27 Apr
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27 de abril de 2026 


Foi na aurora do século XV que na Europa, a padronização da moda ganhou força e passou a ditar o estilo de como se vestir e o que vestir. O movimento renascentista, que marcou a passagem da Idade Média para a Moderna, consolidou o seu marco histórico através da cultura, da arte e da ciência. Foi neste período, inclusive, que a ideia do individualismo começou a florescer, em que o ser humano, como centro de tudo, passou a se sentir senhor e dono de si e de todos. 

As roupas passaram a se tornar regra social. Elas é que determinavam status e poder social. As cores que escolhíamos vestir também diziam muito. Cores vivas, vibrantes, de destaques eram malvistas, e, geralmente quem as usavam eram os plebeus, os mais pobres. Enquanto as cores neutras, e de costura mais requintada eram vistas em damas da sociedade e comendadores, príncipes, viscondes ou homens de alto escalão. 

O Renascimento também usou as roupas para valorizar os contornos do corpo. Diferente das roupas antigas, agora a costura desenhava a cintura, os bustos, e dava destaque ao padrão ideal de um corpo humano. Os italianos saíram na frente e até hoje eles são detentores de grandes marcas no mercado da moda. Gucci, Prada, Versace, Armani, Dolce & Gabanna só pra citar algumas. 

Na França temos a Louis Vuitton, Chanel, Christian Dior, Cartier e Rolex. E até na atualidade o mercado da moda tem escolhido seus preferidos. Para o bem ou para o mal, a roupa para estes escolhidos representa tudo. Ela pode não desenhar o caráter e nem apoiar o bem, mas ela abre as portas do sucesso e garantem o lugar de destaque em qualquer mesa. É por isso que até mesmo o mais cruel dos seres humanos pode ter tudo aos seus pés. Estando bem-vestido, qualquer lugar é uma oportunidade possível. 

Hoje, até mesmo na religião, a moda tem causado a sua influência. Dita as regras do que pode e do que não pode vestir. Abre portas para uma batina de alta costura, mas cria obstáculos para uma camisa social pouco habitual. Ambos podem ocupar o posto de sacerdote na mesma sala, mas, adivinha quem tem mais chance de ocupar um lugar na mesa? Mas, não se engane, até mesmo o diabo veste Prada, usa Gucci, compra Doce Gabanna, enfeita-se de um bom Cartier e Rolex e se banha de 212. Apropria-se da alta costura e se veste do mais caro. Não repete figurino, não permite cópias e está sempre bem-vestido com a última moda. 

Quando o mal está bem-vestido, ele nos convence, consegue nos encantar com sua beleza e há até os que se apaixonam por ele. Não se assustem! Estar bem-vestido é palatável aos nossos olhos. A tentação em optar pelo mais bonito está sempre presente em nossos gestos. O problema é que nem sempre o externo é reflexo do interno. Nem sempre o bonito é mais empolgante. As vezes o bem-vestido só é um corpo estrutural que serve de cabide para uma roupa do último desfile de moda ficar em exposição para a admiração dos passantes. É esse tipo de pessoa que você quer ser? 

Quantas pessoas tentam esconder o que sentem atrás de figurinos esplendorosos? Quantos anulam o que são capazes de fazer porque preferem as mordomias dos tecidos finos, de sedas macias, roupas com fios de ouro e cores suntuosas, chamativas? Quantos não conseguem ter uma vida feliz porque esbanjam em nome de grandes marcas só para sustentar um status que não foi feito para si? Quantos se machucam em nome da boa fama, da aparência e de uma postura que nem mesmo a moda oficial é capaz de sustentar? Quantos matam a si mesmos só porque queria aquele par de sapatos, ou aquele vestido, ou aquela jaqueta expostos na vitrine?

Nenhuma destas marcas são boas o bastante para maquiar o mal. E nenhuma delas é capaz de revelar o bem. Não é o que vestimos, mas o que somos com o que vestimos. Raramente reconheceremos o diabo por trás da mais fina costura no mercado da moda. Não é possível determinar o que é bom ou ruim; os sapatos do Louboutin não serão bons o bastante para direcionar seus pés para a escolha certa a ser feita. E se você é tão bom que não é capaz de repetir roupa, ou usar o mesmo vestido de gala em festas diferentes... como será que deve viver aquele que só tem duas peças de roupa? 




Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto de Rede de Cinema Cinépolis.

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