23 Jul
23Jul

O nome de Olivia Wilde não é incomum. Apesar de sua trajetória de sucesso estar ainda no começo, Wilde teve que encarar algumas tramas de atuação que depunham contra seus valores e eram controversos à sororidade e feminilidade. Norte-americana e de raízes irlandesas, a atriz iniciou sua jornada na série The O.C. (2004) e House (2007). Chegou a trabalhar também no elenco de 72 Horas (2010); Tron: Legacy (2010); Cowboys e Aliens (2011) e Rush (2013). Mas, em 2019 Olivia Wilde resolve dar um novo impulso à sua carreira, e a atriz, lança-se na direção e nos presenteia com Fora de Série. Uma comédia que serve como uma resposta à altura a toda sexualização que sofreu no tempo de atuação e que revela, de fato, o que ela pensa sobre o lugar e o papel social da mulher. Dividindo opiniões, em 2022 ela lança Não Se Preocupe, Querida, estrelando Harry Styles e Florence Pugh e, agora ela ataca novamente com o ousado O Convite. 

Desejos reprimidos, casamento desgastado, decadência no trabalho, vida tediante, dilemas relacionais não resolvidos... tudo isso vira banquete na trama que Olivia Wilde nos apresenta. Com roteiro de Will McCormack e Rashida Jones, história é baseada na criação de Cesc Gay, Sentimental, uma comédia de 2020. A atuação fica a cargo do quarteto Penélope Cruz e Edward Norton, como o casal Pina e Hawk; Seth Rogen e Wilde como o casal Joe e Angela. As duas horas de filme se passam totalmente no apartamento de Joe, quando Angela decide, abruptamente, convidar os novos vizinhos Pina e Hawk para uma noite de queijos e vinho. Contudo, a noite derradeira, sem vinho e com tolerância a lactose se torna um antro de desabafos, choro e lições de moral no qual a vida de cada um é exposta pela culpa e arrependimentos. 


Crise dos afetos 

O papel do casal protagonista fica a cargo de Wilde e Rogen. A cena é o próprio apartamento, e, tal cenário é um retrato fidedigno de quem nele sobrevive. Aparentemente é um apartamento amplo, de vários cômodos, mas, talvez seja por escolha da câmera sob o olhar meticuloso de Wilde, parece-nos que a amplidão daquela casa é afogada nos entulhos que cada cômodo resguarda e nos entulhos que a vida de cada acumula em seus corpos e na consciência. Para compreender o que se passa em O Convite, é preciso realizar uma leitura detalhada do único cenário onde toda a trama acontece. Aquele apartamento fala. Ele tem voz própria e ocupa, também um papel protagonista para a história. Ali vive duas pessoas que não sustentam mais uma rotina de casal. Joe é um músico falido e professor de música sem sucesso no trabalho enquanto sua esposa, Angela parece não desenvolver nenhum papel social relevante. Ela não tem ocupação, passa o dia todo tentando redecorar a casa, sem perceber que as paredes de sua própria vida precisam de uma nova cor. 

Já os coadjuvantes Cruz e Norton são os vizinhos do andar de cima. Recém-chegados ao prédio, Joe se incomoda com os barulhos que eles causam, sobretudo os noturnos, resultado das manifestações sexuais e das alegrias que o orgasmo humano proporciona. Sabemos pouco do casal Pina e Hawke. O próprio roteiro decide não nos revelar algo mais sobre os vizinhos, e tal decisão é coerente com a trama, pois nos faz manter o foco no casal protagonista. Penélope Cruz está imbatível em seu papel e revela uma Pina muito leve, feliz e satisfeita com a vida que leva. Entre um diálogo e outro, vamos descobrindo algumas nuances de sua personalidade até culminar numa Pina conselheira e com elevado grau de maturidade. Hawke é ex-bombeiro e é também um homem realizado. Viúvo do primeiro casamento, construiu uma amizade muito leve e sadia ao lado de Pina. Os dois tem uma rotina tranquila, um relacionamento liberal e uma consciência livre e aberta às experiências da vida. 

Reunir essas quatro personalidades na mesma cena e sustentá-las por quase duas horas de diálogo e interação é realmente um bom convite. O retrato de muitas situações conjugais é revelado nessa história. Não devemos nos concentrar apenas nas relações casuais e experiências sexuais que o filme revela. Não é este o foco da história, por mais que seja uma realidade muito atual. Mas o coração de toda esta história está no fato de não haver um coração livre e aberto nas experiências relacionais que cada um de nós constrói. E isso não é somente sobre casamento, mas é sobre amizade, trabalho, diversão, paixões, festas, lazer, família... Um coração livre e uma consciência aberta, clara e objetiva podem curar muitas das crises que enfrentamos. Joe e Angela nos fazem sofrer junto com eles. Um casal próspero, bonito, que se afundam no próprio isolamento, deixando que a monotonia e o comum e frio tomem o lugar da festa, do casamento e do sexo. Preferem viver o comum e o trivial a viverem o surpreendente e o sempre novo de cada dia. 


Os fracassos da vida 

Não é pecado fracassarmos. E, nem tampouco, inumano. Eles fazem parte da vida, educa-nos e nos faz retomar a rota e começar de novo. Mas, viver em função do fracasso, isso sim é um erro e um caminho sem saída. Joe e Angela parecem não saber conviverem com o próprio fracasso e nem com o fracasso de ambos. Quando o filme, de repente dá uma virada de ato e a gente começa a perceber que o que deveria ser uma noite de construções amigáveis entre vizinhos, torna-se, na verdade uma terapia conjugal, a nossa atenção sobre a tela se dobra. O apartamento vira uma arapuca, uma armadilha conjugal: o casamento é posto em xeque; os diálogos se transformam em munição; o sexo vira tabu; e a bebida fuga. Cada um busca se refugiar em sua zona de conforto. Joe em seu escritório, abarrotado de papeis e livros, sem espaço até para andar; Angela em sua cozinha totalmente suja e sem abertura para respirar. 

Com a sensação de estarem seguros, cada um em seu refúgio, Joe e Angela sufocam-se na bagunça que os pensamentos oferecem. Pina tenta resgatar Joe de seu poço de tristezas e fracassos enquanto Hawke tenta oferecer à Angela uma corda segura em que ela possa se segurar e voltar a sorrir mais uma vez. O filme termina totalmente sendo o oposto do que ele começo. A discussão do casal nas primeiras cenas dá lugar à música reconfortante sobre o piano na cena final. É um paralelo muito bonito e bem pensado. Olivia Wilde consegue nos mostrar que os entulhos externos são reflexos do nosso interior que não consegue se orientar e abandonar o que nos pesa e nos atrasa. Impede-nos de progredir; afasta-nos das pequenas alegrias do dia a dia. O casamento perde seu sentido; a família vira fardo; a casa torna-se prisão e o sexo...




Por Dione Afonso  |  jornalista.

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