14 de setembro de 2026
Quando eu me for, fique com meus bens.
Há sobre a minha mesa todo tipo de tecnologia. Desde uma Alexa que não me compreende muito bem; um notebook que guarda minhas mais sutis memórias; um celular que me fez perder bastante tempo na vida e uma impressora que ainda funciona quando tenho vontade de voltar nos tempos de outrora e sentir o cheiro de um papel com letras digitadas. Mas o meu maior bem está na estante ao lado: nela há mundos que tive a alegria de poder visitar. Páginas e mais páginas de conhecimento, cultura, aprendizado e personagens incríveis que muito me ensinaram. Fique com tudo! Zele, não pelos objetos que encontrar, mas pelas memórias que puder tocar e perceber a vida incrível que eu pude ter. Que alguns me deixaram viver. Que outros me deram a permissão de experimentar. E por oportunidades que eu soube abraçar.
Quando eu me for, doe meus bens.
Isso mesmo! Talvez você não vá saber o que fazer com tanta coisa; talvez as muitas histórias sejam demais pra você ou a pilha de aventuras ali arquivadas possam te assustar um pouco. No guarda-roupa, talvez não encontre muita coisa na moda, o preto ali se destaca. Mas você encontrará uma vida muito feliz e bem realizada. Doar memórias, partilhar aventuras, poder compartilhar de experiências marcantes é uma forma de manter vivo um passado que muito fez bem para alguém. Revivê-lo é nostálgico, é respeitoso, é belo, é sagrado. Não faça de meus bens algo objetificado, mas deixe-os terem vida pelas mãos vivas de quem realmente se importa e se valerá disso para sorrir mais uma vez.
Quando eu me for, cuide de meus bens.
Não deixe que o mofo do esquecimento penetre nas linhas do tempo. Não deixe que o ácaro e a traça se alimente de uma memória que tanto lutou pra ser preservada. Não deixe que a água e a umidade apaguem os escritos e as lembranças. Falta-nos tanto o espírito do cuidado. E as vezes nem é sobre cuidar de alguém, mas cuidar de si mesmo. Falta-nos o carinho com a própria história, com a rotina, com uma leveza pessoal que só é possível a partir de uma autovalorização. Amar e cuidar de si mesmo. Amar e cuidar da própria história. Amar e se permitir ser amado e amada. A traça, o ácaro, o mofo não destroem só os nossos bens, os objetos, as coisas, eles podem apagar nosso desejo de ser mais, nosso sonho de ser alguém que valha a pena ser lembrado, nossa oportunidade de ser uma pessoa que viveu feliz.
Quando eu me for, catalogue os meus bens em testamento.
Ah, sim, uma vida boa necessita de organização. O documento e a assinatura não nos salvam de tudo, mas dão certa garantia em algumas situações. Talvez não precise tanto de normas e regras, rubricas e leis, mas de respeito, organização, planejamento, cuidado, limites, aventuras, e de certas permissões que você mesmo pode se dar. Tem dias que a gente quer “enfiar o pé na jaca”; “furar a dieta”; “extrapolar os limites”; “avançar um pouco mais no horário natural”; e, ver até onde esse nosso corpo humano consegue ir sem surtar. E está tudo bem! Porque planejamos, não nos preparamos para isso, mas nosso inconsciente estava preparado para seu surto, para o dia de seus devaneios e de seus momentos de loucura ou, se quiser uma palavra melhor, aquele dia em que você resolveu se amar, e cuidar de si.
Quando eu me for, guarde os meus bens.
Eles me fizeram bem um dia. Algumas coisas me fizeram bem a vida toda. A amizade, o pouco amor que tive e que conquistei. O conhecimento que adquiri... guarde-os bem, mas não os tranque. Deixe-os livre para inspirar, para questionar, para provocar outros. O que conquistamos, estes castelos que erguemos podem abrigar muitos outros. Não são protegidos por dragões e nem há lá dentro uma princesa presa sob algum encantamento. Mas as portas são destrancadas, e o palácio é digno de qualquer pessoa. Meus bens não estão presos em diplomas, cédulas de valor, números bancários, tecnologias automotivas. Estão guardados nas páginas escritas pela própria vida. Estão tatuados no próprio estilo de vida que construímos.
Para vivermos certos momentos, não fique esperando o amanhã. Não fique prometendo encontros. Não fique verificando agendas. Para se encontrar com quem temos apreço, não precisamos agendar como se fosse um compromisso de trabalho. Vá! Simplesmente, vá... para que depois você não tenha que lidar com os bens objetificáveis, porque não teve tempo para lidar com o bem maior: a pessoa, o amigo, aquele de quem se importava.
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto: Reprodução / Foto de Timur Minovarov / via Pexels.