06 Jul
06Jul
06 de julho de 2026 



Há algumas semanas o Instagram me intrigou com uma nova atualização. Toda vez que acesso a plataforma para verificar o feed, depois de arrastar a tela, e ver de 15 a 20 atualizações, aparece a seguinte mensagem: “que tal fazer uma pausa? Pare um momento e considere fazer uma pausa” e, logo abaixo aparece o botão: “carregar mais posts”. Confesso que na primeira vez que isso apareceu eu ignorei o recado. Depois da terceira vez que isto surgiu foi que decidi parar para refletir a respeito. 

A tentação de clicar em “carregar mais posts” é mais forte do que tomar a decisão de fechar o aplicativo, deixar de lado o celular e seguir com a atividade que estava realizando antes de se perder nas notícias, memes e nas fofocas que a rede social insiste em nos manter atualizados. Confesso que a rede social está empenhada em oferecer bem-estar durante o uso no aplicativo. De acordo com a Meta, a própria rede emite o alerta quando percebe que o usuário está passando mais tempo conectado do que o costume. 

Para diminuir os efeitos negativos que o uso demasiado de internet nos afeta, ainda há um longo caminho a percorrer. Esta não é a primeira atualização recente da própria rede social que faz parte deste rol de “boas ações”. O trabalho algorítmico continua sendo cruel quando o objetivo é prender a nossa atenção. Desde a influenciadores que alimentam as redes de minuto a minuto até a posts convidativos e chamativos, é fácil a gente perder a noção do tempo. Portanto, a função “take a break”, do inglês havia sido testada nos EUA, Canadá, Reino Unido e Austrália e depois sendo estendida aos outros países. No Brasil, ela vai sendo liberada aos poucos. Alguns já devem conhecer esta atualização há mais tempo, outros, receberam ela em seus aparelhos recentemente. 

Com intervalo de 10 a 30 minutos – que é definido pelo usuário – a Rede Social assume a tarefa de enviar este lembrete ao usuário quando ele exceder este tempo “saudável” de conexão com a rede. Além desta, entre outras atualizações, é sempre oportuno não ignora-las, como eu fiz de imediato. Fico imaginando até em que ponto a nossa consciência aguentaria ser vigiada a todo instante, o tempo todo, todo minuto e receber avaliações, curtidas e comentários qualitativos. Ter boas intenções não é o bastante para nos considerar pessoas de bons atos. As intenções precisam estar acompanhadas de atitudes. E tais atos não são tão presentes assim nos perfis digitais que nos seguem. Portanto, “fazer uma pausa” pode salvar nossa consciência dessa podridão que veicula a cada atualizar do feed

Dizem que o psicólogo é a profissão do século: e, parar para ouvir tem se tornado cada vez mais caro e souvenir de luxo. Por que que hoje se cobra tanto para ouvir, mas a fala é gratuita, sem controle, abundante e as vezes sem foco? Deixo aqui um alerta e um pedido de socorro: precisamos voltar a ler. Isso é sério! Compre livros, baixe e-books, voltem a ter o hábito da leitura, pois parece que nós estamos vivendo um cenário em que a ignorância (a burrice) é coletiva. Como se fosse um vírus que está atingindo todos nós. Não se trata de falar o que pensa, mas, tem muita gente que sem pensar, fala e fala mal. E o pior, há os que seguem tais discursos. Sobra palavras enquanto falta compreensão. Sobra vozes enquanto se carece de silêncio e atenção. 

Por que a escuta é algo tão caro enquanto a fala é algo que se desperdiça aos montes? Por que falar é prático, fácil, atrativo e descontrolado e ouvir é pouco atrativo, chato e negligenciado? Ninguém para pra ouvir; assim como ninguém para pra falar. Nós esbravejamos, gritamos, ofendemos, perturbamos a sanidade mental dos outros e as redes sociais tornam-se palcos abertos e livres para isso. A cada dia que passa, vamos nos convencendo de que o inferno existe sim e ele não é nenhuma realidade paralela ou um lugar sobrenatural inalcançável. O inferno são as pessoas má intencionadas que nos rodeiam, espreitam-nos e nos destroem, seja com sua fala, seja com suas ações. 




Texto de: Dione Afonso  |  Jornalista.

Foto: Reprodução / via X.

Comentários
* O e-mail não será publicado no site.