A última vez que vimos algo com a originalidade de Michael Jackson foi em 2009, quando o astro preparava a sua turnê que marcava sua volta aos palcos. No dia 05 de março de 2009, Michael Jackson anunciava a turnê “This Is It”. Segundo o artista, esta seria sua última turnê antes de sua aposentadoria que reunia seus maiores sucessos, mas, infelizmente 18 dias antes do primeiro show, em 25 de junho, o cantor veio a falecer. Com 50 anos de idade e 45 de carreira, consagrado como o Rei do Pop, Michael Jackson até hoje segue invicto na indústria fonográfica.
Dezessete anos depois de sua morte, o cineasta Antoine Fuqua assumiu a corajosa tarefa de narrar a história do Rei do Pop numa cinebiografia dividida em duas partes. O filme Michael, que chegou aos cinemas, neste ano tem sido centro de discussões e debates entre os críticos da cultura pop. Símbolo controverso, recontar a história de Michael Jackson não é uma tarefa fácil. O artista viveu episódios em que o senso de humanidade muito nos emocionou, como suas visitas a crianças com câncer, sua dor ao ver a guerra, a fome, os pobres sem ter onde morar... Por outro lado, os escândalos envolvendo acusações de pedofilia, lavagem de dinheiro e abusos sexuais acabaram deixando marcas cruéis em sua história.
Para dar vida ao artista, o jovem Juliano Valdi interpretou a fase da infância de Michael, e o sobrinho do artista, Jaafar Jackson fez a transição para a vida adulta. Na pele de Valdi, o artista não teve uma infância muito digna de glórias. A família Jackson era uma família numerosa, de negros que tentaram sobreviver à crueldade do racismo e do preconceito. O pai, Joseph Jackson (Colman Domingo) não era o exemplo perfetio de paternidade e nem se esforçava para tal. Ele treinou seus filhos para se tornarem verdadeiras máquinas de dinheiro, capazes de tirar a família da pobreza e dar a todos um futuro com mais dignidade.
O filme retrata muito bem a trajetória do grupo musical The Jacksons Five. O grupo rapidamente foi ganhando o gosto do público e, já se percebe, de imediato o destaque ao pequeno Michael, o filho mais novo, que, com 05 anos de idade já chamava a atenção dos magnatas da indústria fonográfica. O roteiro que é assinado por John Logan é muito superficial, bastante raso ao retratar a história da família e do próprio artista-título. O filme acaba de tornando mais uma grande celebração musical para os que viveram na mesma geração, viram Michael Jackson ganhar os palcos e se tornar o grande fenômeno. O primeiro cantor negro a ir para a MTV, o primeiro negro a ocupar o topo da Billboard entre outras ações que ele conquistou.
Este filme sofreu desde o momento de seu anúncio. A família Jackson, atualmente é bastante famosa, mas não pelos motivos celebrativos. Infelizmente é uma família que precisou se blindar de todos os lados para que a própria privacidade não fosse violada. Erros todos nós cometemos, assumir as consequências desses atos é que é onde a humanidade fraqueja. Não estamos levantando juízos de valor e estamos longe de querer tecer julgamentos, contudo, para narrar na íntegra a história de alguém como Michael Jackson e tudo o que o envolve, é um grande ato de coragem e precisa-se ter certa ousadia para se manter fiel aos fatos. O filme, depois de pronto teve que ser todo refilmado por conta dessas blindagens judiciais que os Jacksons construíram ao redor deles mesmos.
Por conta da falta de profundidade do roteiro, que nos entrega uma história bastante rasa dos personagens, o filme acabou não conquistando os críticos ou os que se dizem entendidos de cinema e que fazem um bom trabalho. Por outro lado, temos um público que transformou as salas de cinema em verdadeiros flashs mob, que cantaram juntos, que gritaram, que aplaudiram, que se emocionaram e choraram a cada clipe musical que surgia na telona. Temos um povo que ainda mantém viva no coração a memória de um artista que marcou toda uma geração, que, de fato, não haverá ninguém que se assemelhará ao que Michael Jackson fez.
Filho de Jermaine Jackson, o sobrinho de Michael, Jaafar Jackson é um espetáculo como ator, como cantor, como artista, como profissional. O jovem, na aurora dos seus 29 anos parece ter incorporado o tio com todos os seus tics, seus trejeitos, sua atuação em frente às câmeras. Quem viveu na época de Michael e viu ele crescer como artista, é inevitável olhar para Jaafar e não se confundir. Talvez aquelas teorias conspiratórias de que Michael não morreu possam ter um ponto de verdade, não é mesmo?! Ir aos cinemas para celebrar a jornada de Michael é uma experiência que cada um de nós precisa dar uma chance e experimentar. Sucesso de público, as bilheterias estão desbancando outras cinebiografias que também são muito dignas de nossa atenção.
Por Dione Afonso | Jornalista