19 Jan
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Mary Bronstein é uma cineasta um tanto quanto incomum. Novaiorquina, Bronstein possui filmografia curta, tendo sua estreia na direção com o curta Yeast (2008) com tema central a amizade entre três mulheres. A cineasta tem se tornado um dos nomes que apoia e atua num notável cinema independente entre os americanos e de baixo orçamento. Seus temas sempre navegam entre relacionamentos tóxicos e as crueldades que a vida social pode nos afetar dolorosamente. Amante das improvisações e das câmeras que descartam o ensaio e deixa a história ser contada sem muitos efeitos artificiais, a cineasta tem ganhado notoriedade com o seu longa-metragem de estreia, o desconfortável Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria. 

O novo trabalho traz o excelente protagonismo de Rose Byrne. Vencedora do Globo de Ouro por sua atuação num Filme de Comédia, a história segue sua personagem, Linda, uma psicóloga que de repente precisa lidar com uma rotina que começa a se desmoronar. O marido, sempre fora por conta do trabalho num navio, o filho com uma doença estranha e que necessita de cuidados extremos, uma paciente que, misteriosamente desaparece e sua rede de apoio que começa desacreditar de seu futuro. Byrne contracena com ASAP Rocky; Conan O’Brien e a própria cineasta, Mary Bronstein. 


Teve minha curiosidade... 

O título do primeiro longa-metragem de Bronstein teve a nossa curiosidade. Sem sabermos muito, e apostando que iriamos ter diante de nós uma história de terror, no sentido literal da palavra, a cineasta nos surpreende com algo muito mais pavoroso e real. Linda é uma personagem completamente perdida e sem perspectivas de um futuro tranquilo e feliz. Ela é aquela supermãe que não mede esforços para que a vida do seu filho, mesmo enfrentando uma doença, não seja pesada e amarga. Profissional do ramo da psicologia, é interessante a decisão madura da cineasta em colocar Linda também como um ser humano frágil que precisa se consultar com um psicólogo. O título do filme nos pega de surpresa e nos deixa ansiosos para o que as cenas estariam guardando para o público. 

Rose Byrne carrega 100% toda a história nas costas. Sua atuação é magistral, e sua personagem consegue nos fazer sentir os mesmos sentimentos que ela sente: cansaço, esgotamento, exaustão, desespero, angústia, desespero, sentimento de derrota... Os gritos silenciosos, aqueles que explodem do olhar, das lágrimas que ela segura e não as deixa cair nos angustia e nos deixa claustrofóbicos, mesmo estando dentro de uma imensa sala de cinema e com muitos outros cinéfilos à nossa volta. Sente-se sozinha, mesmo estando ao lado de tantas outras pessoas. O fato de Bronstein não apresentar o marido e deixa-lo participar apenas com sua voz pelo celular deixa a história ainda mais pavorosa e próxima do que tantas mulheres enfrentam na vida real. 

O filme é claustrofóbico, nos deixa sem ar, porque a cada ato, temos a certeza de que tudo irá desmoronar. Não há saídas possíveis para que esta história tenha um final agradável e feliz. O sentimento de derrota é iminente e impossível de ser afastado de nós. Linda lida com inúmeras situações ao mesmo tempo e os sentimentos à flor da pele emanam de uma atuação muito sincera de Byrne. A cineasta coloca a câmera dentro do rosto da atriz, dando a desconfortável sensação de invasão e de violação da intimidade. O esgotamento emocional é um fato e precisa ser encarado como uma realidade social que mesmo não escolhendo status e vítimas, ele atinge, na maioria das vezes, mulheres e pobres. 


... ganhou minha atenção e respeito 

Quando olhamos para os trabalhos anteriores que a cineasta realizou, percebemos que sua marca cinematográfica está consolidada: Mary Bronstein não quer narrar histórias bonitinhas, e agradáveis. Seu cinema é o cinema do desconforto, das relações tóxicas, dos esgotamentos humanos, da falta de esperança, de amizades interesseiras e oportunistas, da frustração e impaciência... Assistimos a protagonista perdendo suas forças e esvaindo sua vontade de seguir em frente. Até porque, quando ela olha para frente, nada lhe é possível enxergar. Nenhuma solução, nenhuma possível saída. Até mesmo a única presença masculina que está em sua vida, seu psicólogo, vivido por Conan O’Brien, desiste dela. Um vizinho jovem, interpretado por ASAP Rocky, que tenta marcar presença é, de forma abrupta afastado de seu convívio. 

Linda chegou num ponto da vida em que gestos de altruísmo não lhe são mais possíveis, principalmente se estes vierem de homens com boas intenções. A vida a moldou com chicotes e lanças tomadas pelo fogo da perversidade. Não adianta mais tentar libertá-la de uma vida marcada pela luta diária e o trabalho pesado. Linda tornou-se uma mulher marcada pela maldade social, o abandono e a solidão. Não vai ser um buquê de rosas que irá resgatá-la desse breu de crueldade.





Por Dione Afonso  |   Jornalista

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