O nome Emerald Fennell nos é conhecido desde 2012 quando ela participou do elenco no filme Anna Karenina, de Joe Wright. Com o cineasta Tom Hooper, em 2015, Fennell também atuou no famoso A Garota Dinamarquesa. Mas, seu nome ganhou mesmo credibilidade e atenção mundial quando em 2020, ao dirigir Bela Vingança, a cineasta, fez sua estreia na direção ao narrar uma história que expõe a cultura machista e violenta contra mulheres violentadas. Protagonizada pela impecável Carey Mulligan, o filme venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original, também assinado pela cineasta. O longa de 2020 fez os olhares artísticos do mundo reconhecer pelas lentes dirigidas por Fennell, uma nova sensibilidade cinematográfica, ao expor nua e crua uma cultura de morte contra as mulheres de nossa sociedade.
Uma das características na filmografia de Fennell dá-se por sua beleza e grandiosidade teatral nas histórias que decidem contar. Se, em Bela Vingança, a teatralidade ganha cenários onde a vingança contra o mal ganha protagonismo, em Saltburn, por exemplo, a sexualidade aflorada e o desejo de ascensão social encontram nas atuações de Jacob Elordi e Barry Keoghan, o palco perfeito para as cenas grandiosas regadas a muita cor, brilho e elegância. Agora, na nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, encontramos mais uma vez a teatralidade de Emerald Fennell ao decidir encharcar a sua versão da literatura de elegância, paixão desordenada e, ao mesmo tempo em que a riqueza é em demasiado, também é a pobreza, mais baixa que a miséria social, repugnante e desvanecido.
Lançado em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes é o único romance de grande sucesso da britânica Emily Bronte. A autora apresenta a história de um romance impossível de se consolidar numa narrativa focada no lirismo, mas com vocabulário gótico chulo, quebrando padrões literários já consolidados na época. A obra já recebeu, nestes 180 anos de publicação, mais de 60 adaptações para o audiovisual, entre filmes e séries de TV. Inclusive, a primeira adaptação ainda pertence à era do cinema mudo, datada de 1920. Outras versões também fizeram grande sucesso como a de 1939, estrelado por Laurence Olivier e Merle Oberon; a de 2011 que nos surpreendeu com as atuações de James Howson e Kaya Scodelario, dado às suas características culturais e também a adaptação de 2009, que nos apresentou o belo Heathcliff na pele do ator Tom Hardy e Catherine Earnshaw pela atriz Charlotte Riley.
Agora, Jacob Elordi dá vida a Heathcliff, um menino que foi adotado pelo Sr. Earnshaw (Martin Clunes), quando o encontrou perdido. O jovem Heathcliff (que foi vivido por Owen Cooper), construiu uma bela amizade com a filha única de Earnshaw (vivida na fase adolescente pela Charlotte Mellington). Os dois cresceram construindo uma amizade bonita e sincera até se encontrarem numa encruzilhada difícil de se resolver: a amizade virou uma paixão avassaladora e incontrolável. Elordi divide as cenas com Margot Robbie, que dá vida à Catherine na fase adulta, o que enriquece ainda mais esta nova adaptação. Ambos já são conhecidos da cineasta: Elordi foi o protagonista de seu filme anterior, Saltburn; e Robbie, ela a conhece do filme Barbie, onde Fennell interpretou a versão da boneca grávida que foi descontinuada pela Mattel.
Não caindo na arapuca em dissertar sobre se essa é a melhor adaptação ou não, ao observar o olhar que a cineasta dá a esta história, percebemos que Fennell opta em recontar a literatura partindo de um ponto de vista mais teatral e menos pragmático. O livro de Bronte é rico em detalhes, há narrador oculto e o lirismo é aflorado, isso sem contar do estilo narrativo da escritora que é bem original para aquela época. Já no filme com Elordi e Robbie, o que encontramos é a beleza de um cenário inigualável e uma fotografia que fala por si só. Nos detalhes da trama sentimos os prazeres e o desespero de cada atuação. Vai muito além de um figurino espetacular e de um Heathcliff viril, bonito, de grande estatura, charmoso e muito sedutor.
É injusto afirmar que a adaptação de Fennell não é fidedigna às páginas de Bronte. Acreditamos que nunca iremos encontrar uma releitura televisiva ou do audiovisual que dê conta de traduzir cada detalhe e cada sentimento de um livro. Temos diversas versões desta história e cada uma delas optou por um caminho interpretativo. E interpretar não é trair a originalidade de uma história. Quando olhamos para este O Morro dos Ventos Uivantes, identificamos que a cineasta fez de Catherine, não uma vítima da situação, mas uma mulher apaixonada que não soube o que fazer com tanto amor dentro de seu corpo. Mesmo casada com Edgar Linton (Shazad Latif), o que ela sentia pelo marido era respeito e companheirismo. O amor mesmo se escancarou nas várias interações sexuais, mordazes e bastante reais entre ela e Heathcliff.
Quando o verdadeiro amor é impedido de continuar, o que era pra ser paixão torna-se manifestação animalesca. É o que assistimos quando Heathcliff faz com Isabella Linton (Alison Oliver), transforma o amor em submissão, na verdade, nem se pode chamar de amor o que acontece entre os dois, mas, parece-nos ser mais uma chantagem emocional que dá muito errado. Toda a história é regada a amor verdadeiro, ciúmes doentios, paixão avassaladora e tragédia anunciada. Parece inevitável, mas desde as primeiras páginas do livro, já sabemos que toda esta história não deve acabar bem, e Emerald Fennell, faz questão de que tenhamos esta mesma sensação desde os primeiros minutos do filme. O cinema que Fennell produz, cria e entrega a nós é um cinema sensível, delicado, mas muito potente, forte, resistente e feminino. Isso faz toda a diferença dentro de uma realidade machista, viril e de cultura segregada.
Grande destaque merece o seu Diretor de Fotografia, Linus Sandgren, que fez das grandes cenas verdadeiros cenários pintados à mão. Desde as cenas frias, chuvosas e a do enterro do Sr. Earnshaw, até às cenas em plena luz do dia, destacando o vermelho vivo das frutas, dos vestidos, dos laços de cabelo, o azul cintilante detalhando cada curva do vestido negro e até à cena derradeira da morte de Catherine Earnshaw, num grande bloco branco quando o vermelho vivo do sangue anuncia a tragédia que já esperávamos. É uma boa adaptação, se melhor ou pior entre as tantas que já foram feitas, não cabe aqui dizer, mas, com toda a certeza, é uma adaptação digna dos olhares femininos e culturais emergentes dos dias atuais.
Por Dione Afonso, jornalista