01 de junho de 2026
Recentemente o Instagram, uma das plataformas de interação social da Meta, lançou um novo recurso para sua rede social: o “instants”. Trata-se de um recurso que capta aquele segundo de dia, exatamente como você se encontra naquele exato momento. Focado em fotos espontâneas, sem filtros ou edições, basta abrir a câmera de seu celular e, após o “clic”, pronto! Você revela aquele segundo do seu dia sem precisar “fingir” aparência, estilo ou qualquer outro “filtro” que você está costumado a usar em sua imagem.
Diferente dos stories, recurso que fica no ar por 24 horas, os istants nem isso duram. De visualização única, as fotos publicadas desaparecem após serem abertas. É um clique rápido que não pode ser refeito. Após abrir, elas não aparecem mais para aquele seu seguidor que já o visualizou uma vez. Também não há interação nas fotos dos instants e não existe lista pública de visualizadores, quebrando assim, aquele “ranking” de número de views. As reações e respostas vão diretamente para as mensagens diretas (DMs). E não é permitido os prints das telas do que é postado nos instants.
Segundo a rede social, o objetivo é incentivar publicações naturais do cotidiano, sem a pressão por produções perfeitas. Mas não se engane, há uma outra lógica por trás deste novo recurso da rede – sempre há outro objetivo por trás de qualquer atualização desses aplicativos – que visa a competição mercadológica. Quando a Meta começa a perceber que seus usuários estão diminuindo o tempo que ficam conectados – sim, as empresas têm esses dados de você – em suas redes sociais, eles trabalham incansavelmente em busca de novidades para trazerem de volta a sua presença no Instagram, ou Facebook ou qualquer outra rede que ela detém.
Os instants, ao tentar competir com outras redes sociais, buscam resolver o problema de usuários que deixaram de postar suas vidas cotidianas. Isso aumenta o tempo de uso na plataforma. A ideia é fazer o público acreditar de que temos que “resgatar a essência das redes sociais”, e terem a liberdade em postar no próprio perfil “fotos espontâneas e naturais” a fim de quebrar a “pressão estética”. Postar “momentos reais do dia a dia e não conteúdos altamente produzidos” e artes mais conceituais.
Mas, espere aí um momento: quem foi que impulsionou tal pressão estética não foram as próprias redes sociais? Quem foi que criou os filtros que fazem mágicas na nossa aparência? E agora eles querem “combater” um problema que eles mesmo causaram? Nesses tempos em que a capacidade crítica e de séria imaturidade sócio humana, precisamos abrir os olhos para o que as redes nos propõe. Mais tempo conectado é igual a mais lucro, mais dinheiro e mais capital no bolso dos senhores Mark Zuckerberg (Meta), Elon Musk (X, antigo Twitter), Evan Spiegel (CEO do SnapChat), Larry Page e Sergey Brin e o CEO Sundar Pichai (Google), Zhang Yiming (TikTok), Papel Durov (Telegram). Você vende os segundos mais caros do seu dia, mas, não se iluda, não é você quem lucra. Na verdade, você ainda paga por isso.
A nova função do Instagram revela mais uma vez a contribuição que a Internet oferece ao promover a não formação integral da pessoa. Depõe contra uma sociedade mais crítica, e sustenta a ideia do hoje e do agora e não se importa com uma cultura educacional mais integral, completa e humanamente sustentável. O nível de maturidade humana está caindo a cada década e se nós continuarmos nesse ritmo as crises afetivas e relacionais irão atingir percentuais difíceis e quase impossíveis de reverter. “Comunicação pela metade faz mal”, já dizia uma amiga próxima e, capturar um instante de seu dia não vai te permitir uma rotina mais “real” e menos “fingida” do que realmente é e pensa.
Este instante é o segundo mais caro do seu dia, você o vende para aqueles senhores que citamos alguns parágrafos atrás. Contudo, há um “desvio de caixa” aqui: abrem a loja; alguém expõe o produto; vende, alguém comercializa; algumas pessoas compram e alguém recebe por isso. Agora acompanhe: o Instagram lança o recurso, você vai lá, compra a proposta, vende seu segundo de instante e o dono da empresa ganha. Mas, no fim do dia, as contas não fecham. Foi você que vendeu, foi você que pagou (e pagou caro), mas o dinheiro não caiu na sua conta.
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto: Reprodução / via X.