06 de abril de 2026
Em 1960, o cineasta italiano Federico Fellini, ao lançar sua película La Dolce Vita, Fellini, talvez não esperasse que fosse patentear um termo que hoje se torna o temor de celebridades e pessoas famosas. O longa segue a jornada de um jornalista fotógrafo que vive entre as celebridades, os ricos e os de prestígio social da alta classe A. Marcello Rubini se espanta ao perceber que estas pessoas que possuem tudo, decaem num grande vazio existencial, pessoas deprimidas e carentes de atenção.
O filme gesta o termo “paparazzo”, para designar fotógrafos independentes, responsáveis em registrar esses cliques momentâneos, geralmente sem autorização, de famosos. A exclusividade de tais imagens rende preços ambiciosos no mercado do entretenimento. Todos os dias, os portais de notícias e as redes sociais mantém-se em contato vigilante com os repórteres de plantão e com os fotógrafos apelidados de paparazzis. Os paparazzos são populares em registrar momentos constrangedores, íntimos ou de foro privado de grandes nomes do universo das celebridades. Escândalos de políticos ou os tão sonhados affairs dos atletas esportivos.
Com EXCLUSIVIDADE, a notícia é tida como um troféu, detida apenas numa única fonte de informação. Única. Restrita. Particular. De caráter privado. Exclusividade indica privilégio, monopólio. Aponta para a necessidade de manipular algo ou até mesmo, alguém. No caso da narrativa de Fellini, a manipulação está através das lentes de uma câmera que captam a vida e os constrangimentos de outrem. Raramente estes cliques se servem para a boa informação ou para noticiar algo relevante.
No campo do jornalismo, a expressão “com exclusividade” tem um impacto muito grande para um profissional da área ou para a emissora. Neste caso, o veículo de comunicação que detém, que assina as informações conquista o pódio do exclusivismo, pois é o único que chegou à fonte. Neste caso, como os fotógrafos são independentes, eles ditam as regras e o preço pela imagem. Um exemplo mais próximo de nós é a do Homem-Aranha, personagem fictício criado pelo Stan Lee em 1962. Trata-se da identidade secreta do jovem Peter Parker, que usa dos privilégios heroicos e detém a seu poder imagens exclusivas do “amigão da vizinhança” que se arrisca para salvar pessoas indefesas.
Contudo, percebe-se também que as exclusividades podem ir muito além de uma notícia que é detida a um monopólio de comunicação. Há pessoas exclusivas que se sentem donas do mundo; grupos exclusivos que pensam que ninguém mais deveria coexistir no mesmo universo e respirar o mesmo ar. Há ainda, países exclusivos que, batizados de Primeiro Mundo sentiram-se no direto de classificar os de Segundo e Terceiro e determinar que estes não têm e nem devem ter as mesmas oportunidades que eles.
A cada dia que passa o desejo de querer se sobressair continua crescendo entre nós. Quantas vezes lutamos para que nossos nomes sejam marcados com exclusividade. E nunca pensamos em dividir o sucesso e as nossas conquistas. Não somos capazes de celebrar com os colegas e as nossas comemorações se tornam cada vez mais fajutas, com bolo de isopor, flores de plástico e felicitações através de uma selfie postada por 24 horas. Não pode, jamais, durar mais do que isso!
Ser exclusivo é ser separado. Afastado. Incomunicável, antirrelacional e antissocial. A exclusividade é egoísta, marca uma preferência que segrega, separa, divide e exclui.
Texto de: Dione Afonso, Jornalista
Foto de Geli Santarsiero / via Pexels.