24 Aug
24Aug
24 de agosto de 2026 



A vida é uma correria, não é mesmo? Quando criança a gente, antes de dar o primeiro passo, engatinhamos apressados pelo chão da casa. Quando começamos a andar, já queremos correr com o cachorro no quintal. Na adolescência corremos da bronca da mãe e no carro pedimos pro papai pra acelerar em prol daquela aventura. Na juventude corremos atrás do ônibus da escola pra não perder aula. Na vida adulta corremos dos boletos e corremos atrás de emprego. Na mesma fase, tomados de tédio, começamos a correr das pessoas. Como se não bastasse, agora chegamos na fase das corridas saudáveis e maratonas municipais e, passamos a correr atrás de medalhas querendo se provar que tomou um novo rumo na vida. 

Vivemos correndo. Vivemos cansados de correr. Corremos cansados alimentando a crença de que a adrenalina valerá a pena. Passamos a maior parte da vida perdendo tempo com certas futilidades e, depois de gente grande começamos a correr atrás do tempo que se perdeu no passado. Nem sempre a velocidade é amiga da perfeição ou sinônimo de vitória. As vezes ela pode ser uma armadilha cruel que nos faz gastar tempo sem que tenhamos tempo favorável para o próprio tempo que nos é natural. 

Chegar lá no final inteiro é o objetivo ideal. Contudo, estamos chegando cansados, fragilizados, fragmentados porque, na correria do dia, não nos damos conta do que abrimos mão e dos pedaços que deixamos pelo caminho. Tem gente que ainda tenta voltar para recolher os cacos. Contudo, muita coisa aconteceu: tem gente que pisoteou, veio a chuva e te deixou desbotado, o sol esturricante ressecou a fronte... Teve quem cuidou do seu pedaço com boa fé, mas teve quem não se importou com o que você deixou de si mesmo, mas, mesmo assim, você aceitou os cacos do jeito que os encontrou. 

Terminamos incompletos, incompreendidos e, como se não bastasse, chegamos tendo que ouvir reclamações, cobranças e enfrentar perseguições desleais de quem não caminhou conosco, mas que quer participar da mesma vitória, subir mesmo pódio e exigir uma medalha de ouro. Vivemos na era da impaciência. A geração é marcada pela falta de permanência. E nós nos afogamos no grande abismo da imanência. Perdemos a capacidade da contemplação e tudo aquilo que exige um pouco mais de tempo desafia a frágil maturação que temos. Até o estalar dos dedos é demasiado demorado para nós. Desafiamos o sistema, ignoramos os processos e questionamos o que não compreendemos, porque não temos tempo para sentar-se, ler, estudar e compreender. 

Existem elementos vitais que são para nossa subsistência, inegociáveis. Estamos jogando o ouro aos porcos e vivendo com o lodo que decanta no fundo da bateia. Estamos negociando, em troca de poucas moedas, nossa liberdade, a chance do conhecimento, a justiça, a comunidade e até ingredientes de nossa intimidade. O inegociável é o que não tem preço! Se abrirmos mão, não teremos mais nada a nos agarrar ou a nos identificar. Há aqueles, hoje, que não gozam mais da alegria de pronunciar nem mesmo o próprio nome, porque negociado, não é mais próprio. Mas, propriedade de outrem. 

Há famílias que negociam a educação dos filhos: “vendem” a responsabilidade para os aparelhos eletrônicos e os celulares assumem o papel da paternidade/maternidade. Há jovens que negociam o direito de estudar, cursar uma faculdade, conquistar um diploma e se entregam ao mercado de apostas e vendem até a alma para o tigrinho: reféns de uma crise financeira que lhes tira a dignidade. Há mulheres que negociam o próprio corpo natural, prostituem-se com medicamentos, drogas, canetas emagrecedoras, a fim de conquistar algo que pode ser bonito e desejável, mas não é belo e nem tão pouco verdadeiro. 

Negociamos o belo, o verdadeiro e o bom e, na correria da vida, contentamo-nos com o supérfluo, o falso e as migalhas que aceitamos para sobreviver. 





Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: Reprodução / Foto de Fehim Hur / via Pexels.

Comentários
* O e-mail não será publicado no site.