não sabem mais o que é ser amigo. Sou de um tempo em que para nós, só vale a pena aquelas amizades de alto nível. Não temos mais paciência para amigos de baixo nível. Amigos de alto nível são aqueles que sabem a hora de procurar, ligam só quando é urgente e não “entopem” a consciência do outro. Amigos de alto nível falam pouco e vivem mais, chora junto quando o choro é verdadeiro, briga por coisa grande e consegue rir das desgraças dele. Amigos de alto nível não passam meses sem procurar saber de você. Essa história de que vocês passaram seis meses sem conversar e que quando se viram é como se “fosse ontem”, não caiam nessa. Isso não é amizade. É conveniência! Enquanto é conveniente para mim, em determinado ambiente, é tolerável. Amigos de alto nível se preocupam, sim. Amigos de alto nível não enchem o whatsapp de conversas desnecessárias, mas mostram que estão ali. Amigos de alto nível te procura e te deixa em paz na mesma medida.
Já os amigos de baixo nível perturbam demais, falam demais, não aprenderam a escutar o outro, não sabem nivelar as preocupações e tem sentimentos egoístas. Amigos de baixo nível liga fora de hora, ignora mensagens e não consegue se preocupar com o outro. Amigos de baixo nível sempre se colocam na pior, escuta seus lamentos, mas desvia a atenção para as dores dele próprio. Amigos de baixo nível é sempre a vítima da relação e sempre está em busca de atenção e de holofotes. Amigos de baixo nível não é amigo, é o peso que você carrega. Se não tiver, é um problema a menos pra se preocupar.
Os “amigos ocultos” das brincadeiras de outrora precisam perder o lugar e dar espaço para as amizades que se revelam numa bacia de pipoca, num suco de laranja sem açúcar, numa caneca de café amargo e, talvez, numa Coca-Cola bem gelada com gelo e limão. Isso é elite! Isso é ouro puro, diamante lapidado, moda de alta costura. Quem tem algo assim, qualquer viagem, qualquer perrengue e qualquer luta vira uma aventura que nos entretém em nossa vida. Se você tem números e nomes em seu whatsapp que há meses não procura, não se preocupe, estes não são seus amigos e nem você é deles, são apenas contatos de conveniência.
As vezes o coração humano se cansa de perdoar. Chega num ponto se ruptura, infarta e decide não funcionar mais. O perigo passa a residir dentro dele. O mal, a doença, a finitude. A amizade não pede licença; não se desculpa. Ela se permite. A amizade só se dá na liberdade e na confiança. Amigo que é amigo não pergunta se pode, ele simplesmente vai e faz. Onde há amizade vai haver amor. Mas o amor não é possível se não for amigo. Antes de amar, a gente estabelece alguns vínculos que asseguram que o caminho será verdadeiro, seguro, honesto e humano.
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto: Reprodução / Foto de Paul Uchechukwu / via pexels.