03 de agosto de 2026
Sozinho, ocupando uma mesa de 4 lugares para o café da manhã, pão fresco e manteiga, café puro e sem açúcar e alguns pedaços de melão, analiso o ambiente. Nada extraordinário: o clima está frio, o lugar, barulhento, conforme o trivial do cotidiano. O café na xícara esfria enquanto o feed do Instagram entretém além do que ele deveria, ou, de que eu deveria me interessar.
Alguns especialistas vão dizer que sou um retrato social comum, mas anormal e doentio da atualidade. O hiperfoco de se viver sozinho, sem companhia, sem recorrer às presenças amigáveis ou, pelo menos, algum conhecido para ocupar a mesa do café da manhã. Enquanto isso, outros clientes chegam à cafeteira e ninguém se atreve a se aproximar de um desconhecido, de cara fechada e perguntar se tem permissão para ocupar a outra cadeira.
Talvez isso explique um pouco o que me chamou a atenção enquanto rolava o feed do Instagram e o café esfriava (tive que pedir outro depois):
Um jovem, que aparenta ter uns 20 a 25 anos, publicou um “Desconvite”, pedindo encarecidamente, que seus amigos e conhecidos e, até mesmo, outros familiares, não comparecessem em sua festa de aniversário. Logo depois veio o motivo. No post estava escrito: “tenho 4 CIDs, entre eles o da ansiedade, além de uma doença alérgica provocada emocionalmente e a hipertensão (hipertenso aos 20 e poucos anos)”. O jovem (que prefiro não revelar o nome), se justifica que não consegue “administrar” uma aglomeração de pessoas, mesmo que sejam seus conhecidos. Por isso, opta por celebrar seu aniversário com os familiares próximos, sem tumulto, sem barulho, sem muita comida, muita bebida, sem muita gente na qual ele precisaria conviver. A convivência, para ele, é um exercício pesado demais, pois afetaria o seu diagnóstico.
Enquanto reclamo do café frio, fico pensando nesses diagnósticos “estranhos”, mas, infelizmente muito comuns na sociedade atual, e, o mais preocupante: revelam-se cedo demais. Jovens e até adolescentes que já apresentam estes sinais entre nós. Adolescentes com altas doses de medicação contra diagnósticos como a depressão, ansiedade aguda, entre outros...
Byung-Chul Han, em “A Expulsão do Outro” defende que estamos construindo uma sociedade da “cultura do igual”, onde desaparece do nosso horizonte o outro. Não queremos mais o outro; não precisamos mais do outro; não queremos saber do outro. Nada de comunidade, nada de relação... Se, por acaso, o outro existir, ele existirá para me servir, assim, o outro se torna reflexo de mim mesmo, meu igual.
Há dois dias eu também celebrei o meu aniversário. 37 anos, também hipertenso, com algumas crises alérgicas, mas, até onde sei, nenhum CID diagnosticado. Mas perpetua entre meus pensamentos também esse desejo da solidão, da paz, do silêncio, da tranquilidade de uma xícara de café quente numa mesa ocupada apenas por mim mesmo.
Mas, ainda assim, sou alguém que acredita e defende o valor de se viver em comunidade. É um esforço humano e fraterno que nos educa e nos molda como pessoas de bem e abertas à fraternidade e ao outro. Se desaparecer de nossas vidas o valor do outro, desaparecerá de nós qualquer sentimento de amor, de amizade... se desaparecer o outro do nosso horizonte, desaparecerá a vocação e a nossa humanidade e não haverá um porquê para que a vida insista em sua existência.
As nossas faculdades mentais estão fragilizadas. Precisamos fortalecer nossa consciência, trabalhar nossas capacidades cognitivas e cuidar da nossa saúde, bem-estar, lazer e até do prazer. O post do jovem revela uma realidade muito cruel: ele precisa se isolar para não adoecer ainda mais, ou prefere se isolar para que sua doença não o vitimize diante dos seus conhecidos. Não o julgo. É a resposta plausível que ele encontrou para se autopreservar. Mas, o caminho mais seguro é a gente se cuidar para que não nos tornemos mais um alguém que recorra às mesmas soluções que este jovem. O isolamento não é a cura, mas uma droga disfarçada de autopiedade!
Por: Dione Afonso, jornalista.
Foto: Reprodução / Imagem de Polat Eyyüp Albayrak / via Pexels.