04 de maio de 2026
Você já teve a chance de conhecer o fundo do poço? Não falo dos esgotos das grandes cidades e nem das mineradoras em busca das pepitas de ouro. Nem muito menos dos poços intergalácticos. Acho que esses nem fundo possuem. Ainda sob as áureas do Primeiro de Maio, dia consagrado como o Dia do Trabalhador, é válido recordar daqueles que fazem do fundo do poço um lugar insalubre, frio, sujo e desumano, mas que garantem o seu salário mensal, o sustento do lar. Viva o trabalhador, não é mesmo?!
Enquanto uns fazem do fundo um lugar de trabalho, não deve nos assustar aqueles que nele vivem, fazem do buraco, habitação, casa, o que é contraditório, pois lar é lugar seguro, lugar de proteção... Que segurança um poço poderia oferecer? No cinema e na TV ficou registrado o poço como lugar da pobreza, lugar da desumanidade, lugar inóspito, aporofóbico.
Há ainda um outro fundo do poço que este texto gostaria de provocar a sua reflexão: refiro-me ao fundo do poço da sua vida; sonhos, perspectivas, relacionamentos, memória... Daquelas experiências construídas baseadas em expectativas miraculosas. Contudo, estas expectativas simplesmente te lançam uma rasteira e pronto! Você cai. Cai, cai, desce, despenca e vai se desmoronando numa descida incontrolável até bater... no fundo do poço. E ali, a dor toma lugar, manifesta-se! Dor da perda. Dor da derrota. Dor física. Dor do abandono, do desprezo, do desamor, da traição. Dor sentimental... a dor que ninguém gostaria de sentir.
A dor incurável na vida de uma pessoa é capaz de inverter os valores e de se virar contra o que acreditamos. Não conseguimos controlar o que sentimos. E quando o que se sente não é benéfico ou não traz o prazer da alegria, suas energias se transformam em vingança, traição e violência.
A vida corrida que a cada virada de ano nos submetemos, não nos permite ter tempo para curar as feridas que nós mesmos infligimos. A cada tombo, a cada perda, a cada acidente fatal que nos acomete, todas estas experiências deixam marcas em nós. Sejam elas profundas ou rasas, elas são feridas que precisam se cicatrizar.
E nós não nos dedicamos mais tempo nem para nossas lágrimas, para nossas curas. Sabe quando decidimos chorar? Quando chegamos no fundo do poço. As lágrimas servem como um último ato. Sabe, aquele grito de socorro quando não se tem mais para onde fugir? É sobre isso! Não sei em que momento da vida nós nos permitimos negociar algo que é tão humano e essencial para cada um: a saúde, a felicidade, a cura, o amor. Não precisamos, e não devemos esperar o pior acontecer para buscar socorro, abrigo e cura. O fundo do poço não serve para isso.
Buscamos justificativas para o que é injustificável. Buscamos respostas para perguntas que nunca foram feitas. Insistimos em atividades que não constroem nada, mas a insistência humana é ignorante, desconhece o saber e não valoriza o conhecimento. Sem o saber, a dor se manifesta e tudo o que ela proporciona é o remédio do esquecimento. Sem as lembranças da alegria e os prazeres do amor, a dor se torna o veneno insaciável da desordem, da falta de harmonia e do sofrimento sem controle.
Não é de se assustar quando percebemos que muitos indivíduos acreditam estar vivendo a fase mais cruel de suas vidas. Estão experimento a amargura do que significa estar no fundo do poço e nem aquela luz poética aparece para lhe salvar. Mas tenho um segredo para revelar para você: nem sempre isso é o fundo do poço. Pois neste lugar só chega quem já desistiu de tudo. Afastou-se de todos. Perdeu tudo o que possuía. Desistiu de viver e abandonou a esperança. Isso sim, é o fundo do poço. E você ainda não está nele e está longe de descobrir como que ele é.
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto de Emri Bilgiç / via Pexels.