Recentemente, entre um vídeo e outro, rolando o feed das redes sociais, deparei-me com uma humorista brasileira, Bruna Louise, esbravejando a seguinte situação: que a era da romantização só reforça o machismo, pois o corpo padrão é exigido e pesa mais para o lado da mulher. Se a mulher está acima do peso, ela “não se encaixa no padrão social aceitável”, mas se o homem está acima do peso, nós mesmas romantizamos, chamando-o de barriguinha sexy, corpo de marido ideal. Noutro dia, a mesma humorista, em seu stand-up de comédia, ao citar a cantora Anitta, que viralizou quando um homem qualquer disse que a artista é uma mulher fracassada porque não conseguiu um bom homem, um casamento, não progrediu... Enfim, Bruna Louise, em forma de humor, revela o quanto a sociedade ainda prolifera uma cultura machista que oprime e maltrata a vida das mulheres.
De uma forma bem contundente, o cineasta norueguês Kristoffer Borgli não usa o humor, mas de forma sarcástica, sutil e inteligente, coloca em pauta uma discussão semelhante em O Drama, seu novo filme. A história é protagonizada por Zendaya e Robert Pattinson que dão vida a um casal que se apaixona à primeira vista numa lanchonete, vivem um namoro feliz, relacionamento bem construído e se preparam para o tão sonhado dia do casamento. O elenco ainda ganha reforços de Mamoudou Athie; Alana Haim e Zoe Winters. Borgli também assina o roteiro. Sobre Borgli, talvez você o conheça de O Homem dos Sonhos (2023); também dirigiu Doente de Mim Mesma (2022).
Uma coisa deste filme é fato: ele só funciona por causa de Zendaya e Pattinson. A dupla, em cena é perfeita e eles entregam o melhor que possuem de um roteiro que é exigente e cheio de armadilhas. Borgli consegue nos manter escondidos o tempo todo. Nunca saberemos o que virá a seguir e a sensação que temos é que vamos descobrindo sobre a história na medida que a própria história vai se desenrolando. Zendaya é Emma, uma jovem mulher que ama ler e Pattinson é Charlie, um jovem tímido que se apaixona à primeira vista. O casal se conhece numa lanchonete, enquanto tomam um café. É ele quem toma a iniciativa e é ela quem esbanja carisma e olhar cativante. Aquele olhar que um casal apaixonado geralmente faz, acontece ali.
O filme tem dividido opiniões. De fato, é uma história que demora pra nos fazer interessar por ela. O longa é caótico, um pouco confuso, enigmático, mas é poderoso e com presença. Ele reúne dois artistas que têm sido os grandes expoentes de Hollywood. Um fato interessante é que nós assistimos este filme sem saber de nada dele. O material de divulgação o vendeu como uma simples comédia romântica, contudo, o melhor foi guardado para as salas de cinema. Ele pode até ser romântico, mas um romance que se desmancha, que sofre DR, que enfrenta brigas, discussão e até um casamento que termina de uma forma inimaginável. Não é um relacionamento que apoia e valoriza, mas algo que é construído sobre situações adversas que nem sempre o amor dá conta de sustentar.
Quando o casal vai ao estúdio de fotografias e ensaiam algumas fotos, aquela cena é impagável. A fotógrafa dando seu suor para extrair o melhor de Emma e Charlie, mas parece que nem o sorriso de ambos gera conexão afetiva. Afeto! O filme carece de afeto, e isso não é uma crítica, mas uma constatação do que os protagonistas não estão conseguindo transmitir nem entre eles e nem para o público. O primeiro amor virou desconfiança, desconforto, desamor.
Lembram do relato da humorista Bruna Louise no início deste texto? Pois bem! O estopim de O Drama habita numa mesa em que Emma e Charlie, com os seus melhores amigos brincam de “qual foi a pior coisa que você já fez?”. Os amigos contam o caso deles, Charlie inventa um para si e Emma conta a dela. Quando Emma revela o que ela julga ter sido a pior coisa que ela já fez ela é julgada por todos. O que era pra ser uma brincadeira se torna um tribunal de julgamentos, discussão e até briga. Emma é julgada pela melhor amiga, pelo amigo e é desacredita pelo noivo na semana do casamento. Charlie não consegue olhar para a futura esposa com os mesmos olhos. Com o mesmo amor. Contudo, toda a cena gira em torno da pior coisa que uma mulher já fez. E se fosse o Charlie? Será que o julgamento, a indignação teriam o mesmo peso?
Até onde conhecemos as pessoas com quem dividimos o teto? Com quem moramos? Com quem transamos? O roteiro de Borgli é traiçoeiro, maldoso e nos deixa no escuro o tempo todo. O que era amor e sexo, vira olhares desconfiados, julgamentos e autodefesa entre uma justificativa e outra. Mas, em nenhum momento nenhuma das partes decide por um ponto final nessa história. Levam o casamento até o ato final, mesmo terminando de uma maneira que ninguém esperava. Aliás, nada do que ocorreu a gente esperava. Nem o elenco e nem o expectador. Os julgamentos se estendem para fora até demitir a DJ que iria tocar na festa de casamento depois do casal topar com ela usando drogas na rua. O que foi taxado como antiético. Por fim, O Drama é dramático, tenso, monótono, as vezes chato, que divaga entre um tumulto e outro, mas é uma narrativa que merece nossa atenção.
Por Dione Afonso | Jornalista