20 Apr
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20 de abril de 2026 


Ele disse que gosta tanto de ouvir o som de sua voz que seu ego inflava como um desses balões de gás em que nem mesmo o céu o limitava. Ouvir a si mesmo dava a sensação inigualável de supremacia, relevância, poder, autoridade visibilidade. Ocupar lugar de fala para ele era o mesmo que ser a própria fala e só a sua fala importa. Não se ouve mais ninguém com seus tons vocais ao redor. Enquanto ele fala, ninguém mais ousa se pronunciar. Seja no púlpito, em praça pública, num discurso presidencial, ou no altar de uma igreja, no palanque de um show ou no palco de um evento, o microfone sempre estará lá, aguardando, seduzindo-te. 

Discreto ou colorido, de porte pequeno, fino ou circular, oval, alto ou baixo, com ou sem-fim, é o microfone o maior paquerador desta era. Ninguém resiste à tentação de tê-lo nas mãos a fim de evocar sua voz. Vivemos situações sociais em que o a voz que se faz ouvir nos microfones espalhados pelo mundo são vozes de quem ainda não compreendeu o alcance, poder e o perigo que isso pode causar. Não é tanto o que se faz ouvir que é o mais certo, mas, talvez, é aquilo que não chega à tecnologia de um microfone e que não é dito e nem ouvido, que poderia salvar muitos, converter outros, ensinar uns. 

O microfone é uma invenção alemã que data de 1877. Emile Berliner, seu criador, na época era um imigrante nos EUA, e criou um dispositivo de voz para melhorar a qualidade de transmissão dos telefones da época. Desde sua criação e o envolvimento de compras de patentes e evolução do aparelho, o microfone é popularizado pela empresa ancestral da Nokia e se torna um dispositivo indispensável em quase todos os serviços do mercado. 

Hoje o microfone está no rádio, na sua TV, no notebook. O seu celular também o tem embutido. Já existem carros com tecnologia smart que também possui o recurso transmissor. Podemos dizer que a Alexa ou a Siri são dois grandes microfones que ditam as regras do seu dia, controla sua casa, determina seus horários e patrulha a sua agenda. Tá vendo como um microfone pode determinar a sua rotina? Que o tem, tem tudo, controla tudo, influencia todos, não é mesmo?! 

E quando há microfonia? Ah! O microfone não gosta de concorrência, não tolera obstáculos e não aceita diálogo. Ele potencializa sua voz, mas não se engane: enquanto sua voz é a principal, outras vozes lutam, ao seu redor, para serem ouvidas. Um microfone também cala vozes! O relato que leu no início desta crônica é um bom exemplo de tudo isso. Ter o microfone nas mãos confere a algumas pessoas um sentimento de poder incomensurável. Poder que não se controla. 

Microfone é poder. E o poder seduz, manipula, corrompe e desumaniza. Poder é privilégio, e privilégio exclui, segrega, ofende e mata. Privilégio é incoerência, é desumano, destaque, desprezo, incoerência. Incoerência é guerra declarada, é antiético, e ética sem poder é maléfico, um veneno que ao se espalhar, é difícil encontrar a cura. E tudo isso pode começar com um microfone. 

Ter o microfone nas mãos pode fazer o bem, mas também pode transmitir muito mal. E nem sempre é sobre o que você fala, mas é sobre o que não diz ou o que finge dizer. É sobre o que você não permitiu que fosse dito, é sobre o que você calou e que permitiu que outros também se calassem. 




Texto de Dione Afonso / Jornalista

Foto de Los Muertos Crew / via Pexels.

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