11 de maio de 2026
Você já deve ter ouvido falar sobre “economia da atenção”. O termo foi cunhado pelo vencedor do prêmio Nobel Herbert A. Simon na década de 1970. Na época, Simon desenvolveu o conceito para indicar que a atenção estava se tornando escassa entre as pessoas num contexto saturado de informações. Segundo Simon, “uma riqueza de informação gera uma pobreza de atenção”. Se há informação em abundância, há ausência de foco. Portanto, a Economia da Atenção diz respeito a tudo aquilo que carece de nossa atenção. Em tempos de redes digitais cada vez mais evoluídas e inteligentes, a atenção humana acaba se tornando uma mercadoria de fácil acesso capitalizável.
Infelizmente é fácil “comprar” hoje a nossa atenção. Neste ano de 2026 um fenômeno viral tomou conta das nossas redes sociais e até chamou atenção de grandes marcas e empresas: as chamadas “novelinhas das frutas”. Episódios de 30 a 60 segundos que prendem a nossa atenção e que viralizam entre os perfis das redes sociais, sobretudo do TikTok, do Instagram e do X (antigo Twitter). Com roteiros curtos e simples, linguagens acessíveis e estética inspirada em animações, essas produções feitas por IA encantam o público.
Um abacate traído, uma banana revoltada e um morango oportunista tornaram-se a receita ideal para chamar atenção do público. As “novelinhas das frutas” reúnem todos os ingredientes que descartam a necessidade de um pensamento crítico ou uma análise aprofundada do que está sendo narrado. Aliás, os roteiros trazem algo que não chama o público a repensar suas atitudes, muito pelo contrário, exploram temas como traições, conflitos familiares e outras situações extremas que dão certo Ibope: a derrota alheia e a fofoca.
Recentemente, uma investigação encomendada pela CNN encontrou brechas nessas produções que começaram a veicular conteúdos de fake news, além de incitar violência e ódio. Entre os enredos, o contexto das pequenas histórias explora conteúdos misóginos, violentos, objetificação da mulher, gordofobia, relacionamentos tóxicos, masculinidade tóxica, bullying, apelo sexual, todas as formas de preconceitos, racismo, violência doméstica. E as novelinhas acabam normalizando essas situações, trazendo humor e uma estética envolvente. Tudo isso desvia a nossa atenção para uma história que é engraçada, bem construída, mas, que é desumana, violenta e que explora temas deploráveis para a formação da pessoa.
As pessoas por trás de cada IA utilizada para desenvolver estas produções estão lucrando com cada episódio publicado em redes sociais. Lucram com a veiculação de narrativas que defendem todos estes temas citados anteriormente e que vão penetrando em cada núcleo familiar e fazendo-se realidade em cada pessoa. As “novelinhas das frutas” contém conteúdo impróprio, desumano e violento, e, dado a quantidade de views que cada episódio coleciona é preocupante o quanto que esse tipo de conteúdo chama a atenção de um público que, ao invés de denunciar esse tipo de produto, deixa-se levar e “vende” a sua atenção para isso.
A “novelinha das frutas” é um atentado aos Direitos Humanos. Temos um Abacatudo que se assemelha a um redpill, homens que sustentam a sua masculinidade, vivem numa “machosfera” que disseminam ódio e aversão às mulheres. Já a Moranguete sexualiza e objetifica a mulher usando do corpo para suas conquistas. Assim, ela traz de volta aquela imagem de que a mulher não passa de um objeto de desejo. Por fim, Bananildo é um revoltado que busca vingança ao sofrer bullying, ser vítima de traição e ser tachado de bobo. Outros personagens estão sendo desenvolvidos e vão perpetuando este tipo de narrativa.
Voltando ao tema da Economia da Atenção, você deve estar se perguntando, o que ela tem a ver com essa febre viral das FruitNovelas. Nossa capacidade focal humana é ameaçada por conteúdos chamativos, perfeitos, bem-produzidos, mas, que nem sempre, o interno é semelhante à casca que ele nos mostra. Porque essas FruitNovelas nos chamam a atenção? Por mostrar tudo isso! São bem-produzidas; tem um recurso narrativo chamativo; cores e design perfeitos, e isso nos faz não dar atenção devida ao que se é dito, à mensagem que é transmitida e aos valores que são ensinados. A partir disso, aos poucos, nossa consciência vai perdendo a capacidade interpretativa e tornando-se incapaz de produzir reflexão aprofundada, porque as cores, a beleza, o brilho chamaram mais a atenção que o conteúdo propriamente dito.
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto desenvolvia por IA / via Instagram (Hortifruti Sabor da Terra).