02 Mar
02Mar
02 de março de 2026 


Alguns memes já fizeram história neste início de 2026. Temos o “5ª série” que saiu direto do BBB e o “ah, se eu quisesse” que veio de uma série de entrevistas descontraídas em camarins de shows e que ganhou versões hilárias no Instagram e TikTok. Outros vão estreando e contribuindo com a sua cota de alegria, bom humor e boas risadas. Um dos que nos chamou a atenção foi o meme “saBOR de...” que veio como uma estratégica de marketing, mas que acabou viralizando por outros motivos. 

A piada acabou ganhando o público pela repetição carismática de Toguro, um influenciador que viu seu bordão viralizando nas Redes Sociais ao tentar vender seu produto. Não fazia parte de suas estratégias, contudo, acabou tornando-se slogan publicitário de sua marca. Tem gosto, “sabor”, mas não é. O meme tornou-se uma brincadeira, um bordão para descrever situações, pessoas, objetos que possuem apenas a vibe ou o gosto de algo, mas, sem a substância essencial. 

Esta crônica tem saBOR poesia. Ela tem a pretensão de ser poética e até com cadência, ritmo e ousa na métrica e rimas, mas ela é saBOR poesia. Sou um pobre saBOR rico, pois quando olho pro extrato mensal, parece que vivi numa sociedade tal qual Bridgerton, da alta sociedade real. Sou solteiro saBOR casado, pois meus relacionamentos não progridem, minhas companhias se resumem a presenças breves e efêmeras e nada nem ninguém se dispõe a construir algo duradouro. Sou um desempregado saBOR CLT. Sou um jovem saBOR idoso. Um vendedor saBOR empresário. 

As coisas ficam ainda mais interessantes quando nos deparamos com bijuterias saBOR diamantes, ou com aqueles figurinos da 25 de março saBOR alta costura. Ou ainda quando nos deparamos com festas surpresas saBOR buffet. Ou promoções saBOR black friday. Passeios saBOR férias; praia saBOR terapia; fevereiro saBOR carnaval, e não sala de aula; Brasil saBOR samba e futebol; Bahia saBOR axé; escola saBOR nota 10. Mas, nada supera aquelas pequenas vitórias que recebemos como se fossem saBOR troféu. Já temos café saBOR pimenta; doce saBOR salgado e até salgado saBOR agridoce. Na floricultura, já há flores saBOR galho secos, plantas que imitam a seca. 

O meme do “saBOR” parece que nos dá a impressão de que a vida que levamos não é satisfatória. Nada é o que é. É como se eu tentasse vender uma água de coco que não fosse exatamente a água do próprio fruto, mas que tem “saBOR água de coco”. O alerta surge quando começamos a identificar certas pessoas com saBOR humanidade. Parceiros, companheiros, certas amizades que mesmo estando junto de você, trabalhando com você, convivendo com sua presença... fazem-se de seres humanos, corretos e gentis, mas que, no fundo apenas possem aquele sabor levemente amargo da crueldade e da desumanidade. Desumanos, saBOR humanos! 

E assim, nós costumamos cair naquelas armadilhas da vida em que vivemos um amor saBOR paixão passageira, ou aquela amizade saBOR interessere fútil, também aquelas situações de colegas de trabalho saBOR inimizades; aquele pagamento saBOR PIX inválido. Aquela compra saBOR distúrbio compulsivo, ou aquela vivência de fé saBOR enganação religiosa. Hoje, o dia que data essa escrita está calor saBOR inverno. Não é inverno, e nem está chovendo, mas tem a intenção de ser. O energético vendido por Toguro não é energético, mas tem a intenção de ser. Mas as intenções nem sempre fazem parte das decisões finais. Este é o famoso, “não foi o que eu quis dizer”, no entanto, foi exatamente o que foi dito. 

Minissérie saBOR novela. Netflix saBOR cinema. 



Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: de Omar Essa Pexels.

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