20 de julho de 2026
“Se você topar com algum brasileiro que esteja torcendo pela Argentina na final desta Copa, fique esperto, pois este ser não é uma pessoa de confiança, não é alguém seguro e deve-se desconfiar até mesmo se ele é, de fato, brasileiro”. É muito perceptível que 90% dos torcedores brasileiros, estão torcendo pela vitória da Espanha, mais pela repulsa à Argentina, do que pela paixão pelo futebol e pelo espírito sincero de torcedor. Há no coração do brasileiro, apaixonado pelo Futebol, um ranço argentino que é a própria definição de que nem tudo fica só nos campos.
Uma expressão que já havia viralizado há algumas semanas, voltou com mais força depois que a semifinal da Copa do Mundo de 2026 foi sendo definida consolidando os argentinos para a final. O meme “não dê nem água”, que viralizou nas Redes Sociais, especificamente no TikTok e no Instagram começou a ser usada em indiretas de ex-namoradas revoltadas com os seus relacionamentos. Ao expor a foto do parceiro ou da parceira, a legenda “não dê nem água” indicava que aquele ser era indigno de sua ajuda, atenção ou apoio. É uma maneira de informar que alguém não presta e que ninguém deveria ser cordial com ele.
De certa forma, é fabuloso a maneira como que certas expressões chegam no vocabulário cotidiano das pessoas e, de repente, elas “viralizam” e ganham as conversas no mundo todo. “Não dê nem água” chamou a nossa atenção quando empresas, serviços de streaming e outras propagandas publicitárias resolveram “entrar na onda viral” e passaram a usar a expressão com o intuito de inovar as táticas de marketing. O meme significa uma recusa absoluta em ajudar, colaborar ou até mesmo interagir com alguém. Ele é usado de forma humorística na internet para expressar raiva, mágoa ou “ranço” de uma pessoa, um personagem fictício ou até um ex-parceiro.
Da mesma forma que o fato viral é algo que nos surpreende, também é preocupante a mensagem que ela nos transmite. Não demorou muito, e na prorrogação da Copa do Mundo, disputada pela Argentina e a Espanha, e concedendo a vitória aos espanhóis, que levantam a taça da Copa do Mundo pela segunda vez, o meme novamente voltou a viralizar sendo usada contra os argentinos. Sobretudo, por nós, brasileiros, que enchemos as nossas contas nas Redes Sociais “informando” a todos para não dar nenhum tipo de atenção a quem se declarar argentino ou simpatizante deles.
A questão aqui não é o fato de algo viralizar, mas é o fato de que o conteúdo viral não possui uma mensagem correta, ética, humanizada e que sustenta laços fraternos. O recado é quase que uma daquelas mensagens de “cuidado”, “atenção”, colocando o torcedor argentino, o jogador da Argentina e todos os argentinos fossem um vírus contagioso, uma ameaça contra a vida e que nós devêssemos nos afastar. “Não dê nem água”, por exemplo, só confirma o que nós temos de pior: o ódio, o racismo, a xenofobia, a raiva e o preconceito.
Por exemplo: por que que nós, brasileiros, preferimos torcer por um time europeu a nos unir enquanto latino-americanos e torcer pela vitória Argentina? A resposta não é tão simples assim, pois une questões que ultrapassam os limites do gramado verde do campo. Primeiro há um histórico geopolítico marcado pelas guerras por domínio de território. Depois vem a questão religiosa que buscava supremacia de uns em detrimento de outros. E, claro, os casos preconceituosos de racismo que invadiram o esporte futebolístico, sobretudo nos embates entre Maradona e Pelé.
Será que os argentinos odeiam tanto assim os brasileiros ou isso foi mais fruto de uma imprensa direcionada e imparcial? Será que nós brasileiros temos, realmente, este ódio todo contra os argentinos? Será que nunca iremos conseguir perdoar os ataques racistas que nossos jogadores sofreram em campo (e ainda sofrem)? Há quem diga que vencer uma Copa é algo bom, mas vencer uma Copa contra os Argentinos é uma alegria que ultrapassa qualquer outro sentimento. O que eu digo é que o esporte precisa recuperar o seu espírito de respeito pelas nações, suas culturas, pessoas e opiniões. E que a bola que rola em campo possa ser tocada entre nós, fora do campo, em sinal de unidade, alegria e boas relações.
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto: Reprodução / SporTV / via Instagram.