22 de junho de 2026
Você já deve ter ouvido a expressão “o primeiro choro é livre”. Ou, sua forma mais resumida, “o choro é livre”. Contudo, talvez isso lhe tome por surpresa, mas, no ciclo da vida, o primeiro choro nunca é livre, pelo contrário, quando ele não ocorre “livremente” ele precisa ser provocado, induzido. Parte deste meu conhecimento dá-se a partir de um vídeo que foi compartilhado no X, de um grupo de médicos bastante criativos. Um deles, que desconheço o nome, pois a legenda não revelou, estava empreendendo uma forma nada convencional para que um recém-nascido pudesse chorar, logo que saiu do ventre de sua mãe. Sabemos que, neste caso, não chorar não é um sinal positivo.
O primeiro choro do bebê é crucial para determinarmos sua saúde, avaliar seu sistema respiratório, expandir os pulmões. O primeiro choro é responsável em abrir caminhos para que o oxigênio percorra todo o corpo da criança que acaba de ter seu primeiro contato com o mundo externo. É o choro que prepara a jornada de uma vida que está começando. É o choro que se torna o termômetro vital de uma vida humana. Portanto, se o primeiro choro não é livre, é sinal de que ali não há vida, não há oxigênio. Algo está errado. Há algo espirituoso nisso tudo, pois em algumas religiões existe algo que se chama conversão, quer dizer, mudança de rota, reflexão sobre os atos realizados e a iniciativa de assumir novas escolhas. E, só é possível a conversão diante de um processo difícil de autorreconhecimento que pode ser obtido pelo exercício do perdão, das lágrimas sinceras e de um gesto de comoção interna.
Sem lágrimas, dificilmente acreditaríamos que uma conversão, de fato aconteceu. Hoje, “o choro é livre” ganhou outras conotações e, muitas das vezes, elas nem estão fazendo referências à vida ou a boa a saúde. “O choro é livre” é ato de resistência, ato político, grito de arte e até mesmo sinal de irrelevância diante de certas atrocidades que nunca imaginaríamos que um ser humano fosse capaz de fazer. Entretanto, estamos testemunhando cenas em que o choro não tem sido livre, mas reprimido, abafado, sufocado por magnatas da observação invasiva da vida alheia. É como se não adiantasse mais chorar diante do mal, das derrotas, das injustiças ou diante do primeiro trilionário que o mundo está conhecendo: isso mesmo, Elon Reeve Musk agora tem uma conta bancária de 13 dígitos. Isso representa um número que poucos de nós somos capazes de pronunciar e menos ainda de imaginar o que ele representa.
Nascido sul-africano, filho de Errol Musk e neto de um veterano da Segunda Guerra Mundial, Elon Musk faz questão de esconder seu passado e assume sua decepção de não ter seu primeiro choro sendo ecoado entre os grandes prédios norte-americanos. Despreza, até hoje a própria família, chama o pai de “ser humano terrível”. Dono de uma mina de esmeraldas na Zâmbia, a família Musk se viu milionária “da noite para o dia”. O primeiro choro pode até não ter sido livre, mas se um dia as lágrimas ali rolaram, foi de satisfação.
Milionário aos 27 anos, bilionário aos 41, hoje com 54 anos, Elon Musk torna-se o primeiro trilionário do mundo, ele atingiu a marca quando sua empresa especializada em construções aeroespaciais e de comunicações avançadas chegou à Bolsa de Valores. “O choro é livre”, e muitos “choram” o feito do magnata. Não faz muito tempo e esta disputa mercadológica tinha um oponente que parecia se equiparar à força de Elon Musk: seu rival Mark Zuckerberg, atual dono da Meta. Atualmente, a plataforma reúne os aplicativos WhatsApp; Threads; Instagram e Facebook. Ela é considerada uma das cinco empresas mais avançadas em tecnologia e, também uma das mais valiosas do mundo.
Elon Musk é o retrato ideal de um ser humano poderoso, mas que não sabe o que faz com tanto poder. Tivemos uma prova disso quando ele não conseguiu seguir carreira ao lado de Donald Trump, quando recebeu do presidente dos EUA um Departamento para dirigir. Dois poderosos, ambiciosos, desumanos e controladores não conseguem ocupar o mesmo espaço e, ao competir poder contra poder, as forças não recuam. Portanto, Elon Musk, já havia tido igual experiência dentro da própria família, sai de cena e continuou a crescer em seu próprio universo, onde as únicas relações que ele consegue construir são as de submissão, ordem e controle. E aí? Será que hoje o choro ainda é livre?
Texto de: Dione Afonso | Jornalista.
Foto: Reprodução / via X / @Cointelegraph.