30 de março de 2026
Fico espantado quando vejo situações em que o poder é usado para desprezar outrem. Pessoas que fazem deste uma justificativa para mostrar-se superior à outros. Poderoso. Autoritário. O abuso de poder deveria ser crime, pois, mesmo conferindo como pecado grave, não são todos que confessam tê-lo cometido. Situações como essas tem se tornado cada vez mais frequentes entre nós. É um dos gestos mais desumanos que existe! Encontrar alguém que se acha revestido de certo grau de autoridade diante de outro ser humano. É como se a vida do outro de nada valesse ou, que seu valor se reduzisse a servir calado e cabisbaixo.
Estamos presenciando exemplos desta ordem em diversas esferas. Desde as de repercussão grande e mundial, como a de líderes que usam da autoridade e do poder bélico para “calar” outros países. Governam com o poder da força bruta e desumana, com os tiros e bombas no lugar do diálogo e da conversa fraterna. A resposta frente a estes exemplos é sempre a guerra. A paz em detrimento desestabiliza nações, consolida inimigos e aniquila qualquer sinal de reconciliação. E, não se engane, em modelos assim, é sempre o mais pobre que perde.
Mas também encontramos exemplos disso em esferas mais íntimas e perto de nós. O meme “Ah, se eu quisesse”, que viralizou nos vídeos do TikTok, popularizou-se por seu teor cômico ao usar o humor em situações de controle e superioridade. E encontramos situações diversas: entre casais, quando o marido ameaça a esposa, “ah, se eu quisesse”, sinalizando que é melhor ela temer do que correr riscos; entre mães e filhos, com certo tom de “educação positiva”, mas nunca é positiva, é sempre em tom amedrontador e, o resultado disso gera filhos que temem os pais; entre colegas do círculo de convivência, que acham que podem, de certa forma, controlar os outros...
O gênero é o humor, mas a mensagem não fica muito distante de certo rigor ou com tonalidades que instigam a briga e a discórdia. De certa forma, o meme ganha destaque com sua mensagem autoritária, controladora, reforçando estereótipos de superioridade e de controle tanto emocional, quanto físico. “Meme”, é um termo grego que significa “imitação”, popularizado na década de 1970, ele é o principal responsável por viralizar situações diversas dentro das relações humano-sociais.
Por mais que os vídeos se expressem com risadas em situações cômicas, nós, que temos o controle do que postamos, compartilhamos e curtimos, precisamos manter certa postura crítica. Fazer uma releitura sábia e com posicionamento claro é essencial para que não sejamos nós os responsáveis por perpetuar certos costumes no imaginário humano. “Ah, se eu quisesse”, já teve a versão do: “olha, quando eu quero”, que é o revidar da ameaça primeira. Ameaças, geralmente são respondidas com práticas violentas. E, quem as curte e compartilha torna-se cúmplice dos atos desumanos, ou seja, somos nós.
O humor não é e nunca se tornará uma ferramenta para esconder, maquiar ou manipular ações violentas para favorecer um grupo, tradição ou perpetuar hábitos e culturas. O humor é inteligente, por isso que quem o rejeita são exatamente os que ignoram o conhecimento, pois preferem ignorar o que não compreendem. Humor é gênero, é situação, é movimento. Humor é resistência, é credibilidade. Humor é a verdade dita, falada, pronunciada, gestada e revelada de forma leve, objetiva e direta. O humor não se esconde, ele se revela, se mostra, se dá, sem medos, sem máscaras e sem mentiras. Humor é verdade.
No filme Vingadores, da Marvel Studios, dirigido pelos Irmãos Russo e lançado em 2012, o herói Hulk, num diálogo, disse ao Homem de Ferro que para estar numa guerra, para ele é fácil, pois ele tem uma armadura pra se esconder, para se proteger, ao contrário dele, que fica exposto, com sua pele verde, suas veias, que ele vai com a cara limpa e sem uma máscara de ferro para resguardá-la. Assim é o humor: ele vai de cara limpa, e o “ah, se eu quisesse”, é, na verdade o “olha, quando eu quero” e mostra seu rosto.
Texto de: Dione Afonso, jornalista.
Foto: de Leo Wang / via Pexels.