Esta jornada começou em 2016. Ao encerrar sua história em 1º de janeiro de 2026, seus criadores nos permitem afirmar que foi uma década inteira criando teorias e acompanhando aquelas crianças em suas jornadas pessoais, profissionais e, claro, em suas aventuras. Matt Duffer e Ross Duffer, conhecidos pelo mundo todo como Os Irmãos Duffer, roteiristas, diretores e produtores norte-americanos, tiveram uma carreira um pouco longe dos holofotes da fama. Eles vinham se destacando com os roteiros que produziam para curtas-metragens e alguns filmes como Hidden, lançado em 2015 e a série Wayward Pines, dirigida por M. Night Shyamalan. Foi esta série que preparou o terreno para os Duffer iniciarem a ideia que norteou a história de Stranger Things.
Lançada em julho de 2016, sob os comandos do diretor Shawn Levy, que dirigiu o recente Deadpool & Wolverine e que você o conhece pela franquia Uma Noite No Museu [2006-2022] a primeira temporada tornou-se um grande sucesso estrondoso e imparável. O núcleo central da narrativa apresenta um grupo de quatro crianças superamigas: Will Byers [Noah Schnapp]; Dustin Henderson [Gaten Matarazzo]; Lucas Sinclair [Caleb McLaughlin] e Mike Wheeler [Finn Wolfhard]. Essas crianças mantiveram a tradição de se encontrarem toda a semana para jogar D & D, um famoso jogo de tabuleiro [RPG] de fantasia medieval com guerreiros, magos, feiticeiros, dragões. O D & D surgiu na década de 1970 e toda a dinâmica do jogo serviu de base para a série dos Duffer, ambientada na década de 1980, na fictícia cidade Hawkins, situada em Indiana, norte dos EUA.
A despedida de Stranger Things deixa para nós aquela sensação de que esta série ainda vai atravessar algumas gerações até a nossa consciência perceber o marco histórico que ela representa para a produção televisiva. Não seria exagero afirmar que ela, de certa forma, determina um divisor de águas para a cultura, pois é possível perceber um mundo antes e um pós a sua passagem entre 2016 e 2026. É uma década marcante. A série sobreviveu à pandemia e soube apresentar uma jornada de crescimento, tanto das crianças que a protagonizam, quanto da narrativa que lhe foi proposta. Se você for dar play no capítulo final que chegou a nós na virada de ano novo esperando grandes emoções, aquele derradeiro despejar de lágrimas, aquele choro doído, você poderá se decepcionar. Não há grandes revelações, mas isso não pode determinar a força emotiva que a história pode lhe proporcionar.
A quinta temporada foi dividida em 3 volumes: o primeiro, trouxe quatro episódios perfeitos, grandiosos, bem construídos e muito bem amarradinho; o segundo volume, com 3 episódios, foi mais morno, pois a narrativa preocupou-se em estabelecer os personagens, aliviar as tensões enquanto se preparava para o embate final. Já o terceiro volume, com um episódio final de mais de duas horas de duração uniu o primeiro e o segundo volumes para nos entregar uma narrativa de esperança, alegria e de amizade. Cada núcleo de personagem encontrando a sua verdadeira razão para seguir em frente e uma Hawkins disposta a recomeçar. Reconstruindo prédios e casas enquanto estabelece novas amizades e novas oportunidades de conhecer o mundo lá fora.
Um bom final não é aquele que termina com lutos desnecessários ou com perdas significativas. Finais bons também são possíveis nas conquistas, nas vitórias. Os Irmãos Duffer optaram por este caminho e acertaram. Na verdade, acertaram e muito bem acertado. Enquanto mundos se colidem, a nossa vida precisa dar um salto relevante. Aquele salto que irá mudar totalmente o rumo de tudo. Enquanto Mike, Lucas, Mill, Dustin e Max jogam o que parecia ser a última partida de D & D juntos e ali estabelecem que o que eles são será para sempre, Jonathan Byers [Charlie Heaton]; Steve Harrington [Joe Keery]; Nancy Wheeler [Natalia Dyer] e Robin [Maya Hawke] constroem uma amizade improvável que também irá se perpetuar. Stranger Things é sobre isso: sobre a amizade que decidimos construir entre nós e que decidimos manter e sustentá-la para o resto da vida.
Algumas críticas, mais no tom de sarcasmo, tomaram conta das redes sociais a respeito do potencial de maldade do vilão Vecna [Jamie Campbell Bower]. Aquela história de que a música era a sua fraqueza não era bem verdade. A fraqueza do Vecna era acreditar que as crianças eram fracas, manipuláveis e fáceis de enganar. A música, dentro da narrativa funcionou como uma ponte entre nossas emoções e a nossa memória. Por exemplo, a Max Mayfield [Sadie Sink] encontrou na música a maneira de não deixar que o Vecna a destruísse por dentro. A ligação com a música permitia que o vilão não acessasse suas memórias e assim o mantinha distante. A ligação de Stranger Things com o fato da música poder nos ajudar a sobreviver é um dos mais poderosos legados que a série nos deixa, além, é claro de sua inspiração num dos mais famosos jogos RPG.
No embate final, quando Will mais uma vez assume a mente do Vecna e afirma “nós não temos mais medo de você”, ele deixa claro que não se trata de vingança e nem de acabar com tudo aquilo, mas trata-se de amizade e família. Joyce Byers [Winona Ryder], que ganhou bem menos espaço nesses capítulos finais esteve ao lado do filho todo o tempo. Talvez teria sido melhor aproveitada se ela tivesse ficado com Hopper [David Harbour] e Eleven [Millie Bobby Brown], mas, por algum motivo, ter a mãe ao lado do filho pode ter seu significado, mesmo que tenha sido uma presença mais silenciosa.
Para os que não tiverem “curtido” o episódio final, vale deixar aqui um lembrete pra vocês: nós estamos muito acostumados – e não é culpa nossa – com finais destruidores, aqueles que nos esgotam de tanto lamentar e chorar, com aqueles finais gigantescos, cheios de ação de tirar o fôlego etc. O final de Stranger Things também é assim: é grandioso, mas não é destruidor e uma coisa é possível sem a outra. Não precisou ter mortes chocantes, ao invés disso, todos tiveram a chance de lutar e todos venceram. Talvez nós não estejamos acostumados a ver todo mundo vencer. Talvez na nossa consciência, a gente tem lutado mais para ver quem vai sair derrotado dessa, ao invés de apostar na vitória de todos. Stranger Things termina a sua jornada tornando-se um verdadeiro legado para as séries de TV, para a cultura e para o consumo do entretenimento. Por mais finais assim...
Por Dione Afonso | Jornalista