09 de março de 2026
Segundo a filosofia, o sonho é investigado como uma experiência humana que questiona a realidade. Em algumas áreas da psicologia, os sonhos são a simbologia de algo que habita o inconsciente humano e, quando eles surgem, vem como manifestação de um desejo reprimido de algo que gostaríamos de realizar. A religião já encara os sonhos como manifestação sobrenatural que vem para nos transmitir uma mensagem. Independente do que acreditamos representar nossos sonhos, o que é fato é que nós humanos somos seres capazes de sonhar.
Recentemente alguém decidiu partilhar numa mesa de bar seus sonhos. Ignorando um pouco o que a investigação do conhecimento considera a este respeito, percebi, ali, naquela mesa, entre colegas e amigos, que os sonhos faziam parte de um projeto futuro, de algo que cada um gostaria de realizar enquanto viver. Que conversa produtiva! Um deles partilhou que seu sonho seria conhecer os países latino-americanos. Viajar desde a Argentina até chegar ao México, numa jornada sobre identidade.
Conhecer as praias do Havaí, as ilhas Maldivas e o arquipélago de Fernando de Noronha fizeram parte da segunda partilha da noite. Depois de uma rodada de boas doses, parece que visitar o mar nestas localidades seria um passeio de bom proveito. Houve quem foi mais ousado e decidiu sonhar em conhecer o Oriente. Países árabes, costumes japoneses e a cultura da China. Um bom coração partilhou seu desejo em poder ao menos pisar no continente africano. Este, desejava buscar mais que realizar sonhos, mas conquistar saberes.
Bom, depois nossos sonhos resolveram pisar em algo mais distante do chão: sonharam com a Torre Eiffel; Pisa, na Itália; os arranha-céus de Taiwan (Taipei); Estados Unidos (World Trade Center); Arábia Saudita (Makkah Clock Tower); Emirados Árabes (Burj Khalifa) e na China (Shanghai Tower). Quanta admiração tive ao perceber o conhecimento geográfico desta mesa. Outra rodada, e os copos cheios, conversamos um pouco sobre o Burj Khalifa, um edifício muito famoso, belo por sua estrutura arquitetônica e que compartilha o sonho de muitos em conhecê-lo.
Houve quem disse que seu sonho é poder voar! Não preso dentro de um avião, ou batendo a cabeça num helicóptero. Mas voar. Simplesmente voar. Abrir os braços e erguer-se do chão. Ter a liberdade de poder pousar onde quiser, na hora que quiser. Ter a oportunidade de poder compartilhar o mesmo espaço das estrelas ou de disputar um voo com as gaivotas. Entre um voo e outro, há quem sonhe em poder desaparecer quando não quer mais estar onde estar, ou de ler pensamentos alheios, para dar fim aos segredos que nos atormentam.
Mas, diante de tantos sonhos, alguns ousados, outros mais calmos, fiquei até receoso em compartilhar com o que sonho. A pergunta da noite era: que sonho você deseja realizar antes de morrer? E só uma coisa eu pretendo realizar: conhecer a neve. É o único desejo que alimento desde criança. Quando via a neve pela TV lembro que meus olhos brilhavam, desejosos de tê-la nas minhas mãos. Sentir como ela é. O quão frio ela é e como ela fica entre os dedos. Conhecer a neve é algo que me faria “zerar a vida”. Seria a maior e mais profunda de minhas experiências humanas. A pergunta, também vale para você: qual é o sonho que você deseja realizar antes de morrer?
Gosto de pensar os sonhos como algo que nos mantém vivos. Como aquela engrenagem que nos faz levantar da cama todos os dias e encarar os desafios que estão à nossa espera. Gosto de pensar os sonhos como o que nos mantém desejosos de continuar. Vivemos porque sonhamos. Não desistimos porque queremos realizá-los custe o que custar. Gosto de pensar os sonhos como algo da minha própria identidade. Como algo que ninguém nunca será capaz de me roubar. Como algo que é só meu e que eu compartilho apenas com quem confio. Seja numa mesa de bar, ou numa conversa íntima com o meu melhor amigo.
Texto de: Dione Afonso, jornalista
Foto de: David Levinson / Pexels.