Lançado em 1996, o primeiro Pânico, dirigido por Wes Craven tornou-se um marco histórico na seara dos longas-metragens slashers e de baixo orçamento. O filme que deveria passar despercebido diante de público e críticos acabou ganhando o interesse, a atenção e o respeito dos amantes da Sétima Arte. Reconhecemos nos quatro primeiros filmes os trabalhos originais de toda a franquia, em que a genialidade do Ghostface encantava o público e inseria medo e pavor em quem assistia e até mesmo no próprio elenco. O famoso “quem matou?”, aqui é substituído por “quem está atrás da máscara?” e este mistério e suspense é o grande responsável em manter o interesse do público até o último instante.
A atriz Neve Campbell, nossa famosa final girl e sua parceira de cena, Courteney Cox deram voz e sentido à franquia. O trabalho das atrizes foi tão bem-feito que elas acabam se tornando a essência de toda a franquia, ao ponto de tirá-las da atuação seria o mesmo que tirar de Pânico sua essência e razão de existir. Sidney Prescott e a jornalista Gale Weathers cresceram na mesma medida em que o sucesso da franquia ganhava corpo e sucesso. É majestoso o quanto que elas e a franquia de filmes cresciam juntos. No novo filme, além do retorno de nossas rainhas do terror, o elenco também traz de volta Matthew Lillard e David Arquette, mas não como imaginamos, e muito menos como pensávamos que retornariam. Mckenna Grace; Isabel May; Anna Camp e Asa Germann também estão no elenco.
É inevitável e muito injusto um filme ter que carregar a responsabilidade de ter que corrigir as falhas que seu antecessor causou. Em Pânico 5 (2022) e Pânico 6 (2023), ambos dirigidos pela dupla Tyler Gillett, Matt Bettinelli-Olpin, o criador Kevin Williamson decide abrir uma nova porta para a franquia e muda duas “regras de Pânico”, a primeira delas é salvar a garota da cena de abertura. Por que não, dessa vez, deixar a garota indefesa da cena inicial sobreviver? Isso gerou um impacto positivo para os fãs da franquia e funcionou muito bem. Contudo, no filme de 2026, com Williamson assumindo também a direção, esta ideia é abandonada e o novo filme retoma a “regra original”. A segunda mudança, que também foi positiva foi o deslocamento geográfico. Agora, o Ghostface lança suas maldições para fora da fictícia Woodsboro e avança para as silhuetas novaiorquinas, trazendo a ótima proposição de que o mal e as ameaças do Ghostface não têm limites, nem nas maldições psicológicas e nem nas geográficas.
Os retornos de Sidney Prescott (Campbell) e de Gale Weathers (Cox) assumem uma posição que mistura desespero e nostalgia ao mesmo tempo. Sidney agora tem Tatum (May), sua filha, que conhece todo o passado da mãe, assistiu a todos os filmes Facada, e sabe dos detalhes dos desastres da vida da mãe. E Mark Evans (Joel McHale), seu marido e policial, e os três vivem em Indiana. A antiga casa da família Prescott vira uma espécie de museu onde quem “curte” a história vai lá para conhecer. A cena de abertura deste filme coloca o novo Ghostface nessa casa e assassina um casal de turistas que estavam visitando a casa. O primeiro clichê que este filme apresenta é a péssima relação entre uma mãe de um passado conturbado que não consegue se reconciliar com a filha adolescente que não consegue ouvir a mãe e as preocupações.
Neste momento, os filmes 5 e 6 funcionam como uma experiência extra, um capítulo isolado dentro da franquia e que funcionam perfeitamente bem. A ausência de Sidney Prescott na matança de Nova York é notada e usada dentro do roteiro narrativo de Pânico 7. Stuart Macher (Lillard) retorna de forma horripilante ameaçando Prescott e sua filha. Usando os recursos do deepfake, e com a IA como elemento perigoso, o roteiro é honesto e inteligente, seguindo os avanços da modernidade. O fato do Ghostface decidir como seu próximo alvo a filha de Sidney pode ter sido até uma boa jogada, contudo, é preciso que essa decisão não caia nos clichês como armadilhas malsucedidas. O filme aposta ainda mais forte no gore o que torna a franquia mais poderosa, menos cômica, mais assustadora e com mais terror.
Gale Weathers tem retorno triunfal e fascinante. Seu estilo jornalístico é bombástico, não se preocupa com a ética, mas é fabuloso e divertido. A revelação do primeiro Ghostface é sem graça, mas com um propósito ainda maior. O roteiro de Williamson, que é co-assinado por Guy Busick é audacioso em tornar as coisas fáceis demais num primeiro ato. O segundo ato traz o protagonismo da família Bowden com a mãe Jéssica (Camp) e o filho Lucas (Germann). Gale tem “tino jornalístico”, senso crítico e um sentido muito apurado para desconfiar de tudo e de todos, mas principalmente para desconfiar das pessoas certas em locais certos. Lucas Bowden tem um interesse estranho e no mínimo incomum para um adolescente. Inclinação para filmes de terror e gosto para os assassinatos e crimes hediondos.
Há alguns que afirmam que o novo filme revela um desgaste inevitável da franquia, na verdade, o que Pânico 7 revela é que tanto Campbell, quanto Cox, por mais que amem suas personagens e a história que construíram juntas, elas sentem que a franquia precisa de novo gás. Novos rostos que não necessariamente dispensaria os atuais. Se cairmos nessa ideologia poderíamos reforçar aquela política que segrega e aposenta aqueles, que, por força da idade já não serviriam mais para o trabalho que há anos fazem. O etarismo já é uma cultura consolidada e ativa dentro de Hollywood, e não precisamos de reforçar esta proposta aqui.
O novo Pânico é um frescor para os amantes da franquia. A jornalista e diretora de arte do Canal “EntreMigas”, Natália Bridi, em suas falas honestas a respeito das produções do audiovisual sempre revela uma preocupação muito tocante a nós que é quando ela busca o coração de cada obra, filme ou série. Bridi costuma dizer, “este filme, ou esta produção tem coração, você vê a alma verdadeira do projeto ali”. Quero parafrasear Natália Bridi, quem estimo muito e alguém que tem consciência crítica com o que fala e faz e, dizer que vejo coração em Pânico 7. O filme tem honestidade em sua narrativa. Valendo-se de velhos clichês a obra consegue homenagear o passado e respeitar o presente. Não se preocupa tanto com o futuro, mas deixa a porta aberta para quem pretender entrar e apostar. É um bom filme e vale a nossa atenção.
Por Dione Afonso | Jornalista