05 Jan
05Jan
05 de janeiro de 2026 


Este é o primeiro “segundou” do ano. Ainda me surpreendo com a capacidade linguística em transformar substantivos clássicos em ações verbais. É criativo na mesma proporção em que é estranho e “feio”. “Segundar”; “sabadar”; “sextar”... “esperançar” e alguns outros que vão surgindo dependendo das necessidades do nosso contemporâneo vocabulário. 

Quando revisito os clássicos – algo que tenho feito com mais frequência – não posso dizer que acabo me apaixonando com o nosso português de outrora. O que uns chamam de antigo ou arcaico, eu chamo de histórico, apaixonante e requintado. Reler um Machado de Assis, revisitar as loucuras de Clarice Lispector e se emocionar com Raquel de Queiroz é sempre um dom que temos e que não podemos desperdiçar. Viajar com Júlio Verne ou enlouquecer com Franz Kafka é sempre uma boa pedida. 

Poder ler páginas que foram redigidas há 400 anos é uma inteligência surpreendente. Nenhuma tecnologia, nem mesma a IA é capaz de superar este dado histórico e literário. William Shakespeare produziu em 1623 uma das tragédias de amor mais bem escritas de todos os tempos: Hamlet, um príncipe da Dinamarca que ao embarcar numa história de ódio e vingança, questiona sobre a vida, o amor, a moralidade e o próprio futuro. 

O filho mata o próprio pai, toma o trono e se une em matrimônio com a mãe de seu irmão. O reino que surge a partir daí é recheado de intrigas, corrupção e luxúria. A obra é um grande ensaio sobre a existência humana e os valores essenciais que regem a ética e o que decidimos como lei para a própria vida. 400 anos depois, a artista norte-americana Taylor Swift busca na obra shakespeareana inspiração para seu novo hit: The Fate of Ophelia. Ofélia, casada com Hamlet se destaca por sua beleza e doçura. Na peça trágica ela é descrita como uma mulher amável, submissa, obediente e manipulada por todos ao seu redor, em nome do amor. 

Esta “Sina de Ofélia”, que toma as paradas musicais nas últimas semanas de 2025 busca inspiração numa figura feminina frágil dentro de um sistema patriarcal violento. Ela sacrifica seus desejos e sonhos porque decide ser obediente ao homem de sua vida. Sua identidade é descrita pelas vozes masculinas da história. Ela não fala por si. Swift retoma a figura da peça de Shakespeare, ao contrário do que a obra original propõe, a cantora altera o rumo da história e corrige o valor: o amor não é sua derrota, mas é o que a salva da loucura e da morte. 

Claro que a peça de Shakespeare vai maIs longe: Ofélia tem uma morte trágica não porque só amou demais, mas porque foi vítima de uma estrutura machista e violenta. Ofélia fez do amor que sentia sua “sina”, sua prisão, sua derrota. Em contrapartida, a música de Swift transforma aquele amor em algo bom e salvador. 

Neste primeiro “segundou” do ano é inevitável que muitos de nós estejamos prostrados em nosso sofá tentando decidir o que será deste novo ano. Se vamos continuar aquela rotina de sempre, entre uma tortura e outra, ferindo o que sentimos em nome de uma promoção ou de reconhecimento no mercado, ou se vamos abandonar esta “sina de Ofélia” e ressignificar o que sentimos, dando um novo rumo ao nosso futuro. Não é porque nós gostamos de revisitar os clássicos que a nossa vida atual precisa se tornar uma tragédia, não é mesmo?! Não precisamos ser as “Ofélias” de hoje! E nem muito menos, dar vida a elas... 




Texto de: Dione Afonso, jornalista.


Foto: Quadro de John Everett Millais [1852]: retrata uma cena de “Hamlet”, de Shakespeare, na qual Ofélia se afoga num riacho após perder a razão. Créditos: The Print Collector / via Getty Images.

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