23 Feb
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23 de fevereiro de 2026 



Sempre fiquei incomodado com a estranha e antiga filosofia de que temos que “aprender com os erros”. Sempre me questionei por que é preciso, primeiro errar, se machucar, as vezes até perder, para aprender. Não parece muito lógico ter que perpetuar esta ideologia e parece menos lógico ainda fazer disso uma proposta de vida. 

O que convencionamos denominar como errôneo costuma partir do inexperiente que está tentando acertar na vida. Algo muito semelhante ao recém-nascido, ou à infância de alguém que está descobrindo as loucuras, os prazeres e as belezas da vida. Talvez, errar não seja algo proposital e nem uma fase desse jogo da vida, mas algo difícil de se desvencilhar. Pois até mesmo o mais experiente não está imune a erros. A vida adulta também é repleta de ações erradas. Ser jovem, ou ser alguém na fase das descobertas não são condições ao erro. 

As vezes temos a sensação de que a vida seria muito mais doce, fácil, tranquila e desejosa de viver se não houvesse em nós a política dos erros. Acertar parece trazer mais sentimentos agradáveis à rotina. Os erros não parecem ser da ordem natural da vida. Eles passam a imagem de que existem para desorganizar, desordenar, entristecer, aborrecer, ferir e até matar. Não vemos objetivo claro e necessário em cometer erros para que o correto da vida seja concretizado. 

Mas, esta jornada enfadonha que verbalizamos precisará, talvez, de um plot twist! Aquela reviravolta de último ato quando a mocinha vira a vilã e aquele em quem confiou durante o caminho é, na verdade, seu maior erro. O traidor. 

Errar não é humano! Errar é disfuncional, não faz parte da ordem natural da vida. Mas errar é uma representação falsa da realidade e que é cometida por nós quando nos enganamos diante de uma escolha que fizemos. Errar pode até ser comum, e tem se tornado cada vez mais corriqueiro os erros. Entenda bem: errar não é uma escolha, mas consequência de uma má decisão. O erro é o desvio de padrões costumeiros. Nós não aprendemos com os erros, nós aprendemos é com os acertos. Aprendemos com as vitórias e não com as derrotas. Essa lógica da enganação não nos serve e não nos dá credibilidade. 

Os erros servem para nos tirar da rota, servem para nos perverter e para tornar mais difícil a nossa jornada. Por que erramos? Porque confiamos e a confiança faz parte do humano. E quando somos enganados vem o erro e do erro nós podemos tirar ou não uma lição. Isso sim é escolha. Errar não é escolha e nem uma escola. Mas o que fazemos depois. Por que erramos? Porque falhamos. O erro é a fragilidade do humano. Erramos quando ficamos desatentos, paramos de vigiar, abaixamos a guarda. Erramos porque nos cansamos e no cansaço, a desordem vem. 

É possível viver sem errar? Infelizmente, não. O erro faz parte do desumano em nós. Ele tenta nos convencer de que fomos fabricados com algumas falhas e que é preciso corrigir. O erro está presente no mundo social, mas não significa que precisa estar presente nos nossos atos. Encare o erro como aquela engrenagem que não aceita graxa e que com frequência apresenta falhas na produção. Basta trocar, ligar a máquina novamente, e seguir em frente. O erro não pede licença para se manifestar, ele sempre está em busca de uma brecha para que possa participar de nossa história. Portanto, uma dica de ouro seria: não embase sua história nos erros do passado, mas construa seu legado sobre tudo aquilo que você fez e fez bem. Pra que quando alguém for ler sua história, possa se inspirar a construir também a própria jornada. 




Texto de: Dione Afonso, jornalista.

Foto: de Fanaz Kohankhaki Pexels.


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