23 Mar
23Mar
23 de março de 2026 


Já houve um tempo em que o tempo era digno de respeito. Era senhor e dono de nossas decisões. Ditava o ritmo dos acontecimentos. Neil Gaiman, autor britânico de ficção mitológica ao escrever a saga Sandman, que narra a história de Sonho – ou Morpheus, se preferir –, fez do tempo nosso inimigo mortal. O que é o tempo, senão uma convenção social de que nos curvamos a viver? Contudo, nos tempos modernos que estamos atravessando, parece que o tempo perdeu sua credibilidade e relevância e ele se torna para nós algo fácil de se enganar e manipular. 

A sensação de poder que adquirimos sobre algo tão poderoso quanto o tempo nos dá a sensação de que deveríamos ser imortais, ilimitados. Por isso que vivemos no tempo da agilidade o que faz da espera algo inconcebível. Não suportamos esperar. Um minuto de espera já nos desestabiliza, tira-nos do eixo; faz-nos perder o ritmo frenético de uma vida sem tempo. Buzinas, quebra-molas, placas sinalizadoras, tudo isso foi feito para pessoas que não aprenderam a respeitar o tempo dos outros. Não temos tempo e não respeitamos o tempo de quem ainda o tem. Não temos tempo para perder tempo e nem tempo para ter tempo de lidar com tempo com coisas que carecem de tempo. Não respeitamos o tempo e nem o ritmo da outra pessoa. 

Não respeitamos os passos do outro. A demora do outro. Quando algo não se encaixa no nosso ritmo, ficamos fora de si e atropelamos o tempo que cada um necessita para a sua própria compreensão. E o tempo ainda segue tendo a sua relevância: tempo na cozinha é essencial para que a refeição fique saborosa; tempo no cuidado da saúde é importante para que os medicamentos realizem o efeito; tempo na escola é crucial para que o aprendizado tenha cadência; tempo no amor para que perdure; tempo na amizade para que respeite; tempo na religião para que a fé não esmoreça; tempo na política para que todos sejam ouvidos; tempo na economia para que o lucro seja honesto... 

Não temos tempo! Reclamamos de que não temos tempo e que o tempo não dá tempo para o nosso próprio tempo. Houve um tempo que o ritmo de nossos serviços respeitava o tempo necessário para bem realizá-los. Agora o tempo virou o jogo e tornou-se senhor e dono. Não temos mais o controle. O que tem nos restado é a barganha, como se o tempo negociasse com o humano. O tempo não é negociável. O tempo não é cumulativo. O tempo não se permite faltar. Quem acumula ou quem carece de tempo são aqueles que não compreenderam a sua organicidade. Se perde na vida, nos compromissos, no trabalho porque abraçou coisas demais para realizar em tempo de menos. 

Precisamos aprender a dinâmica da espera. Às vezes, esperar é sagrado, curativo. Esperar poder ser o exercício mais exaustivo que precisamos adotar. Uma prática que pode recuperar a saúde do cérebro. Exercitar-se nem sempre tem a ver com atividade física e árdua. Talvez os músculos que precisamos fortalecer são os da consciência. 

Se cada país, continente, cidade, se em cada lugar do planeta há um tempo, um fuso horário para cronometrar seus dias, que seja assim com o “fuso” de cada pessoa. Cada um de nós temos um ritmo temporal. Respeitá-lo é criar harmonia entre nós e a vida. Querer “parar o tempo” é desejar ser dono, controlar algo que nenhum de nós nasceu para controlar. Em Alice Através do Espelho, obra da literatura de Lewis Carroll, o tempo foi tratado com desprezo e, por isso entrou em colapso. Ao colapsar o tempo, tudo ao redor se materializou, virou pedra, perdeu movimento e vida. Que cada um de nós possamos cuidar para que não nos tornemos estátuas imóveis e sem vida, plastificados por um tempo artificial demais. Tempo este que não teve a chance de viver no próprio ritmo. 



Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: de Pixabay / via Pexels.

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