18 May
18May
18 de maio de 2026 



Posso destacar três experiências que pude ter diante de obras de arte: a primeira foi numa das exposições que o CCBB promove em Belo Horizonte. Não me recordo mais do que se tratavam as obras de arte ali expostas, mas eram artes no estilo minimalista e o tema era voltado à humanidade delicada e frágil. A outra experiência foi quando visitei pela primeira vez a cidade histórica de Ouro Preto. Na ocasião pude visitar quase todas as igrejas históricas e nas visitas um dos que me acompanhava me questionou o porquê de contemplar algo tão grande e tão intenso como ouro puro exposto em altares, paredes e teto daquelas igrejas que eram símbolo de poder e riqueza. 

Na verdade, o grande incômodo de quem nos acompanhava era que o tempo que gastávamos para assistir àquela magnitude exposta diante de nós era breve e rápido. De fato, eu não consigo gastar tempo diante de obras de arte. Nesse instante, vejo que o ato de contemplar não é algo tão simples e está longe de ser sinônimo de brevidade. Há estudiosos da área da filosofia que afirmam que a contemplação é algo tão intenso, profundo e mágico que tal experiência faz com que o ser humano saia de si, eleva seu nível de consciência num grau quase que sobre-humano. 

A terceira ocasião dessa experiência foi quando pude contemplar de perto as obras de Candido Portinari [1903-1962] colocadas nas paredes da Igreja de São Francisco, na lagoa da Pampulha, centro da capital mineira. Dessas três experiências, a das obras do brasileiro Portinari foi a que mais me encantou. Poder contemplar tudo aquilo de perto foi uma experiência contemplativa muito humana e, ao mesmo tempo, divina. As obras expostas dentro daquela igreja turística ornavam muito bem com tudo o que acontecia ao redor. 

De fato, a contemplação é algo que foge do humano, escapa das orientações conscientes e ascende a algo sublime e até sobrenatural. Na filosofia, um ramo que estuda a arte, a música, a estética contemplativa, aprendemos que o teor sublime não é algo inconsciente e nem que foge da razão, muito pelo contrário, a razão só enaltece as experiências contemplativas porque eleva o nível humano de consciência e compreensão diante do belo. Aristóteles já defendia a vida contemplativa como uma atividade elevada, autossuficiente e prazerosa do ser humano. Platão dizia que a contemplação era capaz de nos afastar-se de mundo sensível e elevar a alma à contemplação das Ideias. Já a filosofia da estética de Arthur Schopenhauer, por exemplo, elucidava a contemplação desinteressada como uma arte que suspende os desejos e o sofrimento, nos fazendo enxergar o mundo em sua essência. 

A Dama com Arminho é uma obra que ainda não pude vê-la de perto. Ela foi pintada por Leonardo da Vinci, datada entre 1489 e 1490. A obra retrata Cecilia Gallerani, a jovem e culta amante de Ludovico Sforza, Duque de Milão. A obra é símbolo de pureza e beleza, retratados por uma mulher, a mais bela e a mais pura entre todas as outras. Segundo dados da história, o nome dela era Cecilia Gallerani, com seus 17 anos, poeta, culta e que fazia todos a admirar por conta de seus traços tão belos. Nos braços ela carrega um arminho, representando a virtuosidade que carrega na vida e no próprio ser. Para os amantes da contemplação, o quadro de da Vinci é revolucionário, pois A Dama com Arminho foge do estilo de pintura estática. Dizem que o retrato parece estar nos acompanhando na medida que vamos caminhando de frente a ele. Estudiosos afirmam ter ali de 3 a 4 quadros num só. É como se a dama direcionasse seu olhar para seu amante, que tenta, a todo instante, escapar de sua beleza estonteante. 

A inspiração da crônica desta semana veio quando acompanhei a segunda temporada de Berlim e a Dama com Arminho, produção de Alex Pina, responsável pelo sucesso de La Casa de Papel. Desta vez, o produtor espanhol costurou o pano de fundo numa perfeita aula sobre obras de arte, citando grandes nomes da pintura renascentista como Michelangelo, Monet, Rembrandt, Rafael Sanzio, da Vinci, Caravaggio entre outros... Porém, entre tantas narrativas de assaltos de uma aventura a outra, a equipe liderada por Berlim (Pedro Alonso), se recusa a tratar obras de arte como algo tão sujo no mercado ilegal. Para eles, essas artes merecem o devido respeito e, no final da série, o grupo de ladrões tiram as obras das mãos do magnata corrupto Álvaro Hermoso (José Luis Garcia-Pérez) e as devolve aos seus respectivos museus, para o deleite e a contemplação do público de direito. 

O quadro original de Leonardo da Vinci, atualmente está exposto no Museu Nacional de Cracôvia, na Polônia, como parte de uma coleção histórica. 




Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: “A Dama com o Arminho”. Pintura a óleo sobre painel de nogueira, 1496 d. C. (século XV d.C), do artista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519). / via Dreamstime.

Comentários
* O e-mail não será publicado no site.